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Vinho da Tapada do Chaves volta a brilhar com novos donos

As vinhas velhas que dão origem 
ao Tapada do Chaves despertaram 
o interesse da Fundação Eugénio 
de Almeida nesta aquisição


FOTOS NUNO BOTELHO

Compra da Fundação Eugénio de Almeida à casa da Murganheira dá nova vida a castas com mais de 100 anos

Um dos negócios mais marcantes no sector dos vinhos dos últimos anos — a compra do Tapada do Chaves pela Fundação Eugénio de Almeida à sociedade dos espumantes Murganheira — está a resultar no resgate da marca que levou o Alentejo a afirmar-se pela produção de origem, além da recuperação de um património de vinhas valioso que corria o risco de se perder.

Foi sobretudo o valor das vinhas, que têm parcelas referenciadas como das mais antigas do Alentejo, que ditou o interesse da Fundação Eugénio de Almeida em adquirir a pequena produção no lugar de Frangoneiro, junto a Portalegre. “O grande ativo deste projeto são as vinhas velhas, em termos cadastrais há parcelas que datam de 1901 e de 1903, é um património único e riquíssimo para o Alentejo”, salienta Pedro Baptista, administrador da Fundação Eugénio de Almeida responsável pelo Tapada do Chaves. “Temos a sorte de ter este património de vinhas com mais de 100 anos, o que é de muito interesse para a Fundação.”

Recuperar as vinhas mais antigas da quinta em Portalegre foi o primeiro passo da nova administração, logo após se concretizar a compra do Tapada do Chaves em julho de 2017 à sociedade da Varosa, que detém a Murganheira, não tendo sido divulgado o valor desta aquisição. “Estamos a retirar material das vinhas velhas e a replicá-lo nas mais jovens, que também acabam por ser antigas, na maior parte têm 40 a 50 anos”, explica o administrador. “No fundo, estamos a guardar a idade da vinha para trabalhar a individualidade e o carácter dos vinhos que queremos fazer, recorrendo à genética do que resta das vinhas muito velhas.” Frisa que “a idade e a memória da planta é um fator que influencia o bom desempenho da produção”, já que “as vinhas velhas conseguem ter mais anos bons e suportam melhor as alterações climatéricas sem pôr em risco a qualidade final”.

Resgatar castas do Alentejo em risco, como a Grand Noir

O foco da Fundação é resgatar castas tradicionais de Portalegre presentes nas videiras-mãe mais antigas “e que estavam em desaparecimento, como a Grand Noir que já teve uma grande relevância nos vinhos alentejanos, que nós lhe queremos restituir”, avança o responsável. Outras castas dominantes nesta produção são a Trincadeira, Aragonez, Castelão ou Alicante Bouschet nos tintos, e nas uvas brancas Fernão Pires, Arinto, Assario, Tamarez ou Roupeiro, que na região é conhecida como Alva.

O objetivo último da recuperação das vinhas antigas é elevar o padrão do Tapada do Chaves, que já foi um dos mais prestigiados vinhos portugueses, teve um papel proeminente na criação de uma origem controlada no Alentejo, e nos últimos anos quase passou para o campeonato dos vinhos baratos. O vinho que o sr. Chaves começou a fazer no início do séc. XX, com uma pequena plantação na encosta da serra de São Mamede, local que permite vinhos “com mais frescura e elegância” que na generalidade do Alentejo, mudou várias vezes de mãos. Ao passar para a família Fino, dona das tapeçarias de Portalegre, passou a ter uma marca nos anos 60, e as décadas que se seguiram foram de glória. No virar do milénio foi vendido aos donos dos espumantes da Murganheira, até ser comprado pela casa alentejana que produz o Cartuxa e o Pêra Manca.

“Queremos regressar à essência do Tapada do Chaves, a marca esteve muitos anos adormecida e afastada do mercado. A nossa ambição é que volte a ser outra vez uma referência dos vinhos alentejanos aos olhos do consumidor”, resume Pedro Baptista. Neste sentido, foi redefinido o portefólio de vinhos, processo também marcado pela recuperação dos antigos rótulos.

O “regresso às origens” envolveu ainda investimentos na adega e a aposta em pipas de carvalho português ou francês. “Faz parte da história do Tapada do Chaves envelhecer os vinhos em carvalho português, que é raro, mas queremos manter essa tradição”, refere Pedro Baptista, enólogo da casa, salientando que “somos uma boutique de vinhos, isto é um projeto pequeno e conhecemos cada pé de vinha”. A produção em Portalegre circunscreve-se a 32 hectares de vinha, permitindo não mais de 15 a 20 mil garrafas por ano de branco, 70 a 80 mil de tinto reserva, e um potencial de 5 mil de tinto em anos excecionais, proveniente de vinhas velhas.

Outra revolução foi tornar a produção 100% biológica. “A grande alteração que a nossa administração fez foi passar nesta quinta de um regime tradicional com agroquímicos para um modo de produção usando práticas de biodinâmica, com tratamentos naturais no combate a doenças ou pragas”, salienta Pedro Baptista.

Para a Fundação Eugénio de Almeida, que já explora 594 hectares de vinha e se prepara para atingir 1000 em 2019, o investimento numa pequena produção como o Tapada de Chaves “é de longo prazo”, como garante o administrador. “Temos interesse neste património com mais de um século e que está na origem do reconhecimento conquistado pelos vinhos alentejanos.”