Siga-nos

Perfil

Economia

Economia

10 anos depois da crise: as lições dos banqueiros portugueses

Os principais banqueiros nacionais deixam o seu olhar sobre os últimos dez anos da crise na banca nacional

A dobrar os 10 anos sobre uma das mais violentas crises financeiras da nossa história, fomos perguntar aos principais banqueiros o que aprenderam e o que os surpreendeu durante este período. Da falta de ética profissional, passando pelos egoísmos e a ligeireza na gestão, veja as respostas ao Expresso de Paulo Macedo, Miguel Maya, António Vieira Monteiro, António Ramalho e Licínio Pina

A banca aguenta um novo choque? Que perigos estão à espreita e como evitá-los? O Expresso colocou cinco questões aos presidentes dos maiores bancos a operar em Portugal, no âmbito do trabalho de balanço "Uma década de crise na banca" publicado na edição de 4 de agosto de 2018. Veja as respostas na íntegra dos presidentes da CGD, BCP, Santander, Novo Banco e Caixa Agrícola.

O BPI e a Caixa Económica Montepio Geral não responderam.

"Os perigos existem se o setor não se adaptar à mudança das expectativas dos clientes"

Paulo Macedo - CGD

Paulo Macedo - CGD

1. A banca portuguesa aguenta novo choque económico?
A banca portuguesa está hoje melhor preparada para fazer face a desafios futuros. Em todos os sentidos e em todos os rácios. Aliás, a banca tem estado a reforçar os seus mecanismos para melhor enfrentar dificuldades futuras da economia que inevitavelmente irão acontecer. A banca tem estado a reduzir os seus custos de estrutura e a melhorar o seu 'governance', apesar da rentabilidade da banca estar baixa por causa das taxas de juro.

A Caixa, o maior banco português, depende da evolução da economia portuguesa.
Não podemos desvalorizar o profundo ajustamento operado em Portugal, nomeadamente a redução significativa do risco acumulado, através da desalavancagem do sistema bancário, reforço dos níveis de solvabilidade a melhoria da liquidez, pela diminuição do rácio entre empréstimos e depósitos e o forte reforço do provisionamento do crédito em incumprimento, bem como a maior eficiência e a redução do excesso de capacidade instalada.

Não há desenvolvimento económico sustentável sem investimento produtivo e sem financiamento equilibrado. O sentimento económico dos investidores situa-se em níveis máximos da última década o que, aliado às taxas de juros historicamente baixas, proporciona um contexto muito favorável para o apoio dos bancos ao investimento das empresas portuguesas e das famílias.

2. Há indícios de que possa haver novas crises no sector? Quais os novos perigos?
Os perigos existem se o setor não se adaptar à mudança das expectativas dos clientes. Os clientes hoje querem ter serviços bancários em qualquer lugar e a qualquer hora, rápidos, eficazes e com poucos custos. Os bancos têm de ajustar a sua estrutura ao que os clientes estão dispostos a pagar. A transformação digital na banca é uma tendência generalizada, em Portugal e na Europa. É desafiante gerir um banco num contexto de transformação fortemente impactado pela tecnologia, regulamentação e alteração da expectativa dos clientes e em que persistem taxas de juro negativas e um escrutínio sem paralelo ao aumento das comissões. Outro dos novos perigos na banca é que esta fique só com os depósitos, quem têm grandes exigências de capital e regulação, mas sem os meios de pagamento, que são um negócio interessante e rentável. Finalmente, é importante que se tomem medidas para que os investidores internacionais reconheçam a robustez da banca nacional quando ainda há vários bancos em Portugal que não são considerados “investment grade”.

3. O que o surpreendeu pela negativa na crise financeira dos últimos 10 anos?
Não responde

4. O que falta para resolver para que o sector bancário fique mais robusto?
A conclusão da União Bancária, com um acordo até ao final de 2019 e a operacionalização até 2025 do mecanismo comum de segurança orçamental para o Fundo de Único Resolução – que garanta a eficácia do mecanismo europeu de resolução dos bancos sem custos para os contribuintes – e do Sistema Europeu de Seguro de Depósitos – que permita uma cobertura reforçada e idêntica dos depósitos bancários –, quer a realização da 'Capital Markets Union' – que estimule o desenvolvimento de instrumentos de financiamento inovadores e diversificados para empresas e particulares. É importante assegurar regras idênticas para os bancos e para as finthec, designadamente, os especialistas em meios de pagamentos.

5. Quais as principais mudanças ao nível da supervisão nestes últimos 10 anos? Aspetos positivos e negativos.
Passámos de uma supervisão nacional para uma supervisão europeia, com a criação do SSM em 2014. O papel do Banco Central Europeu é hoje decisivo nos bancos considerados sistémicos, como a Caixa. Os modelos de governo das sociedades financeiras foram revistos, a aprovação dos gestores bancários mais exigente, reforçando os mecanismos de controlo da gestão. O modelo de risco e de concessão de crédito, mas não só, foi revisto e melhorado. A intrusão regulatória é hoje uma realidade diária e sem paralelo no passado. Tudo isto é positivo na sua justa medida. Porque se a regulação e controlo forem demasiado onerosos para os bancos, dificultam a sua recuperação num quadro de taxas de juro negativas. E se forem demasiado burocráticas, retiram agilidade às instituições quando o fator “time to market” é cada vez mais essencial num quadro de mudança dos hábitos dos consumidores.


"Surpreendeu-me a excessiva tolerância à falta de ética profissional"

Miguel Maya - BCP

Miguel Maya - BCP

1. A banca portuguesa aguenta novo choque económico?
Um gestor tem que contar sempre com a eventualidade de se verificarem novos choques económicos. A preocupação com a gestão dos riscos, com a solvabilidade e com a liquidez têm de ser sempre, qualquer que seja a conjuntura, devidamente consideradas em todos os processos de planeamento.
A banca portuguesa aguenta seguramente mais, muito mais, do que aguentou no passado. Mas o melhor mesmo é procurar evitar novas crises, aprendendo com os erros e não os repetindo. As pessoas, as famílias, ainda estão a recuperar do muito que sofreram com a crise.

2. Há indícios de que possa haver novas crises no sector? Quais os novos perigos?
O setor financeiro sofre ciclicamente de crises, as quais têm frequentemente três origens: degradação da conjuntura económica, modelos de desenvolvimento económico insustentáveis, comportamentos irresponsáveis dos gestores com vista à maximização do retorno no curto prazo.

Se há indícios? Diria que específicos em Portugal não; se tal deve constituir motivo de preocupação e atenção permanente? obviamente que sim.

Os principais perigos continuam a ser - não se aprendeu grande coisa...- os modelos de incentivos dos diversos agentes, que em regra induzem a comportamentos orientados para resultados no curto prazo; a impunidade dos agentes relativamente a fraudes, as decisões mal tomadas (não confundir com que situações que correram mal) e o “evitar ter de tomar decisões sobre situações do passado” (a ausência de decisão é em si também uma decisão). Destacaria estes aspetos como os que aumentam substancialmente o risco de se repetirem erros do passado.

Os riscos parecem-me ser os do costume, novos serão certamente os fatores que farão deflagrar a próxima crise por não se terem precavido melhor os riscos de sempre.

3. O que o surpreendeu pela negativa na crise financeira dos últimos 10 anos?
Demasiadas coisas: a dimensão do sofrimento das pessoas, o populismo, a irresponsabilidade, a insensibilidade, as falhas nos modelos de governo e de controlo interno dos bancos e sobretudo a excessiva tolerância à falta de ética profissional.

4. O que falta para resolver para que o sector bancário fique mais robusto?
O setor bancário português está francamente mais robusto. A transformação dos modelos de negócio dos Bancos que sobreviveram, quer ao nível da liquidez quer ao nível da eficiência foi notável e compara bem com os principais Bancos da zona euro.
A evolução da solvabilidade também foi muito positiva e com a progressiva normalização, convergência para a média europeia, da ponderação dos ativos pelo risco os rácios de capital sairão ainda mais reforçados. Em matéria de NPEs (crédito de menor qualidade) há ainda trabalho a fazer, mas a urgência na sua resolução serve pouco os investidores e 'stakeholders' dos Bancos e muito aproveita a uma determinada tipologia de operadores.

5. Quais as principais mudanças ao nível da supervisão nestes últimos 10 anos? Aspetos positivos e negativos.
Tenho por princípio, enquanto gestor de uma entidade supervisionada, não efetuar nenhum comentário sobre os supervisores e ou a supervisão. Dito isto, evoluiu-se muito em matéria de supervisão bancária após a criação do Mecanismo Único de Supervisão em Novembro de 2014.


"A crise veio demonstrar que nem todos os bancos tinham a liquidez e a solidez necessárias"

António Vieira Monteiro - Santander

António Vieira Monteiro - Santander

1. A banca portuguesa aguenta novo choque económico?
A banca portuguesa está hoje mais sólida do que há uns anos atrás e o contexto económico é mais favorável. Estou, por isso, mais otimista quanto à evolução do setor. No entanto, num clima internacional de alguma incerteza- nomeadamente quanto a questões afetando a Europa (Brexit e migrações são apenas dois exemplos), o Médio Oriente e as regras do comércio à escala mundial - a situação da banca tem sempre um potencial de vulnerabilidade. Esperemos que os cenários mais pessimistas não venham a ocorrer pois, como se sabe, estamos sempre bastante dependentes da realidade externa e da intensidade que eventuais problemas possam vir a assumir pois disso depende bastante a estabilidade financeira portuguesa.

2. Há indícios de que possa haver novas crises no sector? Quais os novos perigos?
Embora acreditemos que o pior já tenha passado, persistem ainda dificuldades próprias do sistema financeiro português. Apesar da clara redução do défice e da trajetória descendente da dívida, a economia ainda está em recuperação, com crescimentos aquém do necessário para reduzir o gap que pretendemos eliminar. Só uma melhor economia trará um banca mais saudável e sustentável. Por outro lado, persistem em várias instituições problemas por resolver ao nível dos NPEs e das carências de capital, tornadas evidentes com um quadro regulatório muito exigente e consumidor de recursos dos bancos. Ao mesmo tempo, num cenário de juros negativos, os bancos vivem com margens magras e estão sujeitas à pressão de novos operadores à escala global que não estão sujeitos a um quadro de regulação idêntico. Haverá ainda que ter em conta o desempenho do Novo Banco para se perceberem os impactos que essa situação poderá ter no conjunto do sector.

3. O que o surpreendeu pela negativa na crise financeira dos últimos 10 anos?
A crise veio demonstrar que nem todos os bancos tinham a liquidez e a solidez necessárias. No Santander sempre desenvolvemos a nossa atividade com base numa política de contenção de custos e de prudência de riscos. Talvez por isso tenhamos sido o único banco em Portugal a atravessar este período de crise sempre com resultados positivos e assentes na atividade doméstica, o que mostra que os nossos princípios estavam corretos.

4. O que falta para resolver para que o sector bancário fique mais robusto?
Apesar da melhoria que temos assistido nos últimos anos, fruto do esforço que os bancos têm vindo a fazer, verificamos que ainda há importantes desafios ao nível da capitalização e do malparado. Precisamos de bancos mais sólidos em termos de capital e com um nível de NPEs mais baixo. O Santander tem um rácio de NPE de 4,9%, mas a média da banca em Portugal é de 13%.

5. Quais as principais mudanças ao nível da supervisão nestes últimos 10 anos? Aspetos positivos e negativos.
A principal alteração dos últimos tempos tem a ver com a circunstância de termos passado a estar sob a supervisão de uma autoridade europeia única, cabendo ao Banco de Portugal a supervisão prudencial. Nos últimos 10 anos houve uma maior proximidade e um acompanhamento efetivo do setor, o que é bastante positivo, uma vez que ajuda a prevenir situações negativas. Por outro lado, tem havido um quadro regulatório muito apertado que se pode até revelar por vezes algo excessivo para os bancos cumpridores face às políticas de prudência que têm seguido. Faltará ainda estender a regulação a novas entidades globais que desenvolvem atividades financeiras num quadro concorrencial privilegiado face aos bancos.


"Surpreendeu-me pela negativa o egoísmo nacionalista dos bancos estrangeiros"

António Ramalho - Novo Banco

António Ramalho - Novo Banco

1. A banca portuguesa aguenta novo choque económico?
A Banca portuguesa está muito mais preparada para qualquer crise. Mais capital, adequado nível de liquidez, melhor gestão de risco, mais eficácia na recuperação do vencido. A Banca, atrevo-me a dizer, preparou-se melhor para a crise do que se preparou para o crescimento.

2. Há indícios de que possa haver novas crises no sector? Quais os novos perigos?
Quando as crises se podem antecipar deixam se ser crises, são riscos a gerir. Mal estarão os bancos senão souberem gerir esses riscos

3. O que o surpreendeu pela negativa na crise financeira dos últimos 10 anos?
O que me surpreendeu pela negativa foi o egoísmo nacionalista dos bancos estrangeiros e em consequência o fim de dois ciclos: o ciclo da internacionalização do financiamento bancário e o ciclo da solidariedade monetária. Pelo contrário, pelo lado, positivo surpreendeu-me a lealdade dos clientes.
A Banca e o País não devem esquecer nem uma coisa nem outra.

4. O que falta para resolver para que o sector bancário fique mais robusto?
Ainda falta a concretização de um verdadeiro programa de rentabilidade. Quando formos capazes de criar valor sustentável e consistente para os acionistas, então também o faremos para os clientes. A prazo a robustez dará lugar ao serviço. E estamos no caminho correto, embora em estágios diferentes.

5. Quais as principais mudanças ao nível da supervisão nestes últimos 10 anos? Aspetos positivos e negativos.
A supervisão ganhou poder vertical (mais intrusão, mais intervenção) e ganhou mais poder horizontal, (mais supervisão comportamental, mais regulação). A supervisão ficou mais cara e ganhou escala europeia. Agora, vai ter de desafiar-se a si própria entre uma necessidade de inovação (veja-se o digital) e a homogeneização (que tenta tornar igual o que é diferente). Em 10 anos a supervisão transformou-se de um árbitro distante num jogador interveniente. Isso trouxe vantagens inegáveis imediatas, mas implicará um escrutínio mais exigente no futuro. E só no futuro será possível avaliar o presente.


" Houve ligeireza de gestão em alguns bancos"

Licínio Pina - Crédito Agrícola

Licínio Pina - Crédito Agrícola

1. A banca portuguesa aguenta novo choque económico?
Todos esperamos que não existam novos problemas no sector bancário português ou mesmo na Europa que coloquem novas dificuldades ao sistema. A banca corresponderá aos desafios futuros de forma diferente que no passado porque as regras também se alteraram designadamente no que diz respeito ao apoio público.

2. Há indícios de que possa haver novas crises no sector? Quais os novos perigos?
Há no horizonte indícios de dificuldades financeiras ao nível de clientes particulares sobre endividados que não souberam acomodar poupança nesta fase de juros baixos e que em fase de Euribor acima de zero poderão ter dificuldades em cumprir com as suas obrigações e, com isso, aumentar o nível de crédito malparado na banca. Ao nível das empresas o crescimento de crédito tem sido mais contido e os bancos utilizam critérios de análise de risco mais apertados que mitigam um pouco o incumprimento. Podem surgir novos perigos resultantes, por exemplo, dos impactos do aumento das taxas de juro e do fim dos apoios do BCE.

O futuro próximo da banca passará muito pela utilização acentuada de tecnologia, com uma redução progressiva da tradicional presença física.

3. O que o surpreendeu pela negativa na crise financeira dos últimos 10 anos? Essencialmente a ligeireza de gestão efectuada em alguns bancos. Incompreensível a facilidade com que se financiaram entidades sem qualquer sustentabilidade de negócio capaz de servir as dividas contraídas.
Conseguiram o milagre de inverter a relação bancária “ o Banco depende do cliente e não o cliente do Banco”.

4. O que falta para resolver para que o sector bancário fique mais robusto?
As autoridades de regulação identificam como problema ainda não resolvido, os níveis elevados de NPL. No entanto, na minha opinião, estes elevados níveis estão muito ligados à ineficiência da justiça.

5. Quais as principais mudanças ao nível da supervisão nestes últimos 10 anos? Aspetos positivos e negativos.
A supervisão mudou muito. Mais presente, mais actuante, mais cara (custos assumidos pelos Bancos), com uma carga burocrática imensa para cumprimento da regulação. O aspecto positivo: maior actuação, o negativo custos e burocracia