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Aniversário do colapso financeiro de setembro de 2008 sob o signo do pessimismo

A 15 de setembro passam dez anos sobre a falência do banco de investimento Lehman Brothers em Nova Iorque, o acontecimento marcante do auge da crise financeira internacional. Protagonistas chave daquela altura estão hoje em dia pessimistas com o rumo da economia e da finança mundial dez anos depois

Jorge Nascimento Rodrigues

O próximo sábado marca o décimo aniversário do acontecimento mais marcante do que ficou conhecido como o “setembro negro” de 2008, o ano do pico da crise financeira mundial. A 15 de setembro daquele ano os mercados mundiais foram abalados por uma 'segunda-feira negra'. Os ventos de comemoração atual estão ensombrados pelo pessimismo.

O trio de protagonistas que geriu o colapso financeiro nos Estados Unidos escreveu um artigo de opinião no jornal The New York Times (NYT) a alertar que “o inimigo é o esquecimento”. Os autores são Henry Paulson, então secretário do Tesouro do governo de George W. Bush, Ben Bernanke, o então presidente da Reserva Federal (Fed), o banco central, e Timothy Geithner, o presidente do Banco da Reserva Federal de Nova Iorque. Jean-Claude Trichet, então presidente do Banco Central Europeu, desabafa à Agence France Press que “o sistema financeiro global está, pelo menos, tão vulnerável quanto em 2008, se não mais”. Christine Lagarde, a diretora-geral do Fundo Monetário Internacional (FMI), lamenta, numa declaração publicada no site da organização, que o “sector financeiro continue a colocar os lucros imediatos à frente da prudência de longo prazo, e que a visão de curto prazo continue a imperar sobre a sustentabilidade”.

Lagarde e os três autores do texto de opinião no NYT coincidem numa preocupação atual – o risco de ser desmantelada a regulação financeira que ainda sobrevive. “Devemos resistir aos apelos para eliminar as proteções à medida que a memória da crise se desvanece”, dizem Paulson, Bernanke e Geithner. “Talvez o mais preocupante de tudo, é que os responsáveis pelas políticas estão a enfrentar uma pressão substancial do sector [financeiro] para reverter os regulamentos pós-crise”, escreve, por seu lado, a diretora-geral do FMI.

Bolsas afundam-se no 'setembro negro' de há dez anos

Recorde-se que a 15 de setembro de 2008, a primeira 'segunda-feira negra' daquele mês, registou-se o acontecimento marcante do auge da crise financeira que abalou então o mundo.

O banco de investimento Lehman Brothers foi à falência em Nova Iorque, deixado cair pelo Tesouro e pela Fed durante o fim de semana, precisamente pelos três autores do recente artigo de opinião no NYT. No mesmo dia, outro banco de investimento de referência, o Merrill Lynch, é vendido ao Bank of America. Em Wall Street, a bolsa tem um abalo. O índice S&P 500 perde quase 5%.

O abalo financeiro prossegue por todo o mês de setembro e a 29, no que seria batizada como segunda “segunda-feira negra”, Wall Street regista o maior rombo diário de sempre da sua história. A bolsa perdeu 1,2 biliões de dólares (€840 mil milhões, ao câmbio da altura). O índice S&P cai 8,8% e, na bolsa das tecnológicas, o índice Nasdaq afunda-se 9,1%. As bolsas à escala mundial recuam 12% no conjunto do mês. A situação agravar-se-ia em outubro, com o índice mundial a cair mais 19%.

Em Lisboa, a bolsa perdeu 3,1% no dia 15 e 3,7% a 29 de setembro de 2008. O mês de setembro acabaria com uma queda de 7,2%.

O rol de ‘eventos’ negativos que se sucederam à escala mundial é amplo e foi prolongado. A crise financeira provocaria uma quebra brutal nas bolsas à escala mundial de 42% em todo o ano de 2008 e uma recessão económica global em 2009. A zona euro acabaria por sofrer um abalo em 2009 e uma recaída em recessão em 2012 e 2013 a par da crise das dívidas públicas de um grupo de periféricos da moeda única, incluindo Portugal. Registaram-se 24 crises bancárias ao longo da crise, incluindo em Portugal, no nosso caso, com sequelas mesmo depois do que foi classificado como ‘saída limpa’ do resgate em 2014. Houve quatro crises cambiais, começando pela Islândia e a Venezuela e terminando nas atualmente em curso na Argentina e na Turquia, nos casos mais em destaque nos mercados emergentes.

Risco de des-globalização

Uma década depois, o índice mundial das bolsas entrou, pela primeira vez este ano, em terreno negativo se medido desde início do ano. A globalização das trocas comerciais parece estar em recuo. O barómetro do comércio internacional, o índice Baltic Dry Index, caiu na semana passada 6%.

O principal risco que ensombra os mercados é uma escalada nas guerras comerciais desencadeadas pela Administração norte-americana em diversas frentes, e em particular contra a China. “As guerras das taxas aduaneiras de Trump estão a penalizar a recuperação no comércio internacional que levou uma década a se concretizar”, sublinha Dan Steinbock, fundador da consultora Difference Group e investigador no Centro da União Europeia, em Singapura. A terceira vaga de globalização iniciada em 1992, depois da desintegração do bloco mundial socialista, está em risco de um movimento de des-globalização.

Um balanço realizado pelo Expresso na edição de 8 de setembro, no âmbito de uma série de artigos sobre uma década de crise, aponta para três alertas: o FMI prevê que a taxa anual de crescimento do comércio internacional baixe para 4,3% entre 2028 e 2023, inferior aos 5% registados entre 2011 e 2017 e aos 7% entre 2002 e 2008; o peso das trocas comerciais no PIB mundial caiu quase quatro pontos percentuais entre 2008 e 2017; os fluxos internacionais de capitais em 2017 estão em metade do registado em 2007. Na análise feita por Steinbock, o índice Baltic Dry está 90% abaixo do pico de maio de 2008; o investimento direto estrangeiro à escala mundial está 20% abaixo do nível antes da crise; e as migrações, provocadas pelas guerras, pela turbulência política e pelas crises económicas, estão no nível mais alto desde 1945.

  • E quem mais perdeu foi… a Europa

    Depois do colapso global de setembro de 2008, a China foi o país que mais reforçou a sua posição na economia e na finança mundiais. Os EUA aguentaram-se e passaram ao contra-ataque. A zona euro vai cair para terceiro lugar