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Bolsas entre a euforia em Nova Iorque e a quebra na Europa e nos emergentes em agosto

O índice bolsista para Nova Iorque registou novo máximo histórico. Praças da zona euro e dos mercados emergentes afundam-se mais de 3% durante o mês. Itália, Grécia, China, Brasil e Rússia com maiores quedas. PSI 20, em Lisboa, recua 3,4%, com ações da Semapa e Navigator a perderem mais de 10% em agosto

Jorge Nascimento Rodrigues

Em agosto o contraste não podia ser maior nos mercados bolsistas à escala mundial. A euforia marcou as bolsas de Nova Iorque, animadas pelo sobreaquecimento da economia norte-americana, enquanto os índices para a Zona Euro, os mercados emergentes e de fronteira e as regiões da Ásia Pacífico e da América Latina registavam quebras no mês que findou.

A situação foi particularmente grave nas bolsas latino-americanas em agosto, com o índice MSCI respetivo a afundar-se quase 9%, e nos mercados de fronteira (ainda não graduados para emergentes), cujo índice MSCI recuou 5,5% em termos mensais. Os mercados emergentes caíram 3% e a zona euro perdeu 3,8%. O índice para a Ásia Pacífico recuou apenas 0,8%.

Lisboa esteve em linha com a tendência vermelha na zona euro, tendo o índice PSI 20 perdido 3,4%, depois de ter ganho 2,4% no mês anterior. Foi o pior mês bolsista desde janeiro de 2017. Duas cotadas destacaram-se em Lisboa pela negativa: a Semapa perdeu 12,3% e a The Navigator caiu 11,6%.

À escala mundial, o índice bolsista global subiu 0,6% em agosto, graças ao bom desempenho nova-iorquino, onde se situam as duas maiores bolsas do planeta. No entanto, registou-se uma subida muito modesta à escala mundial face a um ganho de 2,9% em julho.

As maiores quedas bolsistas em agosto registaram-se em Milão, Atenas (que é considerada um mercado emergente desde 2013), São Paulo, Riade e Shenzhen (a segunda bolsa chinesa), com perdas acima de 3,5%.

Desde início do ano, a crise bolsista é particularmente aguda em dois mercados emergentes, a China e a Turquia, e em uma economia desenvolvida, membro do euro, a Itália.

Amazon não consegue chegar ao bilião de capitalização

Em Nova Iorque, o índice MSCI para as duas bolsas dos Estados Unidos – o NYSE e o Nasdaq - registou um movo máximo histórico a 29 de agosto. Este índice subiu 3,1% em agosto e acumula um ganho de quase 7% nos últimos dois meses.

O índice do Nasdaq – a bolsa das tecnológicas - subiu 3,9% no mês e ficou à frente de outras bolsas ganhadoras em agosto, como as de Mumbai, Estocolmo e Budapeste, com subidas acima de 3%.

Um dos índices em destaque nos EUA foi o FANG+ - que abrange as ações do Facebook, Apple, Amazon, Netflix, Google, Alibaba, Baidu, Nvidia, Tesla e Twitter – que avançou 6,7% em agosto, depois de ter perdido 4,1% no mês anterior. As ações da Amazon ultrapassaram a 30 de agosto a barreira dos 2000 dólares (€1720), mas a empresa fundada por Jeff Bezos não conseguiu ainda atingir, em agosto, a meta de 1 bilião de dólares de capitalização, marca que a Apple continua a segurar.

As cotações nas bolsas norte-americanas estão muito elevadas. O termómetro para o avaliar é o índice CAPE (acrónimo para Cyclically Adjusted Price Earnings Ratio), relacionando os preços das ações no índice bolsista S&P 500 com a média dos lucros das cotadas na última década corrigida pela inflação, um múltiplo conhecido pelo nome do seu criador, o académico Robert Shiller. O múltiplo está em 33,35 no final de agosto, em máximos de 17 anos. O que significa que as cotações estão mais de 33 vezes acima da média dos lucros reais dos últimos dez anos. A média histórica do CAPE é de 16. O pico histórico foi registado em dezembro de 1999, quando o CAPE subiu para 44,2 no auge da bolha das dot-com.

Peso argentino lidera quedas nas moedas das economias emergentes

A desvalorização galopante de algumas moedas das economias emergentes continuou em agosto. Face ao euro, o peso argentino caiu 41,22% e a lira turca perdeu 38,26%. Se excluirmos o caso estratosférico do bolívar venezuelano – com uma desvalorização mensal face ao euro de mais de 100% -, a moeda argentina foi a que mais se depreciou.

Buenos Aires acabou por marcar, no final do mês, a agenda dos problemas nos mercados emergentes, com o governo do presidente Macri a pedir ao Fundo Monetário Internacional (FMI) para acelerar o desembolso do resgate de 50 mil milhões de dólares (€43 mil milhões) e o Banco Central da República Argentina a decidir-se, a 30 de agosto, por um novo aumento da taxa diretora em 15 pontos percentuais colocando-a em 60%, a mais alta do mundo. O banco central argentino já realizou cinco subidas da taxa diretora desde 27 de abril. No dia anterior à primeira subida, a taxa estava em 27,25%. Ou seja, a taxa diretora em quatro meses mais do que duplicou.

O FMI desembolsou 15 mil milhões de dólares (€13 mil milhões) em junho, depois da assinatura do resgate com o governo argentino. Christine Lagarde, a diretora-geral do Fundo, manifestou, a 29 de agosto, a disposição de rever o cronograma de desembolsos face ao afundamento do peso e tendo em conta “as condições mais adversas do mercado internacional que não tinham sido antecipadas plenamente no programa original”. No final de agosto, o euro fechou a valer mais de 45 pesos, um máximo histórico. O euro abriu o ano a valer pouco mais de 22 pesos. A desvalorização do peso é superior a 100% desde final de 2017.

Os analistas continuam a temer que Buenos Aires não tenha atempadamente os recursos financeiros para cumprir o serviço da dívida este ano e no próximo e que o risco de um incumprimento (default) regresse. Como refere o ex-ministro das Finanças Domingo Cavallo, num comentário colocado este sábado no seu site, “os credores internos e externos da Argentina têm um medo crescente que, no caso de ser formado um novo governo depois de 10 de dezembro de 2019, ocorra um default da dívida interna e externa, tal como aconteceu depois de ter entrado em funções o governo chefiado por Duhalde em janeiro de 2002”. As eleições presidenciais e legislativas realizam-se em outubro de 2019, com uma segunda volta das primeiras em novembro, tomando o governo posse a 10 de dezembro de 2019 com um mandato até dezembro de 2023.

Esperam-se novas medidas do governo de Macri na próxima semana.

Com quebras em agosto na ordem dos dois dígitos face ao euro, incluem-se, ainda, o rand da África do Sul, que perdeu 11,75%, e o real brasileiro, que caiu 10,9%. O rublo russo depreciou-se 8% face à moeda única. O analista norte-americano Marc Chandler refere que os mercados financeiros estão de olho nos BRATS - o acrónimo em inglês para Brasil, Rússia, Argentina, Turquia e África do Sul.

O euro desvalorizou-se 0,7% face ao dólar norte-americano e 0,6% face ao yuan chinês em agosto. O euro valia 1,174 dólares no final de julho e caiu para 1,165 no final de agosto. Em relação à moeda chinesa, o câmbio do euro caiu de mais de 8 yuans para 7,97 no mesmo período.

Preços das matérias primas continuam em queda, mas petróleo subiu

Os preços das commodities continuam em uma trajetória descendente desde o pico do ano no final de maio. O índice da Reuters CRB para as 19 principais matérias-primas caiu 0,8% em agosto, depois de ter recuado 2,9% no mês anterior.

As maiores quedas de preços em agosto, superiores a 6,5%, registaram-se no porco magro, café, sumo de laranja, farelo de soja e algodão, por ordem decrescente de descida.

As maiores subidas de preços do mês verificaram-se no cacau (14%), paládio (7%) e barril de petróleo de Brent (6%) que fechou agosto em 77,69 dólares. O pico do preço do Brent desde início do ano registou-se, por agora, a 23 de maio, quando subiu para 79,8 dólares.

  • O custo de financiamento da dívida transalpina a 10 anos registou um máximo desde 2014. Juros das Obrigações do Tesouro português a 10 anos sobem para 1,9% no final de agosto e indiciam que o Estado vai pagar em setembro taxas mais elevadas do que as que pagou nas emissões de julho