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Risco turco abala bolsas. Itália é o elo mais fraco na zona euro

Erdogan tem conseguido manter-se no poder seguindo a regra de “nunca deixar a iniciativa ao inimigo”, diz um ativista turco

Murad Sezer / Reuters

Bolsas mundiais registam perdas pela segunda semana consecutiva. Afundamento da lira turca agita mercados. Bolsa de Milão com queda semanal acima de 2% e juros da dívida italiana a 10 anos fecham acima de 3%. Lisboa fecha com ganhos semanais

Jorge Nascimento Rodrigues

A semana ficou marcada pelo afundamento da lira. Na sexta-feira a moeda turca caiu 10,7% face ao euro e quase 14% face ao dólar, as mais elevadas quedas diárias desde a crise financeira turca de 2001. A crise da lira provocou uma onda de choque nas bolsas mundiais que voltaram a registar perdas pela segunda semana consecutiva. O índice MSCI global caiu esta semana 0,75%, uma queda muito superior à da semana anterior.

O elo mais fraco na zona euro revelou-se ser a Itália, com a bolsa de Milão a perder 2,3% durante a semana e os juros (yields) dos títulos do Tesouro transalpino a 10 anos a subirem, de novo, para 3% no mercado secundário, o que já não se registava desde início de junho, aquando do disparo do risco do novo governo italiano colocar a saída do euro como um dos objetivos da legislatura. O patamar dos 3% funciona, no caso de Itália, como uma linha vermelha, numa economia que, desde meados de 2014, registava juros abaixo daquele limiar, tendo chegado a atingir um mínimo perto de 1% em meados de agosto de 2016.

A vulnerabilidade da zona euro, e em particular de Itália, acentuou-se depois do jornal Financial Times ter citado fonte do Banco Central Europeu (BCE) referindo que a equipa de Mario Draghi está preocupada com a exposição da banca da zona euro à Turquia, e em particular por parte do Unicredit italiano, do BBVA espanhol e do BNP Paribas francês.

A bolsa de Lisboa ficou, por agora, imune ao vendaval, registando um ganho semanal de 0,6% e os juros das Obrigações do Tesouro português a 10 anos mantiveram-se abaixo de 1,8%.

Turquia, o 'canário na mina' mais vulnerável

Entre as economias emergentes mais vulneráveis que os analistas consideram funcionar como 'canários na mina', alertando para o risco de afundamento financeiro e de contágio internacional, a Turquia tem-se destacado.

A moeda já caiu 52,5% face ao euro desde o início deste ano. Lidera as desvalorizações de divisas face à moeda única, excluindo o caso do bolivar venezuelano, que regista uma depreciação estratosférica. O índice MSCI para a bolsa de Istambul afundou-se 40% desde final do ano passado. Em junho, pela primeira vez este ano, o país registou uma saída líquida de capitais no montante de 2,3 mil milhões de dólares (€2 mil milhões), segundo o Instituto da Finança Internacional.

A situação agravou-se no final da semana depois do presidente Trump voltar a usar a arma da guerra comercial em relação a um país específico. Num tweet, Trump anunciou que os EUA vão duplicar as taxas aduaneiras em relação ao aço e alumínio importados da Turquia. O presidente turco retorquiu que o país está a sofrer uma "guerra económica" e apelou à população a trocar dólares, euros e ouro por liras.

A moeda turca acabou por cair 18% durante a semana face ao euro e 21% face ao dólar. Este afundamento da lira contagiou os restantes 'canários na mina' que registaram desvalorizações semanais face ao dólar de 6,6% para o peso argentino, 6,4% para o rublo russo, 5,5% para o rand sul-africano, 4% para o real brasileiro, e 2,2% para o florim húngaro. O principal risco é que a agravamento da situação em um deles provoque "um efeito de manada" no conjunto criando condições para uma crise financeira nos emergentes, como no passado, alertou o académico chinês Yu Yongding num fórum financeiro na China.

Zona Euro exposta ao risco turco

O Financial Times fez-se eco das preocupações do Mecanismo Único de Supervisão do BCE sobre a exposição de bancos importantes da zona euro à Turquia.

Seis bancos que integram o Eurostoxx 50 (das cinquenta principais cotadas da zona euro) lideraram quedas semanais neste índice: o BBVA espanhol (-7,4%), Intesa italiano (-6%), ING holandês (-5,7%), Deutsche Bank alemão (-4,3%), BNP Paribas francês (-3,4) e Santander espanhol (-3,2%). O Unicredit italiano, citado pelo jornal britânico, perdeu 4,3% durante a semana na bolsa de Milão. O BBVA detém 49,85% do banco turco Garanti e o Unicredit, em joint-venture com o principal conglomerado industrial turco Koç, domina 81,9% do Yapi Credit turco.

Segundo o Banco de Pagamentos Internacionais, a banca mundial tem uma exposição de 265 mil milhões de dólares (€232 mil milhões) à Turquia. A banca espanhola detém 27% nesse total, seguindo-se a francesa com 12% e a italiana com 6%. São as posições mais elevadas, acima das registadas pelos sectores bancários britânico, norte-americano e alemão. A exposição do conjunto da banca portuguesa àquele país é residual.

América Latina e Europa mais castigadas

As duas 'regiões' que registaram maiores quedas bolsistas esta semana foram a América Latina e a Europa, segundo os índices MSCI. No primeiro caso, a quebra foi de quase 7%, com destaque para o índice iBovespa de São Paulo que recuou 6%. A Zona Euro perdeu 2,9% durante a semana, com destaque para as quedas em Viena e Milão.

As economias emergentes, no conjunto, registaram uma queda semanal de 1% no índice MSCI respetivo. Em contrapartida, a Ásia Pacífico e Nova Iorque tiveram ganhos semanais de 0,13% e 0,11% respetivamente, apesar das quedas mais acentuadas de sexta-feira.

China estabiliza yuan

No caso da Ásia, as duas bolsas chinesas (Xangai e Shenzhen) e Hong Kong registaram subidas semanais superiores a 2%, em virtude de Pequim ter estabilizado a queda do yuan e de ter avançado com um pacote de estímulos para contrabalançar o impacto da guerra comercial com os EUA. Confronto comercial que subirá para um novo patamar a 23 de agosto, com a imposição de um segundo pacote de taxas norte-americanas sobre 16 mil milhões de dólares (€14 mil milhões) de importações da China, e com a respetiva retaliação por parte de Pequim.

O yuan valorizou, esta semana, quase 1% face ao euro. O euro valia 7,92 yuans a 3 de agosto e caiu para 7,85 no final de sexta-feira. A moeda chinesa atingiu um pico de desvalorização a 31 de julho com o euro a subir para mais de 8 yuans. Na semana anterior, o Banco Popular da China (BPC) aumentou os custos da especulação cambial através de forwards. No relatório trimestral de política monetária publicado na sexta-feira, o BPC assegura que não usará a depreciação do yuan como arma defensiva face aos efeitos da guerra comercial.