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Turismo em Portugal: “O nosso problema não é a Turquia, é o aeroporto de Lisboa”

Entrevista a António Trindade, onde o Presidente do grupo Porto Bay advoga que o turismo português deve ter um "crescimento natural" que não seja resultado da perda de outros mercados

Conceição Antunes

Conceição Antunes

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Jornalista

Nuno Fox

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Fotógrafo

nuno fox

A retoma de destinos como a Turquia ou o Egito era de esperar, o que não é racional é que numa altura crítica e de concorrência mais acesa Portugal esteja a recusar turistas por o aeroporto de Lisboa estar saturado — sustenta António Trindade, presidente do grupo Porto Bay, advertindo que este é “o grande problema nacional” e está a afetar não só Lisboa mas o país todo.

Como vê o momento que Portugal está a passar, com o desvio de turistas para destinos como a Turquia?
A memória humana é fraca, mas o que está a acontecer é o mercado que volta a renivelar. A situação que se coloca na Europa, sobretudo na bacia do Mediterrâneo, é que o ritmo de crescimento da oferta turística tem sido historicamente superior ao da procura. E aqui aplica-se o princípio dos vasos comunicantes: quando há ambientes de crise a leste do Mediterrâneo, o lado ocidental beneficia. O que aconteceu nestes últimos quatro a cinco anos é que a instabilidade na Turquia, no Egito ou na Tunísia gerou um desvio de procura em que Espanha e Portugal foram os grandes ganhadores. Quando esta instabilidade deixa de existir, a situação reverte-se e passamos a ter uma nova realidade. Atualmente todos os destinos ibéricos estão a sofrer, mas isto porque o mercado se está a recompor.

Era de esperar esta retoma?
Era esperado que, mais cedo ou mais tarde, a situação de países como a Turquia, o Egito ou a Tunísia se recompusesse. O que está a acontecer agora sente-se sobretudo em destinos-resort, que são mais comandados pela operação turística, no nosso caso o Algarve e a Madeira. E quando a distribuição é comandada pelos operadores turísticos, são estes que efetivamente mandam. Por outro lado também há a distribuição mais controlada pelos transportadores, as companhias aéreas e as suas ligações para os diferentes destinos. A distribuição para nós é a chave e, em Portugal, acresce aqui outra situação, que é o problema do aeroporto de Lisboa — que não afeta só Lisboa, afeta o país todo, porque Lisboa é o principal hub de distribuição da operação aérea para os destinos nacionais. E o que vemos é o número de respostas negativas para a utilização deste aeroporto continuar a crescer exponencialmente.

Portugal pode nesta altura dar-se ao luxo de ter um aeroporto a recusar voos por falta de capacidade?
Essa é a questão fundamental, não nos podemos efetivamente dar a esse luxo, sobretudo num momento em que temos de ganhar uma relação direta cada vez maior com o mercado servida por transporte aéreo. Estamos a falar de um aeroporto bloqueado, com capacidade máxima de 22 milhões de passageiros/ano e que já atingiu 26 milhões, quando o aeroporto de Istambul recebe 67 milhões, vai em outubro ser substituído por um segundo com capacidade de 90 milhões e potencial de se expandir para 200 milhões. É esta a realidade em que vivemos.

Mais do que o problema que se coloca na relação este-oeste do Mediterrâneo e está a levar ao ressurgimento de destinos como a Turquia, o grande constrangimento que se coloca atualmente ao nosso turismo são as acessibilidades, em particular os entraves no aeroporto de Lisboa. É fundamental que o Porto passe a ter um protagonismo cada vez maior como segundo hub nacional, e a TAP deve ter aqui um papel mais agressivo. Tenho defendido na Madeira a necessidade de atrair transportadores alternativos que utilizem novos hubs como o aeroporto de Barcelona, além do Porto. O grande problema nacional é o aeroporto de Lisboa, do qual depende extraordinariamente a distribuição para o país, e não há mais tempo de espera.

Discutiu-se muito se era justo dizer que o boom que tivemos resultou da primavera árabe. Houve esse efeito?
É, de facto, verdade que o aumento de procura foi resultado da primavera árabe e porque houve constrangimentos do outro lado do Mediterrâneo. Na Europa há mais oferta do que procura, e esta segue as tendências da operação turística. Mas na altura também se discutia que em Portugal os agentes públicos e privados deviam aproveitar de imediato a oportunidade para fazer grandes requalificações e tornarem-se competitivos no mercado. Foi isto que em Espanha se fez, infelizmente mais do que em Portugal.

Os hotéis em Portugal estão desatualizados para os operadores?
O que a operação turística diz é que, na comparação entre países, o facto de Portugal não ter requalificado o suficiente estes produtos, em particular no Algarve, leva a que a procura diminua por não serem atrativos. Muita gente habituou-se a ter ocupações altas e esqueceu-se de requalificar os hotéis porque estavam sempre cheios, achando que era algo que não ia acabar. Quando a situação se reverte, quem não se preparou corre o risco de ser perdedor. É uma mensagem que tem de ser passada a todos os que construíram os seus hotéis há 20, 30 anos e fizeram pouco para se adaptar às novas tendências, que mudam a uma velocidade voraz. Sobretudo quando se compara com a Turquia ou o Egito onde houve em anos recentes apoios estatais para criar hotelaria de uma qualidade excelente. E também há o fator preço, pois com a desvalorização das moedas e a pressão da operação turística os hotéis de cinco estrelas estão a ser vendidos aos preços de três. E o cliente de três estrelas do Algarve ou de Maiorca percebe que tem agora a hipótese de ir para um hotel de superluxo no Egito, Turquia ou Tunísia a preços mais baratos.

Com a quebra a vir dos operadores turísticos, deve continuar-se a incentivar esses mesmos operadores?
Temos de ter consciência que os grandes agentes do negócio são os operadores turísticos, dos quais por exemplo a Madeira depende quase a 90%. O conceito de operador é que tem vindo a desconsolidar-se e, além do tradicional que freta o seu avião e aluga os seus quartos, também inclui hoje uma Booking ou uma Expedia. Mas quando a TUI transporta 25 milhões de passageiros/ano e o seu grande concorrente Thomas Cook transporta 22 milhões, não podemos descurar este mercado ou decidir apostar menos nos operadores.

Que apostas deve o país fazer nos próximos anos?
Portugal tem de pensar em voltar a ter o crescimento natural, e não o crescimento que advenha da perda dos outros mercados. 2018 vai continuar a ser um bom ano para o turismo, e temos de trabalhar para que 2019 também seja. Não podemos só dizer que somos os melhores do mundo e estar distraídos das novas tendências da procura. Uma aposta séria que o país tem de fazer é pensar, o mais cedo possível, na requalificação dos seus produtos para estes poderem concorrer, ganhando, aos da bacia oriental do Mediterrâneo. Os grandes objetivos nacionais também passam por resolver o problema das acessibilidades e entrar nas redes de distribuição. Porque ter as melhores relações com quem nos vende, é fundamental.