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Economia americana salta do divã para a festa

Spencer Platt/Getty

Menos impostos e mais consumo geram euforia nos EUA, receita que poderá não suster o que aí vem, garantem ao Expresso vários economistas americanos

Os Estados Unidos bateram o recorde do mais longo período de crescimento económico na história do país. Noventa e quatro meses de recuperação após a Grande Recessão de 2008, consequência das políticas de estímulo à economia de Barack Obama e, desde janeiro de 2017, do plano de desregulação e alívio fiscal perpetrado por Donald Trump.

O ritmo do feito aumentou no último ano. A América do Presidente republicano duplicou a marca atingida pelo antecessor democrata (2%), manteve a queda do desemprego (3,9%, um terço do valor registado no pico da crise) e garantiu, ainda, fruto do tal corte de impostos, que Wall Street prolongasse a onda de máximos com mais ou menos solavancos.

No distrito financeiro de Manhattan, os jovens corretores abandonaram de vez o divã do psicanalista, paragem obrigatória durante a crise, e pululam de festa em festa, ostentando com orgulho reforçado os bonés de beisebol vermelhos com a frase Make America Great Again. “Não tinha mãos a medir entre 2007 e 2008. Em Wall Street, as drogas e os suicídios tinham disparado. Hoje tudo mudou”, confessa-nos Jonathan Alpert, conhecido em Nova Iorque como o psicólogo da bolsa, dada a quantidade de clientes oriunda da indústria financeira.

Porém, apesar da euforia, reforçada pelos números apresentados há uma semana pelo Congressional Budget Office (CBO) — destaque para o crescimento do Produto Interno Bruto de 4,1% durante o segundo trimestre deste ano —, todos os economistas ouvidos pelo Expresso insistem que esta realidade não é sustentável.

“A verdadeira história na base da tendência é o facto de o consumo privado ter disparado 4% em igual período, o que arrastou a economia”, explica-nos Ian Stepherdson, economista-chefe da Pantheon Macroeconomics. “Por cada dez dólares injetados na economia, sete são oriundos do consumo privado. Crescer acima de 4% significa que as pessoas estão a usar os cortes fiscais de janeiro nas compras. Contudo, a diminuição dos impostos não se irá repetir e duvido que esta expansão continue.”

Segundo este especialista, caso se confirmem as expectativas da Casa Branca (crescimento acima de 4% na próxima década), tal significará “um aumento espetacular do rendimento privado, da qualidade dos serviços públicos fruto de uma maior receita fiscal... Viveremos uma espécie de nova era dourada. O problema é que nenhum economista sério acredita nisso”.

Este pessimismo aumenta quando a conversa se estende à nuvem negra que paira no horizonte, isto é, o efeito das tarifas aplicadas pela China às exportações agrícolas dos EUA. “Teme-se um resultado devastador que, por agora, ainda não foi contabilizado”, explica-nos Gregory Mankiw, professor na Universidade de Harvard.

O travão chinês 
e a quebra no investimento

Sinal de que a guerra comercial com Pequim, a segunda maior economia mundial e consumidora em larga escala de produtos made in USA, poderá ser um travão à expansão americana, Trump passou parte da semana passada em comícios no interior do país, tranquilizando as comunidades agrárias. “Sejam pacientes. No fim, tudo ficará bem”, assegurou.

“Será preciso mais do que paciência”, alerta Ben Ginsberg, advogado e ex-membro da campanha do candidato republicano às presidenciais de 2012, Mitt Romney. “Este é daqueles assuntos em que 90% dos economistas concorda que a política está errada (aplicação de tarifas à entrada de bens estrangeiros e consequente conflito comercial). Porém, parece que não vivemos numa era em que os factos importam e muito menos as opiniões de quem estuda estas matérias.”

Segundo este veterano da política, o eleitorado rural continua ao lado do Presidente porque “acredita que os males da economia relacionam-se com a imigração e as políticas comerciais excessivamente brandas. Trump percebe isso e manipula, falando para o sentimento coletivo. Por isso, eles estão dispostos a perder dinheiro no conflito com a China, desde que Trump faça, ou diga que irá fazer, algo nesses dois capítulos”.

Os efeitos do protecionismo geram instabilidade política em Washington, com críticas internas no Partido Republicano, tradicionalmente pró-globalização, e desconfiança nos investidores internacionais. “Eles olham para o mapa e veem imensas oportunidades — China, África, União Europeia... Depois olham para nós e sentem que isto virou um buraco negro”, confessa Mankiw. “Há a crença de que já não somos a nação central e de que estamos a implodir. Lentamente, o capital estrangeiro começa a procurar paragens menos instáveis.”