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Recuo do risco italiano favorece leilão de dívida portuguesa na quarta-feira

Declarações dos líderes da coligação em Itália de que “não desafiarão a Europa nas contas” provocaram uma queda no prémio de risco da dívida do país. Contágio na zona euro abrandou, mas juros das obrigações portuguesas a 10 anos continuam acima de 1,9%. IGCP realiza dois leilões no dia 12 de Setembro e arrisca pagar mais do que em julho

Jorge Nascimento Rodrigues

A primeira semana de setembro ficou marcada no mercado da dívida pública na zona euro por um arrefecimento do risco italiano depois dos juros dos títulos transalpinos a 10 anos terem subido para 3,25% no último leilão de agosto no mercado primário (de emissão), um máximo de quatro anos. Os juros (yields) naquele prazo, no mercado secundário, desceram 37 pontos-base em relação ao final de agosto e fecharam na sexta-feira em 2,87%.

O risco da dívida italiana – medido em relação ao custo de financiamento da dívida alemã, que serve de referência na zona euro – desceu significativamente, caindo 41 pontos-base em relação ao final de agosto, fechando na sexta-feira em 248 pontos-base. Continua muito acima do risco espanhol e português, que está em 111 e 153 pontos-base respectivamente.

A reacção positiva nos mercados da dívida, depois do pico de crise no final de agosto, deveu-se ao governo de coligação italiano ter recuado politicamente, esta semana, no confronto com Bruxelas a propósito do orçamento para 2019.

Este recuo político de Roma reduz o risco de contágio na zona euro e vai favorecer o regresso de Portugal aos mercados de dívida obrigacionista na próxima quarta-feira. O 'alívio' na crise de confiança em relação a Itália não chega, contudo, para garantir que o Estado português não tenha de pagar no prazo de referência, a 10 anos, juros mais altos do que os registados em julho no último leilão antes de agosto, mês em que não emitiu dívida obrigacionista.

Itália não vai desafiar Bruxelas (por ora)

O vice-ministro Luigi Di Maio, líder do Movimento 5 Estrelas, assegurou que o governo “não vai desafiar a Europa nas contas” e o outro vice Matteo Salvini, líder da Liga, o outro parceiro da coligação, disse que “vamos tentar fazer tudo respeitando o que nos é pedido pelos outros [leia-se Comissão Europeia e Banco Central Europeu]”. Em Viena, na sexta-feira, à margem da reunião do Eurogrupo, o ministro da Economia italiano Giovanni Tria comprometeu-se a apresentar um orçamento que reduza o nível da dívida italiana no PIB no próximo ano.

Depois do novo governo em Roma ter colocado na gaveta, por agora, o plano de saída de Itália do euro, podendo recorrer inclusive a um incumprimento na dívida externa, os líderes da coligação decidiram recuar, agora, na resistência à consolidação orçamental, ainda que o ministro Tria não tenha dado ainda detalhes sobre a estratégia orçamental para 2019, que vai ser negociada com Bruxelas nas próximas semanas.

Em consequência, o contágio italiano abrandou, o que teve um impacto positivo em particular nos juros da dívida grega a 10 anos que caíram 11 pontos-base em relação ao final de agosto no mercado secundário, fechando na sexta-feira em 4,29%. No entanto, o efeito de ‘alívio’ nos títulos portugueses e espanhóis foi nulo naquele prazo de referência: os juros das Obrigações do Tesouro português subiram dois pontos-base encerrando a semana em 1,92% e os relativos às obrigações espanholas fecharam praticamente no mesmo nível de 31 de agosto muito próximo de 1,5%.

IGCP poderá pagar mais a 10 anos na quarta-feira do que no leilão de julho

A manutenção dos juros portugueses a 10 anos acima de 1,9% no mercado secundário indicia que o Estado português poderá ter de pagar mais aos investidores no leilão que vai realizar na próxima quarta-feira, onde emitirá também dívida a 5 anos. Em julho, no último leilão de dívida obrigacionista antes do interregno de agosto, a Agência de Gestão da Tesouraria e da Dívida Pública (IGCP) pagou 1,727% a 10 anos. Em junho, pagou 0,746% a 5 anos.

O IGCP pagou mínimos históricos nos leilões de maio - 0,529% a 5 anos e 1,670% a 10 anos -, uma situação extraordinária que não se deverá repetir face à ‘normalização’ em curso da política monetária não convencional do Banco Central Europeu (BCE), que reduzirá para metade as compras mensais de dívida da zona euro a partir de 1 de outubro e que prevê descontinuar o programa no final de dezembro, mantendo no próximo anos os reinvestimentos do capital que receber nas amortizações dos títulos que tem em carteira.

O Estado prevê emitir neste quadrimestre final do ano mais 2,2 mil milhões de euros em obrigações, já tendo colocado 13,2 mil milhões. As necessidades de financiamento para o ano de 2018 foram estimadas em 17 mil milhões, pelo que até final de agosto já haviam sido cobertas em 77%. Na operação de quarta-feira, o IGCP aponta para uma colocação entre 750 a 1000 milhões de euros.

Fruto dos juros historicamente baixos pagos este ano até agora, o juro implícito nas novas emissões de dívida pública desceu para um mínimo histórico de 1,9% entre janeiro e julho, uma descida significativa em relação a 2,6% em 2017, segundo o IGCP na sua apresentação de setembro aos investidores internacionais.

Próxima semana carregada de ‘eventos’ que podem influenciar o mercado da dívida

Portugal regressa ao mercado obrigacionista na quarta-feira com uma emissão a 5 e 10 anos, cujos juros serão analisados atentamente pelos analistas financeiros, bem como a procura e o montante final colocado.

BCE. No dia seguinte, reúne-se o BCE que vai analisar a política monetária. Não são esperadas alterações às três traves mestras da estratégia já aprovada: primeira, descontinuação do programa no final do ano, no caso de maus dados económicos ou riscos relevantes não o impedirem; segunda, só mexer nas taxas de juro depois do próximo verão; e, terceira, manter no mercado de dívida os títulos que tem em carteira, reinvestindo o capital recebido na ocasião das amortizações. No entanto, os analistas e os investidores estarão atentos às declarações do presidente Mario Draghi na conferência de imprensa.

RATING PELA S&P. Na sexta-feira, já depois do fecho dos mercados na Europa, a agência de notação Standard & Poor’s divulgará (ou não) os resultados da sua análise sobre o rating da dívida portuguesa de longo prazo. A S&P foi a primeira agência a retirar a dívida portuguesa da situação de ‘lixo financeiro’ precisamente a 15 de Setembro do ano passado, subindo a notação para BBB-, o primeiro nível de dívida não especulativa. A Fitch seguiria o caminho de graduação da dívida portuguesa a 15 de dezembro subindo a notação portuguesa para BBB, um nível ainda mais elevado do que o atribuído pela S&P. Apenas a Moody's, que avaliará o rating a 12 de outubro, mantém a dívida portuguesa na notação de 'lixo financeiro'.

Apesar da 'normalização' da política monetária pelo BCE e da incerteza sobre Itália, espera-se um "círculo virtuoso" para Portugal. Na reunião do Eurogrupo em Viena na sexta-feira, a Comissão Europeia e o BCE apresentaram um balanço positivo da otava missão pós-programa [de resgate] a Portugal. Na sequência do otimismo, o alemão Klaus Regling, diretor do Mecanismo Europeu de Estabilidade, que gere os fundos de resgate, adiantou que "ha a probilidade de os ratings [da dívida portuguesa] melhorarem ainda mais num futuro próximo e pode, então, ter início um círculo virtuoso".

TRUMP E PARLAMENTO EUROPEU. A semana nos mercados financeiros poderá ficar ainda marcada pela decisão da Administração Trump em aplicar o segundo pacote de taxas aduaneiras à China e pela votação no Parlamento Europeu na terça-feira sobre a suspensão do direito de voto da Hungria no Conselho Europeu, o que requer uma maioria de dois terços para passar. Esse tipo de penalização foi aplicado no final do ano passado à Polónia. O comissário europeu alemão Guenther Oettinger disse na semana passada que o projecto da União Europeia corre “um perigo mortal” com o que politicamente se está a passar na Hungria, Polónia, Roménia e Itália.