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Uva do Carregado quer rivalizar com a Vale da Rosa

Mário Rodrigues juntou-se a outros produtores do Carregado para fundar a Frutalmente e apostar na uva de mesa e noutras culturas como figos ou pêssegos

Nuno Botelho

Dona Uva é a marca de uva de mesa, produzida pela Frutalmente, que quer ganhar notoriedade junto dos consumidores portugueses

Já foram muitos milhares de hectares de vinha plantados mesmo às portas de Lisboa, na zona do Carregado, região Oeste. Mas porque a produção de uva de mesa é uma atividade sensível e que requer muito trabalho e mão de obra, a cultura foi sendo progressivamente abandonada e, hoje, sobram poucos produtores. Mário Rodrigues, 40 anos, não se rendeu. Herdou o negócio do avô, fundado no início da década de 50, e está a expandi-lo, enquanto outros o abandonam. E não está sozinho. Em 2013, com outros cinco produtores de uva de mesa da região fundou a Frutalmente, a única organização de produtores no país especializada nesta produção, para garantir o escoamento da fruta, “num mercado inundado” por uva de mesa importada.

Com um investimento previsto de €4 milhões até 2020, para alimentar o aumento de produção e manter o ritmo de expansão para outras zonas do país, incluindo a construção de uma nova central de acondicionamento de fruta em Pegões (Setúbal), o objetivo é duplicar a faturação para os €10 milhões e o volume de produção para as 9 mil toneladas. E dar gás à marca Dona Uva, que pretende rivalizar com a insígnia Vale da Rosa, da zona de Ferreira do Alentejo, conhecida pelas seus bagos sem grainhas.

Através de ações de promoção e uma aposta mais focada nos mercados tradicionais e nas lojas de proximidade, a marca pretende “sobressair” e criar maior notoriedade junto dos consumidores. “A Dona Uva foi criada aquando da fundação da nossa organização de produtores, mas só agora começamos a concentrar-nos mais na marca porque, ao fim destes anos, temos finalmente outro tipo de estrutura, mais profissional, que o permite. Houve também um período necessário para um trabalho de uniformização dos objetivos e da produção de todos os produtores”, explica o administrador da Frutalmente. A criação de uma marca própria, com mais valor acrescentado, é também a forma de escapar aos “preços agressivos da grande distribuição, que deixam margens mínimas para os produtores”, sublinha.

Hoje, são 19 agricultores que fazem parte desta organização, já de outros pontos do país além do Ribatejo e da zona Oeste, como Coimbra, Pegões ou Mora. Atualmente, estão em produção 200 hectares de vinha e outros 50 estão já plantados. Destes últimos, 20 hectares são já de variedades de uva sem grainha. Em 2020, a organização de produtores terá um total de 300 hectares dedicados à uva de mesa. “O nosso objetivo não é crescer de forma descontrolada. Sabemos quais os objetivos que queremos atingir e todos os novos sócios têm de se encaixar na nossa filosofia”, diz Mário Rodrigues.

Diversificação e marcas

E embora esta fruta corresponda à grande fatia das vendas atuais (70%), a Frutalmente tem apostado na diversificação da oferta, sobretudo com frutos de caroço (pêssegos, ameixas), figos, bagas de goji e até morangos — que também já têm uma marca própria, a Adoora. “A campanha da uva concentra-se sobretudo em quatro meses, entre fins de julho até meados de novembro. No resto do ano, as nossas infraestruturas e corpo técnico ficavam sem trabalho. Ao investirmos em mais culturas e aumentarmos o número de produtores, amortizámos os investimentos e aumentámos a janela de produção, para praticamente todo o ano”, explica o responsável. Atualmente, a Frutalmente já detém uma área de 160 hectares implantados para a produção de uma larga variedade de fruta. “O esperado é que os produtos de caroço passem a representar uma fatia mais importante do nosso negócio, do que os atuais 30%”, acrescenta.

Praticamente toda a produção (95%) destina-se ao mercado nacional, sendo que o que resta acaba por ser escoado via “exportações esporádicas” que acontecem para geografias como Angola, São Tomé ou Polónia (via grupo Jerónimo Martins, neste último caso). “Com o aumento de produção esperado, até 2020, vamos ter de aumentar o negócio da exportação”, refere Mário Rodrigues, enquanto passeia pelas suas vinhas, implantadas junto à aldeia de Cadafais, no Carregado. Por agora, as palavras de ordem são “consolidar” investimentos e comercializar de “forma diferenciada”.

Ao contrário da imagem tradicional, estas vinhas são altas e quase parecem árvores. Os cachos de uva, de variedades brancas e pretas, crescem acima das nossas cabeças, num sistema de produção que Mário Rodrigues chama “em Y”. Ao contrário da concorrente Vale da Rosa, cujas uvas crescem sobretudo na zona de Ferreira do Alentejo, perto de Beja, em vinhas igualmente altas, mas cobertas, a Frutalmente tem toda a sua produção ao ar livre. “Fazemos uvas da forma mais tradicional, ao natural. Não retardamos nem antecipamos nada. O tempo é que manda. E têm mais sabor”, garante.

Este ano, o início da colheita atrasou algumas semanas, para o fim de agosto, por causa das chuvas imprevistas deste início de verão seguidas de uma grande onda de calor — e que também deitaram a perder, por exemplo, uma parte significativa de culturas como a alperce. A produção de uva também deverá sofrer uma redução. Em agosto, no pico da atividade, serão praticamente 300 pessoas a trabalhar na Frutalmente. “Esta região é muito agrícola, pelo que ainda conseguimos recrutar mão de obra local, sendo que 95% dos trabalhadores são portugueses”, explica.