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“Portugal é um país bastante à esquerda”

nuno botelho

Ricardo Reis, economista. Esta é a sétima de uma série de oito entrevistas a individualidades de várias áreas que, de alguma forma, se destacaram no último ano e que o Expresso publica em julho e agosto

Carolina Reis

Carolina Reis

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Jornalista

Nuno Botelho

Nuno Botelho

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Fotojornalista

Foi apontado no ano passado como o melhor economista europeu com menos de 40 anos, distinção que juntou ao prémio de melhor economista a trabalhar na Europa. Entre as conferências internacionais e as aulas na prestigiada London School of Economics, Ricardo Reis, de 39 anos, mantém o olhar atento à economia portuguesa e ao país. Liberal, informal, racional e organizado, socorre-se dos números para desmistificar a ideia da obsessão pela austeridade. “A nossa até foi bastante meiguinha”, diz, defendendo que é algo que os portugueses têm dificuldade em ouvir. Aluno brilhante, académico destacado e considerado um dos mais influentes macroeconomistas da sua geração, o investigador recorre à economia para fazer uma análise de custo-benefício-equilíbrio entre a vida familiar e a profissional. “Podia ter feito muito mais profissionalmente se não tivesse tido os meus filhos, mas não seria tão feliz.”

Fala de economia com um brilho nos olhos. Como a descobriu?
As minhas disciplinas favoritas no secundário eram Matemática e História. A economia é a combinação das duas.

Sempre foi um aluno brilhante. Apetência ou muito estudo?
Tinha alguma apetência, mas estudava muito. Acabei o 12º ano com média de 20 valores.

Se tivesse continuado a estudar em Portugal, em vez de ter ido para a London School of Economics (LSE), teria tido a mesma carreira?
Seria muito diferente. Foi muito fácil ir para a LSE. Andava no Bristish Council, no Porto, e quando estava no 11º ano uma adida cultural da Embaixada do Reino Unido foi às aulas todas dizer aos alunos para se candidatarem às faculdades inglesas. Concorri, fiz um exame e fui aceite. Não só a escola era muito boa, como o curso era de três anos e com três ou quatro meses de verão sem aulas, em que é expectável que os alunos ganhem experiência profissional. Trabalhei todos os verões e ganhei dinheiro, acabou por ficar mais barato aos meus pais.

Foi lá que descobriu a investigação em economia?
Num dos meus estágios fui assistente de investigação no Banco de Inglaterra e aí vi como gostava de economia.

Tem uma informalidade e um sentido prático que destoam no meio académico português.
Não reparo no formalismo português, mas reparo noutra coisa. Quando venho a Portugal vejo que as mulheres, que há muito tempo fazem parte integrante do mercado de trabalho, e muito mais do que em muitos países com geografia e nível de desenvolvimento económico semelhante, têm de se defrontar com um enorme sexismo e com atitudes estranhas.

De que forma?
Por exemplo, lembro-me de estar num almoço de pessoas distintas, em que num grupo de 20 apenas duas eram mulheres, e onde estava, ao meu lado, o grande economista e professor Silva Lopes, já falecido e que, na altura, já estava debilitado. Como era um almoço de buffet, as pessoas tinham de se levantar e ir buscar a comida. Automaticamente, assumiram que era uma das mulheres da mesa que tinha de ir buscar a comida para ele. Eu tive de insistir, de forma rude, para ser eu a fazer isso. Toda a gente naquele almoço, do sector privado e do público, assumiu que aquela mulher tão distinta e tão realizada é que tinha de ir buscar o prato ao idoso.

Depois de uma carreira nos EUA, em faculdades como Harvard e Columbia, regressou há pouco tempo à Europa, à sua faculdade. Chegou àquele nível de carreira em que se pode dar ao luxo de escolher?
Como em muitas profissões, mas sobretudo na academia que é uma profissão liberal, é-se bastante independente. Um académico na investigação é quase como uma microempresa e uma microempresa relocaliza-se, traz a sua network de coautores, vai às conferências internacionais. Daí surgir a justificação de que podemos ter cientistas de topo em Portugal, desde que se criem algumas condições.

Mas pensa voltar a Portugal?
Pensar, obviamente que uma pessoa pensa. Mas estou muito bem no estrangeiro e não houve uma razão muito forte para voltar. Voltar dos Estados Unidos para a Europa era uma questão mais premente.

Os portugueses têm razões para estar mais preocupados com esta última crise económica, que deu origem ao terceiro resgate ao país, do que com a de 1983?
Na crise de 1983, que foi mais profunda em termos do impacto, Portugal estava num processo de convergência que levou a que a recuperação fosse mais rápida. Antes da crise tinha havido um período de grande conturbação política e económica no país, mas era claramente temporária. Era uma crise da balança de pagamentos, de gestão de balanças públicas, que tinha corrido mal devido aos excessos da revolução, mas que, limpando as contas, ia acabar. Esta crise é menos profunda e mais prolongada. Dois anos antes desta crise tivemos a pior época de crescimento económico português do século, depois de dez anos de estagnação. As pessoas não tinham poupanças porque desde 2000 estão sem crescimento económico. Esta é mais preocupante que a de 1983 pela sua permanência e por não haver respostas fáceis, como arranjar as contas públicas e acabar com disparates na gestão do dinheiro público.

A austeridade foi na medida certa?
Há duas coisas que para os portugueses são difíceis de ouvir. Em primeiro lugar, a chamada austeridade, a contração na despesa pública e no défice público, foi pequenina comparando em termos internacionais com países que não passaram por crise nenhuma. Este discurso de que houve uma enorme austeridade não tem reflexo nos números. Em segundo lugar, tivemos um apoio brutal do FMI e da troika. Sem esse apoio, Portugal teria tido uma crise do tipo da Argentina, com o desemprego a disparar para os 25% a 30%, não para os 14%. O programa português, juntamente com o grego e com o irlandês, é dos maiores de sempre do FMI em 60 anos de história. A nossa austeridade até foi bastante meiguinha, e levou a que a crise não tenha sido assim tão violenta.

Acha que a austeridade está relacionada com o crescimento do populismo?
A ligação causal entre a austeridade e o populismo é muito débil. A crise levou ao crescimento da extrema-esquerda e da extrema-direita, como sempre leva. Eu, como muitos economistas, tenho a noção de que a austeridade, a recessão, o corte repentino na despesa pública e o aumento de impostos são más políticas que vão aumentar a recessão. Quando se olha para os dados da Alemanha e da Inglaterra, vê-se que o crescimento da extrema-esquerda e da extrema-direita está mais ligado ao receio das migrações.

Este foi o nosso terceiro resgate. Que imagem isso dá de nós enquanto país?
Tendo em conta os choques económicos a partir de 2000 na produtividade e o papel periférico e próximo de Espanha, não sei se era fácil termos evitado o que aconteceu em 2010 e 2011. A crise financeira de 2008 foi a maior desde a Grande Depressão. E em relação à de 1983, quantos países é que tiveram uma revolução no auge da Guerra Fria e que, 12 anos depois, eram uma democracia capitalista com economia de mercado consolidada e membro da União Europeia? Não me parece uma performance assim tão má.

Ideologicamente posiciona-se à direita.
[Interrompe] Não. Sou um liberal, no sentido de acreditar que as pessoas agindo de uma forma livre, podendo fazer o que querem, conseguem, de uma forma geral, alcançar maior felicidade e uma melhor relação na sociedade. Não sou um libertário, acho que os governos devem defender os direitos de propriedade, de forma a que a minha liberdade não infrinja a do outro. Mas sendo Portugal um país onde a maior parte dos partidos está bastante à esquerda, isso leva a que, facilmente, as pessoas liberais sejam apelidadas de direita.

Portugal é assim tão de esquerda?
Somos um dos raríssimos países que têm na Constituição o caminho para o comunismo [refere-se ao preâmbulo que fala num “caminho para uma sociedade socialista”]. É um país onde o Estado tem uma tradição enorme no controlo sobre o país. E a maior parte das pessoas continua a pensar e a achar, legitimamente, que quando há um problema ele se resolve com maior intervenção estatal.

Ficou em pânico com a ‘geringonça’?
Não achei que a coligação funcionasse, tendo em conta a enorme distância, ideologicamente e em termos de princípios, entre o PS e os partidos radicais de esquerda. Mas claramente funcionou. Todo o mérito vai para António Costa e para a sua equipa. Têm feito um trabalho político excelente no sentido de conseguir governar sem maioria e sem ceder de forma importante ao programa radical da extrema-esquerda.

Ganhou, recentemente, dois prémios importantes. O que é que mudou?
No meu dia a dia nada. Em termos de reputação, é um reconhecimento dos pares muito grande. É uma alegria e uma satisfação enormes vindas de todo o campo científico da economia.

Aluno brilhante, académico de sucesso. Parece daquelas pessoas que nunca tiveram de lidar com o fracasso.
Não tinha talento nenhum para jogar ténis. Jogava muito quando era teenager e gostava de jogar, mas era péssimo. E isso foi muito importante para a minha educação, porque a escola era muito fácil e eu tinha muito boas notas, portanto não experimentava muito fracasso. Mas no campo de ténis era um fracasso, todas as semanas. Foi assim que aprendi o valor do trabalho, de me esforçar e de falhar. Cheguei a ser um jogador sofrível, mas com muito trabalho e por perder muitas vezes.

É muito organizado. Antes de vir para a entrevista enviou-nos as respostas ao questionário de Proust. Foi o único entrevistado a fazê-lo.
No meu trabalho, e tendo em conta que quero estar muito presente na educação dos meus filhos, tenho de gerir o meu tempo com cuidado para poder dormir as horas que mereço. Tenho de ter muita organização. Recebo mais de 200 e-mails por dia e tento responder a todos.

Culpabiliza-se por não passar mais tempo em família?
Faz parte da cultura católica portuguesa sentir-se culpado por tudo a toda a hora. A economia ensina que há um custo de oportunidades, faz-se uma coisa e não se faz outra. Podia ter feito muito mais profissionalmente se não tivesse tido os meus filhos, com certeza, mas não seria tão feliz. Não vale a pena chorar pelos custos de oportunidade.