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Ataque de Juncker, Putin e Xi Jinping ao ‘privilégio exorbitante’ do dólar

O presidente da Comissão Europeia disse esta quarta-feira no seu último discurso sobre o ‘Estado da União’ que é “um absurdo” a União Europeia pagar 80% das suas importações de energia em dólares. No dia anterior, o presidente russo reafirmou que o rublo e o yuan passarão a ser mais usados nas trocas bilaterais entre a China e Rússia

Jorge Nascimento Rodrigues

Comissão Europeia, China e Rússia querem diminuir o uso do dólar nas trocas comerciais internacionais. Pode ser uma coincidência geopolítica fruto das agendas, mas, em dois dias seguidos, Vladimir Putin, o presidente russo, e Jean-Claude Juncker, o presidente da Comissão Europeia, expressaram a vontade política de usar mais as respetivas divisas no comercio internacional em vez da moeda norte-americana. O dólar continua a ser a moeda global de reserva e a divisa mais usada nas trocas comerciais, em particular no mercado de matérias-primas.

Em 1965, o então ministro das Finanças francês Valéry Giscard d'Estaing cunharia a célebre expressão de que o domínio do dólar desde os acordos de Bretton Woods antes do final da Segunda Guerra Mundial dera aos EUA “um privilégio exorbitante”.

“A Rússia e a China confirmaram o seu interesse em usar as suas próprias moedas mais frequentemente nos pagamentos recíprocos”, sublinhou Putin em uma conferência de imprensa conjunta com o presidente chinês Xi Jinping no encerramento em Vladivostoque do Fórum Económico do Oriente. A decisão de dar este passo foi tomada em junho. A China é o principal parceiro comercial da Rússia. Xi, por seu lado, disse mais tarde que a parceria política e económica entre os dois países “permite em conjunto neutralizar os riscos e desafios externos e apoiar o desenvolvimento económico”.

O rublo tem sido nos últimos doze meses uma das moedas mais castigadas, a par do real brasileiro, do rand sul-africano e mesmo da rupia indiana, as divisas de três dos parceiros no grupo dos BRICS (acrónimo em inglês para Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul), que se tem vindo a afirmar geopoliticamente desde a primeira cimeira de chefes de estado em junho de 2009 em plena recessão mundial.

A reafirmação da vontade de Moscovo e Pequim no uso das suas moedas nos pagamentos recíprocos surge num contexto de mais sanções à Rússia por parte dos EUA e da escalada do presidente norte-americano na guerra comercial contra a China.

O “absurdo” denunciado por Juncker

Em Estrasburgo nesta manhã de quarta-feira, o presidente da Comissão Europeia afirmou perante o Parlamento Europeu que “é um absurdo que a Europa pague 80% da sua conta de importação de emergia no valor de 300 mil milhões de euros por ano em dólares dos Estados Unidos, quanto apenas cerca de 2% das nossas importações de energia vêm dos EUA”. Acrescentou que “é um absurdo que as empresas europeias comprem aviões europeus em dólares em vez de euros”.

O presidente luxemburguês da Comissão proferiu o seu último discurso sobre o ‘Estado da União’ no quadro do seu atual mandato insistindo que chegou “a hora da Europa”. Sublinhou que é preciso “atuar mais como ator soberano nas relações internacionais”. Uma das áreas é a das trocas comerciais, tendo Juncker adiantado que “antes do final do ano, a Comissão apresentará iniciativas para reforçar o papel internacional do euro”. “O euro deve tornar-se o rosto e o instrumento de uma nova Europa mais soberana”, concluiu sobre este ponto.