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Bolsas à escala mundial perdem 2% no começo de setembro. Risco Trump ensombra mercados

Os mercados accionistas encerraram a primeira semana de setembro no vermelho. Lisboa foi a terceira bolsa com maior queda, depois de Atenas e Amesterdão. EUA podem aplicar novo pacote de taxas aduaneiras em relação à China

Jorge Nascimento Rodrigues

As bolsas à escala mundial recuaram 1,9% nesta primeira semana de Setembro. O índice mundial MSCI está a cair há sete semanas consecutivas e desceu abaixo da linha de água pela primeira vez se avaliado desde início do ano. O que começa a contrastar com os dois últimos anos, em que as bolsas à escala mundial ganharam 27,25% em termos acumulados, depois de uma quebra de 4% em 2015.

A onda vermelha foi generalizada em termos de índices MSCI agregados. As maiores quedas semanais registaram-se na Ásia Pacífico, cujo índice perdeu 3,3%, e no grupo dos mercados emergentes e na Zona Euro, com cada um dos índices respectivos a recuar 3,1%. As sete bolsas que caíram mais de 3% esta semana são mercados emergentes (Grécia, Polónia, Arábia Saudita) ou economias desenvolvidas da Ásia (Hong Kong) e da Zona Euro (Holanda, Portugal e Alemanha). A Grécia, ainda que pertencente à zona euro, foi desgraduada para mercado emergente em março de 2013.

A bolsa lisboeta foi a terceira com maior queda semanal, depois de Atenas (cujo índice se afundou 5,7%) e Amesterdão (com o índice a perder 3,6%). O índice PSI 20, de Lisboa, recuou 3,5% durante a semana e está há nove sessões consecutivas em terreno negativo. A cotada mais castigada foi a Mota Engil que perdeu 19% durante a semana.

Três boas surpresas

A semana trouxe, no entanto, três surpresas positivas. As bolsas da Argentina, Itália e Turquia – três economias consideradas atualmente críticas – registaram subidas semanais. O índice Merval de Buenos Aires subiu 1,8%, o MIB em Milão ganhou 0,9% e o BIST 100 em Istambul avançou 0,6%. A Argentina e a Turquia fazem parte de um grupo que está sob vigilância atenta dos mercados financeiros e que foi batizado com o acrónimo BRATS (para Brasil, Rússia, Argentina, Turquia e África do Sul).

O bom desempenho naquelas três bolsas andou a par com a alteração positiva noutros mercados. O risco da dívida italiana baixou significativamente durante a semana, como sublinhamos noutro artigo, devido ao recuo político do governo de Roma no confronto com Bruxelas a propósito do orçamento italiano para 2019. Face ao euro, o peso argentino valorizou 3,7% e a lira turca apreciou-se 2,1%, alterando a tendência de desvalorização acentuada. O Banco Central da República da Turquia deverá subir a taxa directora de 17,75% para 21% na reunião de 13 de Setembro.

A Argentina esteve em destaque em virtude de um pacote de medidas de emergência do governo e de declarações do Banco Central da República Argentina (BCRA) durante a semana no sentido de acalmar a crise cambial e de confiança internacional.

O governo do presidente Macri pediu ao Fundo Monetário Internacional (FMI) para antecipar desembolsos previstos para 2019 e 2020 do megaresgate aprovado a 20 de junho e avançou com um imposto até final de 2020 sobre as exportações, aumentando as receitas públicas. O governo argentino comprometeu-se também em atingir uma situação de equilíbrio orçamental primário (sem incluir os juros da dívida) já no próximo ano e em conseguir um excedente primário de 1% do PIB em 2020. O plano de consolidação orçamental prevê uma poupança de 11,7 mil milhões de dólares de 2018 a 2020. O governador do BCRA assegurou aos mercados que o financiamento do pagamento da dívida está garantido para 2019, afastando o temor do regresso do fantasma de bancarrota de 2002.

Nova Iorque perde 1% e tecnológicas registam má semana

O índice MSCI para os Estados Unidos registou quatro sessões consecutivas no vermelho esta semana, com exceção de segunda-feira em que as bolsas estiveram fechadas em virtude de feriado. O índice perdeu 1,1%, depois da euforia com novos máximos históricos em agosto.

A maior queda em Nova Iorque registou-se no Nasdaq, na bolsa das tecnológicas, cujo índice composto caiu 2,6%. Um grupo de tecnológicas sentiu em particular a maré vermelha, com o índice FANG+ a afundar-se 5% durante a semana. Este índice agrega Facebook, Apple, Amazon, Netflix, Google, Alibaba, Baidu, Nvidia, Tesla e Twitter. A Amazon, que chegou a valer mais de um bilião de dólares em bolsa a 4 de Setembro, recuou para 952,1 mil milhões de dólares (€824 mil milhões) de capitalização no final da semana, deixando a Apple sozinha no clube do bilião.

A par dos ataques uninominais via tweets do presidente norte-americano em relação a alguns gigantes norte-americanos da tecnologia, o Senado norte-americano ameaça avançar com regulação das plataformas das redes sociais, o que ficou claro nas audições em que os senadores ‘apertaram’ com Jack Dorsey do Twitter e Sheryl Sandberg do Facebook.

Risco Trump pode disparar

Paradoxalmente, os mercados financeiros podem agitar-se em setembro, precisamente quando se comemoram dez anos sobre o colapso financeiro do Lehman Brothers a 15 de setembro de 2008 e o crash da segunda-feira negra a 29 de Setembro do mesmo mês em Wall Street.

A escalada na guerra comercial desencadeada pela Administração Trump pode ocorrer se o inquilino da Casa Branca decidir avançar com um segundo pacote de taxas aduaneiras contra a China agora visando 200 mil milhões de dólares (€173 mil milhões) de importações. A consulta pública sobre este pacote terminou na semana passada e Trump tem agora a possibilidade de avançar com este segundo pacote, a que Pequim responderá. Num voo no Air Force One, o presidente reafirmou que poderá avançar depois para um terceiro pacote abrangendo o resto das importações vindas da China. Segundo a UBS, o índice S&P 500 de Nova Iorque poderá cair 5% fruto do impacto negativo da escalada da guerra comercial com a China. Até, agora, ganhou 7,4% desde início do ano.

Segundo o The Wall Street Journal, Trump poderá abrir inclusive uma nova frente, visando o Japão. As negociações com o Canadá para modificação bilateral do anterior Acordo de Comércio Livre da América do Norte, conhecido pela sigla inglesa NAFTA, ainda não estão terminadas e um litígio com a União Europeia poderá reabrir-se.

Há o risco das guerras comerciais fazerem abrandar ainda mais a dinâmica do comércio internacional. A taxa de crescimento anual das trocas mundiais entre 2010 e 2017 foi de 5%, inferior aos 7% registados entre 1992 e 2000 e 2002 e 2008, e poderá cair para 4,3% entre 2018 e 2023, segundo as projecções do FMI.

  • Declarações dos líderes da coligação em Itália de que “não desafiarão a Europa nas contas” provocaram uma queda no prémio de risco da dívida do país. Contágio na zona euro abrandou, mas juros das obrigações portuguesas a 10 anos continuam acima de 1,9%. IGCP realiza dois leilões no dia 12 de Setembro e arrisca pagar mais do que em julho