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Empresas desistem de novos investimentos em Portugal por dificuldade em contratar

Ao sector da restauração faltam mais de 40 mil trabalhadores, uma parte significativa serão temporários que as empresas não conseguem contratar

Antonio Bernardo

Há milhares de ofertas de emprego por preencher e não são só vagas temporárias. Afonso Carvalho, presidente da Associação Portuguesa das Empresas do Sector Privado de Emprego (APESPE — RH), recusa associar as dificuldades de contratação atuais apenas aos trabalhadores temporários. Diz que o problema é global e que já há empresas a repensar os seus investimentos no país

Catia Mateus

Catia Mateus

Jornalista

Que impacto gerou a evolução positiva na criação de emprego nacional e a diminuição do desemprego na contratação de trabalhadores temporários?
Logo após a crise foi notória a contribuição dada pela agências privadas de emprego junto de empresas que ainda estavam muito desconfiadas do que poderia acontecer nos mercados onde operavam. Até porque algumas estavam muito debilitadas financeiramente e a flexibilidade é muito útil nesses momentos.

Ou seja, as contratações temporárias aumentaram...
As funções sazonais ou muito pontuais, comuns no sector hoteleiro e agrícola, por exemplo, assistiram a um crescimento acima da média, o que trouxe sobretudo benefícios aos profissionais envolvidos.

Benefícios de que tipo?
Tem ocorrido uma profissionalização na gestão deste tipo de contratos, algo que vemos com muito bons olhos.

Mas muitos empresários dos sectores que refere dizem que é hoje mais difícil recrutar trabalhadores temporários do que no auge da crise, em 2013.
Hoje, e comparativamente a 2013, é muito mais difícil recrutar qualquer tipologia de trabalhador, dada a escassez crítica de recursos humanos em Portugal.

Não afeta só os empregos sazonais...
Não concordo que seja mais difícil recrutar trabalhadores temporários do que há alguns anos, até porque esta é uma tipologia contratual cada vez mais aceite e a que algumas pessoas (jovens e profissionais seniores) recorrem para ter um complemento salarial, um trabalho enquanto estudam ou um segundo trabalho.

E como se justificam essas dificuldades de contratação generalizadas?
Com uma formação profissional desajustada da realidade empresarial (menos industrializada e mais direcionada para os serviços), falhas na requalificação profissional, ausência de parcerias público-privadas para a colocação de jovens desempregados e desempregados de longa duração (como sucede noutros países da União Europeia), falta de incentivos laborais, sociais e fiscais para fixar populações e empresas fora das grandes metrópoles são alguns exemplos que justificam a situação dramática que se vive, de norte a sul do país, no que toca à contratações.

Que impacto são esperados no mercado de trabalho a médio prazo?
Milhares de vagas, temporárias e permanentes, ficam por preencher. Há empresas que não conseguem abrir novas linhas de produção e centros de serviços partilhados que começam a recuar em novos investimentos em Portugal, dado o cenário atual e as previsões a médio prazo. Preocupa-me que não exista um plano a longo prazo para combater este problema que é estrutural e afeta trabalhadores, empresas e a economia.