Siga-nos

Perfil

Economia

Economia

“Com a inteligência artificial qualquer pessoa pode ser um fotógrafo profissional”

Charles Yunck

Tem tido um crescimento rápido nos últimos anos: já é nº 2 no negócio dos smartphones a nível mundial (destronou recentemente a Apple nos meses de junho e julho) e quer chegar à liderança no próximo ano. Conhecida pelos preços competitivos, a tecnológica chinesa investe mais de 10% das suas receitas em investigação e desenvolvimento em áreas como internet das coisas, 5G e inteligência artificial, dizem ao Expresso Michael Mao e Tiago Flores, responsáveis da Huawei Consumer Business Group em Portugal

Maria João Bourbon

Maria João Bourbon

Em Berlim

Jornalista

Tiago Flores aponta o telemóvel em direção a um cão decorativo para tirar uma fotografia. Automaticamente, este reconhece o alvo a fotografar e no visor aparece a palavra “cão”. Volta a repetir o gesto, desta vez com um gato estrategicamente colocado no mesmo expositor, e novamente o animal é identificado.

Capaz de reconhecer mais de 500 cenários em 22 categorias diferentes (retrato, natureza, comida, animais, entre outros), o chip de inteligência artificial inserido no smartphone não se limita a identificar o objeto a fotografar, “otimiza a qualidade da fotografia em função do ambiente que está a ser captado”, explica em entrevista ao Expresso o diretor de vendas da Huawei Consumer Business Group (Huawei Consumer BG) em Portugal, referindo-se à tecnologia inserida nas séries de smartphones P20, Mate 10 ou Mate 20, otimizada neste último modelo que será oficialmente lançado em outubro (Mate 20 Lite).

“Hoje em dia a fotografia é um dos elementos-chave no processo de decisão de compra de um smartphone”, afirma ainda o responsável de vendas Tiago Flores, acrescentando que, no mundo, são partilhadas cinco milhões de fotografias por dia. Foi por isso que, em parceria com a alemã Leica, decidiram desenvolver uma tecnologia para oferecer uma melhor experiência na fotografia.

“Fomos os primeiros a mostrar aos consumidores que é possível pôr câmaras duplas nos smartphones. As outras marcas imitaram-nos: a segunda foi a Apple, agora a Samsung também tem…”, especifica. “Este ano introduzimos as três câmaras.” E, brevemente, quatro câmaras (duas frontais e duas traseiras) com o Huawei Mate 20 Lite, para “uma fotografia mais inteligente”.

Na verdade, a inteligência artificial (IA) é uma das áreas centrais da IFA, a maior feira de tecnologia de consumo na Europa que termina esta quarta-feira em Berlim. E uma das principais bandeiras da tecnológica chinesa, que quer apostar naquilo que considera serem “inovações relevantes” para os consumidores, através de uma plataforma aberta de internet das coisas (IoT) e IA na nuvem ou nos chips inseridos nos dispositivos.

“Estamos a focar-nos em tecnologias-chave e onde somos fortes”, garante Michael Mao, responsável pela Huawei Consumer BG em Portugal. “Não estamos focados noutras tecnologias que os nossos concorrentes desenvolvem, como a realidade virtual”, acrescenta Tiago Flores. E exemplifica: “Temos óculos de realidade virtual, mas só para o mercado chinês.”

No final da semana passada a tecnológica apresentou um novo chip, o Kirin 980, que inclui dois processadores dedicados a IA para permitirem uma maior velocidade e precisão em algumas tarefas desempenhadas no smartphone, como o reconhecimento de imagens, performance e bateria.

Isto porque, além da fotografia, a IA permite melhorar o desempenho dos dispositivos, ao identificar padrões de utilização dos consumidores e ajustar as definições do chip, do ecrã, entre outras, a esses padrões. E tendo consciência que a bateria “é um dos problemas principais da experiência mobile dos consumidores”, a empresa aumentou a autonomia das baterias — e recorre à IA para ajudar à sua poupança. “Reconhece, por exemplo, que o utilizador não precisa de grande qualidade de ecrã quando usa o Facebook e otimiza assim a bateria”, explica.

Mais de 10% das receitas em investigação

Criada em 1987, a empresa atualmente liderada por Richard Yu é líder no fornecimento de infraestruturas de tecnologias de informação e comunicação, disponibilizando ainda soluções ao nível dos dispositivos inteligentes e cloud (nuvem). Nos últimos anos, tem registado um crescimento rápido a nível mundial a reboque da sua aposta em investigação e desenvolvimento (I&D) e preços competitivos.

Na área do consumo, a empresa tem apostado na diversificação da sua presença, incluindo não só smartphones mas também wearables (acessórios), dispositivos para smart homes (casas inteligentes) e, mais recentemente, PCs e tablets (um segmento que deverá chegar ao mercado português no início do próximo ano).

Com receitas de 93 mil milhões de dólares (cerca de 80 mil milhões de euros) no ano passado, mais 15,7% do que em 2016, a Huawei viu os lucros aumentarem 28,1% para 7,3 mil milhões de dólares (6,3 mil milhões de euros). Nos meses de junho e julho, ultrapassou a Apple e revelou a sua intenção de ser nº 1 mundial em 2019. Tornou-se assim no segundo maior fabricante de smartphones do mundo, enviando para o mercado 54,2 milhões de dispositivos no segundo trimestre do ano e alcançando uma quota de mercado recorde de 15,8%.

À frente continua a Samsung, mas no mercado português as duas empresas parecem estar taco-a-taco: nos meses de maio e julho a Huawei alcançou o primeiro lugar nas vendas de smartphones em Portugal, números que a rival norte-coreana contesta.

Certo é que a tecnológica chinesa tem vindo a crescer rapidamente, especialmente no mercado europeu, que depois da China é o mais relevante para a empresa em termos de receitas.

A aposta em I&D tem sido um dos pilares do seu sucesso. A empresa investiu nos últimos dez anos mais de 50 mil milhões de euros em I&D e anunciou recentemente que vai aumentar o valor anual para 17,5 mil milhões de euros. “Investimos mais de 10% das nossas receitas em I&D”, concretiza Michael Mao, sublinhando que a tecnológica é aquela que mais pedidos de patentes tinha na Europa no ano passado. “Temos cerca de 15 centros de investigação localizados em países como os Estados Unidos, Rússia, Itália, França, Alemanha, entre outros.”

Michael Mao acredita ainda que, com a infraestrutura de 5ª geração (5G), a IoT “explodirá mais rapidamente”. Mas a chinesa enfrenta neste campo alguns desafios, que o responsável pelo negócio em Portugal prefere não comentar: foi proibida pelo Governo australiano de implementar e operar a rede 5G no país por alegados motivos de segurança nacional (em causa está a lei chinesa que exige às empresas do país a cooperação com os serviços de inteligência).

As preocupações australianas juntam-se às de outros países como os Estados Unidos, onde a Huawei também foi proibida de operar a rede 5G.

*O Expresso viajou a Berlim a convite da Lenovo.