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Fundão atraiu empresas e pessoas, agora faltam casas

A ‘capital da cereja’, no sopé da Gardunha, conseguiu atrair dezenas de empresas e centenas de novos profissionais, a maioria na área das tecnologias da informação, ao longo dos últimos quatro anos. Agora debate-se com falta de habitação, sobretudo para arrendar

Nuno Botelho

As centenas de programadores informáticos que, nos últimos anos, escolheram o Fundão para trabalhar esgotaram as casas para arrendar

Vítor Andrade

Vítor Andrade

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Jornalista

Nuno Botelho

Nuno Botelho

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Fotojornalista

O Fundão está com dores de crescimento e isso vê-se na rua. Gruas, andaimes, tapumes, betoneiras, placas a indicar validade das licenças de construção e movimento de máquinas, camiões e pessoas. Muitas pessoas para o final de manhã de uma quarta-feira aparentemente normal, no centro histórico do Fundão, num final de julho ainda meio primaveril.

Durante os últimos quatro anos a cidade, que também é conhecida por ‘capital da cereja’, atraiu à volta de 600 profissionais da área das tecnologias da informação, a maior parte especialistas em programação informática, depois de ter conseguido a atenção de algumas multinacionais do sector.

Empresas como a Altran, Logicalis ou a RedinessIT instalaram-se ali, na cidade que fica no sopé da Serra da Gardunha, começaram a recrutar em Portugal e no estrangeiro e, subitamente, a cidade deu de frente com um problema “mas dos bons”, como faz questão de sublinhar Paulo Fernandes, presidente do município do Fundão: estão a faltar casas para acolher tanta gente.

Gruas, andaimes e tapumes. Cidade em obras

Gruas, andaimes e tapumes. Cidade em obras

nuno botelho

A pouco mais de dois minutos a pé da Praça do Município, no sentido nordeste, entramos na estreita Rua José Germano da Cunha, que atravessa uma das zonas mais antigas do Fundão. Entre casas acabadas de recuperar e outras em vias de entrar em obras ou já objeto de intervenção em curso, o cheiro a betão anda no ar. A reabilitação do edificado é particularmente visível nesta artéria, paralela à Avenida da Liberdade, que rasga a cidade mais ou menos ao meio. Mas há mais, mesmo nos locais menos centrais do Fundão.

Não é propriamente o ambiente citadino que mais se deseja: obras. Mas a verdade é que elas são necessárias. Como diz Paulo Fernandes, “estamos com dores de crescimento, mas vão passar e depois vamos sentir-nos muito melhor”.

Depois de ter passado anos de mala na mão a ‘vender’ a sua cidade a potenciais investidores nacionais e estrangeiros, agora o autarca do Fundão apela a promotores imobiliários e construtores para que façam casas na cidade, pois já não há que cheguem para acolher tanta gente que está a escolher a capital da cereja para viver e trabalhar.

“Não posso afirmar já que estamos a inverter a tendência de quebra demográfica de que padecíamos há décadas mas, pelo menos, estabilizámos”, sublinha Paulo Fernandes.

Antes arrendar do que 
pôr o dinheiro no banco

Manuel Lima, na casa dos 60 anos, é emigrante em França, mas vem várias vezes por ano ao Fundão, de onde é natural. Como tinha acumulado algumas poupanças e não via grandes alternativas de aplicação, a opção foi fácil. Comprar casas desabitadas, no centro da cidade, reabilitá-las e colocá-las no mercado de arrendamento. “Sempre é melhor do que pôr o dinheiro no banco, que nem dá rendimento nem dá segurança. Basta pensar nos bancos que já faliram.”

O problema que ainda subsiste no Fundão é a rigidez do mercado do arrendamento urbano. Praticamente não existe. Assim sendo, a Câmara chegou-se à frente e deu o exemplo. Não só concede benefícios fiscais e financeiros a quem optar por colocar casas no mercado, especialmente no centro histórico, como a própria autarquia criou uma ‘bolsa de casas’ para arrendar.

nuno botelho

Centro Histórico. No centro da cidade há várias obras de reabilitação urbana em curso, mas a autarquia ainda quer mais, pois continua a receber investimento tecnológico e industrial e, com ele, mão de obra que vem de outras zonas do país e também do estrangeiro. As pessoas que não encontram casas na cidade estão a instalar-se nas aldeias mais próximas, a menos de 10 quilómetros de distância. Em algumas zonas mais centrais da cidade, a autarquia está a recuperar alguns edifícios municipais que estavam sem uso para os reconverter em habitação

Centro Histórico. No centro da cidade há várias obras de reabilitação urbana em curso, mas a autarquia ainda quer mais, pois continua a receber investimento tecnológico e industrial e, com ele, mão de obra que vem de outras zonas do país e também do estrangeiro. As pessoas que não encontram casas na cidade estão a instalar-se nas aldeias mais próximas, a menos de 10 quilómetros de distância. Em algumas zonas mais centrais da cidade, a autarquia está a recuperar alguns edifícios municipais que estavam sem uso para os reconverter em habitação

nuno botelho

Mas ainda há outra variante não menos importante. A Câmara está a recuperar edifícios municipais que estavam sem qualquer tipo de uso, reconvertendo-os para habitação. As próximas 20 casas estarão prontas daqui a um ano, na Rua da Misericórdia, a dois passos do centro da cidade.

Como muitos dos que escolheram o Fundão para trabalhar não estão a encontrar casa na cidade só lhes restam duas opções: ou se instalam nas cidades mais próximas (Covilhã e Castelo Branco) ou nas aldeias situadas no perímetro da sede do concelho, como Castelo Novo, Donas, Alpedrinha, Aldeia de Joanes, Telhado, Orca, Soalheira ou Vale de Prazeres, entre outras.

Esta segunda opção está a ser mais seguida por jovens casais trabalhadores, já com filhos, que encararam a ida para o Fundão como uma mudança radical no seu modo de vida. “Na troca de uma grande cidade por uma aldeia onde, além de o custo de vida ser substancialmente mais baixo, o que não falta é espaço tanto para a habitação como para as crianças brincarem livremente e em segurança na rua, o que acaba por ser um tónico muito importante e decisivo para aquelas pessoas”, nota Ricardo Gonçalves, chefe de gabinete do presidente da Câmara do Fundão.

Casas aumentam 17% 
no espaço de um ano

Perante tanta pressão do lado da procura acontece aquilo que é básico na economia: os preços do lado da (escassa) oferta sobem. E não é pouco. Um apartamento do tipo T3 que há um ano custava €115 mil, na cidade do Fundão, agora chega facilmente aos €135 mil, um aumento de 17%.

Se olharmos para os preços do arrendamento, o mesmo apartamento T3 que podia ser negociado a €250 por mês, no início de 2017, agora não se consegue por menos de €350 mensais.

Quando a procura sai do Fundão e se estende às aldeias à volta, já se chega a preços na casa dos €70 mil por uma vivenda.

Manuel Nunes, da mediadora imobiliária Fundanense, explica que foi precisamente por aquele valor que há pouco tempo vendeu uma casa no Telhado, uma aldeia que fica a sete quilómetros do Fundão (10 minutos de automóvel). Há um/dois anos uma casa semelhante poderia ser adquirida por menos €20 mil ou €30 mil.

“Há, realmente, este fenómeno de procura de casas nas aldeias, mas nunca a mais de 10 quilómetros do Fundão”, sublinha aquele responsável.

Explica que em algumas aldeias é possível comprar casas habitáveis por €40 mil ou €50 mil e que, neste momento, já não são só os ‘novos’ trabalhadores das tecnológicas do Fundão a fixarem-se nesses locais.

Não há casa na cidade,
 compra-se na aldeia

“Perante a inflação de preços na cidade, muitos fundanenses optam cada vez mais pela compra de casa na aldeia. É mais barato, há mais espaço e mais tempo livre para estar com a família.”

Uma das principais tecnológicas instalada no Fundão — a Altran, com mais de 300 profissionais na cidade — tem já uma pessoa responsável pelo acolhimento dos novos colaboradores, em especial dos que vêm do estrangeiro e que também se debatem com a barreira da língua. Marta Caldeira ficou com essa tarefa e explica que também ela — que trocou recentemente Lisboa pela cidade da Gardunha — passou por uma situação semelhante.

Para os mais jovens e solteiros é sugerida, muitas vezes, a partilha de apartamentos. “No entanto, quando se trata de profissionais que trazem consigo a família, normalmente procuram casas maiores e acabamos por encaminhá-los para algumas aldeias”, nota Marta Caldeira.

As últimas duas famílias que acolheu na Altran acabaram por se instalar nas aldeias de Souto da Casa e Alcongosta, a 5 e 4,5 quilómetros, respetivamente.

A responsável da Altran conta que já se sente alguma inflação de preços no imobiliário local mas que, ainda assim, são valores perfeitamente comportáveis. Nota que encontrou no Fundão muito do que não tinha em Lisboa: tempo, qualidade de vida e centralidade. “Isso mesmo, essa coisa do interior ser longe de tudo é um mito urbano. Estamos perto de Lisboa, do Porto e até fazemos alguns fins de semana em Salamanca ou Madrid. Tudo isto a pouco mais de um par de horas de distância.”