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Brisa vai ter robôs a detetar acidentes

Startup portuguesa substitui sistema de vigilância da Brisa por inteligência artificial

Catia Mateus

Catia Mateus

Jornalista

Ricardo Santos e Mauro Peixe, os dois fundadores da Heptasense que vai fornecer a solução à Brisa

Ricardo Santos e Mauro Peixe, os dois fundadores da Heptasense que vai fornecer a solução à Brisa

FOTO INÊS DUQUE

As autoestradas nacionais vão ver os seus sistemas de vigilância reforçados. A startup portuguesa Heptasense acabou de fechar uma parceria com a Brisa que prevê a instalação de um software de inteligência artificial nas 735 câmaras que a concessionária tem espalhadas pelas estradas nacionais, permitindo a deteção e interpretação de comportamentos de risco. Nem a Heptasense nem a Brisa divulgam valores de investimento neste projeto, mas garantem que o sistema estará operacional dentro de dois meses.

A partir de novembro será mais fácil e mais rápido identificar potenciais riscos nas autoestradas. “O software que desenvolvemos e que será instalado nas câmaras de vigilância da Brisa em território nacional permite a deteção e interpretação de comportamentos de risco, autonomamente e em tempo real”, explica Mauro Peixe, cofundador da Heptasense. O sistema permite substituir a monitorização humana nos sistemas de vigilância espalhados pelas estradas portuguesas, por uma solução sustentada em inteligência artificial que, por replicar a forma como o cérebro humano funciona, pode ser utilizada em qualquer sistema inteligente.

Em termos práticos, o sistema da Heptasense conseguirá identificar veículos parados na berma da estrada ou a circular em contramão, situações de trânsito irregular ou animais à solta e emitir alertas em tempo real para as equipas operacionais no terreno. Mauro Peixe garante que “a monitorização autónoma, sem intervenção humana, minimiza significativamente os riscos de acidente devido a fadiga e limitações naturais dos operadores”. Segundo o empreendedor, “está provado que após oito horas em frente a um monitor a prestar atenção a tudo o que acontece, a probabilidade de erro é grande e cerca de 95% das ocorrências são desvalorizadas”.

A inteligência artificial pode ser utilizada no controlo de gestos, de equipamentos e em muitas outras aplicações. “A Heptasense já desenvolveu a sua solução até ao ponto em que esta consegue ir além do simples reconhecimento gestual ou de movimento de partes do corpos e é capaz de rastear todo o corpo humano. A etapa seguinte é treinar as máquinas para perceberem como os humanos se comportam”, explica a Brisa ao justificar a escolha da startup portuguesa para incrementar o seu projeto de segurança.

De fora para dentro

O sistema da Heptasense já está a ser aplicado na Europa em lojas de retalho, na deteção de furtos, ou na monitorização da segurança de trabalhadores fabris, nas fábricas da Mercedes-Benz, em Espanha, e da BMW, na Alemanha.

Na verdade, a Brisa é o primeiro grande cliente nacional da Heptasense que entrou no mercado com uma estratégia pouco convencional para uma startup portuguesa. “Optámos por conquistar primeiro clientes no estrangeiro e só depois entrar em Portugal”, explica Mauro Peixe que justifica a opção com o facto de, na área de atuação da Heptasense, o mercado internacional ter “maior sensibilidade para o valor e importância da tecnologia que desenvolvemos”.

Isso talvez justifique o facto de a Brisa não ter percebido inicialmente que a Heptasense era portuguesa. “Esta parceria com a Heptasense decorre de uma competição europeia criada pela Brisa, no âmbito do nosso projeto de aceleração de negócios na área da mobilidade — Grow Mobility — que procurava identificar ideias disruptivas, escaláveis e sinérgicas àquele que é o foco do nosso negócio, a mobilidade. A Heptasense foi uma das finalistas e só então percebemos que se tratava de um projeto português”, explica Bruno Tavares, um dos responsáveis do programa Grow Mobility na Brisa.

O acelerador de empresas da Brisa tem apoiado o desenvolvimento de vários projetos nacionais na área da mobilidade. Em fase de piloto tem neste momento dez projetos e há vários outros já a internacionalizar-se. Para a Brisa, a tecnologia desenvolvida pela Heptasense, em particular o sistema de deteção de veículos em contramão, “representa uma forma de garantir uma condução mais segura, inteligente e confiável”. Para a startup portuguesa, a parceria tem ganhos além dos financeiros. No topo da lista está o acesso privilegiado ao mercado da mobilidade, com o apoio da concessionária e um canal de contacto direto para novos clientes e investidores.

Nem a Brisa nem o cofundador da Heptasense avançam o valor do investimento realizado neste projeto. Mas sabe-se que no último ano, a concessionária de autoestradas investiu €42 milhões em vários projetos para melhorar os níveis de serviço prestados e prevenir a segurança rodoviária nas estradas nacionais. Um valor que não deverá sofrer grandes oscilações este ano. Do lado da Heptasense, Mauro Peixe confirma que no primeiro semestre deste ano, a startup teve uma faturação seis vezes superior a 2017. “Prevemos fechar o ano com um milhão de euros em contratos”, avança.