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Dentro da cidade-fantasia que o Facebook criou para 14 mil pessoas

Main Street: esta é a rua principal da sede do Facebook em Menlo Park, Silicon Valley

foto maria joão bourbon

Há jardins, restaurantes, bancos, lojas de doces, cabeleireiro, minibiblioteca, lavandaria, consultório médico, bike sharing, workshops de poesia e ateliês de trabalhos manuais: 14 mil empregados da maior rede social do mundo trabalham dentro de uma cidade criada para eles e podem fazer tudo lá - menos dormir. Deixaram-nos visitá-la durante 30 minutos e foi assim que vimos que muitos dos tetos dos edifícios que dão corpo ao local encontram-se por concluir. “Estão propositadamente inacabados para nos recordarmos que o Facebook nunca está terminado”

Maria João Bourbon

Maria João Bourbon

texto e fotos, em Menlo Park (Silicon Valley)

Jornalista

O sol aquece as conversas dos jovens que se agrupam a almoçar, sentados na relva ou nas parcas mesas que semeiam a praça central. Como em qualquer cidade ou vila que se preze, também nesta há um centro onde é possível esbarrar, sem esforço, com meio mundo. O outro meio andará provavelmente pelo cabeleireiro, médico, lavandaria, ginásio ou em qualquer ateliê de design ou open space que fazem as delícias desta pequena cidade.

Cheira a verão. O ambiente é relaxado e informal — e a tarde mais parece um daqueles furos ou intervalos aproveitados pelos estudantes universitários para se escapulirem até ao centro da cidade. Nela reina a descontração, ouvem-se conversas, gargalhadas, veem-se jovens de t-shirts, pólos, calções ou sandálias no pé. Uns almoçam nos restaurantes ou cafés, outros estão simplesmente sentados a relaxar e há ainda quem discuta temas de trabalho ou faça fila junto às carrinhas coloridas que vendem comida na rua.

Na rua principal existem restaurantes, lojas, cafetarias e esplanadas

Na rua principal existem restaurantes, lojas, cafetarias e esplanadas

foto maria joão bourbon

A informalidade aparente contrasta com as restrições subtis que vão sendo introduzidas aos jornalistas ao longo do dia — e que mostram que a liberdade é uma regalia mais de quem está do que quem vem. “Não podem ir para aí, a zona reservada aos jornalistas é esta”, diz-nos uma funcionária. O “aí” é a praça central, contígua à zona de árvores, sombras e cadeiras confortáveis do jardim Zen onde nos encontramos a almoçar (e para a qual há quem traga o computador ou o tablet para trabalhar).

Muitos procuram o Zen Garden para relaxar, mas há também quem venha para aqui trabalhar

Muitos procuram o Zen Garden para relaxar, mas há também quem venha para aqui trabalhar

foto maria joão bourbon

É nesta zona em que queremos e acabamos por entrar, bem no coração da cidade, que encontramos “hack”, uma palavra que Mark Zuckerberg (Zuck, para os amigos) acredita que tem mais de bom que de mau. Desenhada no chão em tamanho XXL, pode apenas ser lida numa vista aérea do campus do Facebook em Menlo Park, no condado norte-americano de San Mateo, que pertence à famosa meca da tecnologia Silicon Valley. É também ela que dá o nome à praça Hacker, onde os jovens com ar de estudantes numa tarde de verão estão reunidos em mais um intervalo — e que serve de espaço para eventos de todo o tipo.

Um rápido olhar não deixa margem para enganos: junto às pequenas pontes vermelhas entre edifícios que prestam tributo à Golden Gate Bridge de São Francisco, a gigantesca placa comprada à empresa familiar de fabrico de sinalética The Hacker Company, fundada por Jay A. Hacker na Flórida, remete para uma cultura empresarial disruptiva que Zuck intitula “The Hacker Way” (e que é também a morada do Facebook): aperfeiçoamento contínuo, criação rápida, capacidade de testar os limites.

A praça Hacker é o coração da sede do Facebook em Menlo Park, Silicon Valley

A praça Hacker é o coração da sede do Facebook em Menlo Park, Silicon Valley

foto maria joão bourbon

É também como reflexo dessa filosofia que muitos dos tetos dos 20 edifícios que dão corpo a este campus se encontram por terminar. “Estão propositadamente inacabados para nos recordarmos que o Facebook nunca está terminado”, explicam-nos durante a visita guiada. Aliás, quase tudo neste lugar parece vir acompanhado por metáforas ou simbolismos, como nos iremos aperceber ao longo do dia.

Lojas, salas de jogos, lavandaria, cabeleireiro e muito mais

Em 23 hectares e 14 mil funcionários cabem todos os estereótipos e o seu contrário. Há o tradicional geek da tecnologia que fala tão rápido e com termos tão técnicos que torna a simples tarefa de transcrever o que diz num exercício quase impossível. Há os que têm o tempo contado, entram rápido e saem a correr. Os que não têm tempo para perguntas à margem da oratória, os que dão respostas evasivas ou os que recorrem à célebre bengala “penso que não partilhamos essa informação”. Mas há também quem explique pausadamente, deixando-se interromper para dar resposta a quem pergunta. Quem admita erros. Quem pare no final para cumprimentar, com um sorriso na cara, os que se lhe atravessam no caminho, entregando um cartão de visita — mesmo que tenha de repetir esse gesto uma dezena de vezes.

No meio de tantos temas e explicações, a visita guiada ao campus da maior rede social do mundo podia não ter acontecido. O evento inédito preparado pelo Facebook para cerca de 30 jornalistas internacionais — que contou com intervenções de vários responsáveis do Facebook, Instagram e WhatsApp — ficou confinado a uma espécie de sala de aula num dia que andou a toque de caixa, um ritmo que a equipa de comunicação da empresa se esforçou por assegurar. “Temos de nos manter no horário”, é frequente ouvir em prol da passagem para o painel seguinte, mesmo que para isso seja necessário cortar questões dos jornalistas — embora, em abono da verdade, deva escrever-se que em cada tema é reservado um espaço para perguntas e respostas.

Grande parte do dia foi vivido numa ‘sala de aula’ a ouvir e a questionar responsáveis do Facebook sobre o trabalho e o impacto da rede social

Grande parte do dia foi vivido numa ‘sala de aula’ a ouvir e a questionar responsáveis do Facebook sobre o trabalho e o impacto da rede social

foto maria joão bourbon

O programa é tão apertado que pouca margem sobra para explorar o que nos rodeia — e, segundo nos dizem, estivemos a um pequeno passo de não visitar o campus da multinacional. Mas no final tudo acaba bem e a visita é transformada num sprint de pouco mais de meia hora para registar uma dezena de ‘maravilhas’ da sede da rede social (apenas por escrito ou em fotografia, porque o vídeo está-nos vedado e o áudio captado não pode ser publicado, avisam-nos).

Como “não há muita coisa” ao lado do campus do Facebook, a tecnológica criou a sua própria cidade. Restaurantes, cafés, geladarias, lojas de doces com esplanadas coloridas não deixam sem escolha os cerca de 14 mil funcionários que lá trabalham, metade daqueles que a empresa tem no total. Muitas dessas opções de alimentação que os trabalhadores encontram no campus não são pagas, acrescentam enquanto passamos por uma loja pop-up — esta sim, paga — que abre semanalmente as suas portas cor-de-rosa a um negócio local diferente, como empresas que vendem flores ou produtos feitos à mão.

A loja pop-up

A loja pop-up

foto maria joão bourbon

Se precisarem de ir à lavandaria ou ao cabeleireiro, os trabalhadores encontram aqui uma solução. Existem também salas de jogos, um ginásio, um banco, um consultório médico, entre outros serviços — a maioria gratuitos, segundo dizem — destinados a simplificar a vida dos trabalhadores. “Queremos que os nossos empregados, quando saem do trabalho, consigam ir diretamente para casa e estar com as famílias sem terem ainda de ir tratar de algumas destas obrigações do dia a dia”, asseguram, sublinhando que a distância de carro até ao centro de São Francisco ronda a meia hora.

O campus do Facebook tem (quase) tudo: médico, barbeiro, ginásio, um banco e salas de jogos

O campus do Facebook tem (quase) tudo: médico, barbeiro, ginásio, um banco e salas de jogos

foto maria joão bourbon

Até prateleiras com snacks, máquinas automáticas que vendem acessórios tecnológicos (como baterias e carregadores) e um kit de higiene na casa de banho, com escovas, pastas de dentes, cremes e outros produtos, é possível encontrar aqui. “Mas ninguém vive no campus”, garantem-nos. Certo é que os trabalhadores têm quase tudo à mão de semear — uma cultura típica de algumas tecnológicas, vista pelos mais céticos como uma forma de levar os trabalhadores a maximizarem o tempo que passam no local de trabalho.

Quando o digital encontra o analógico

Para cá e para lá vê-se uma ou outra bicicleta a passar. Nem sempre é fácil ‘navegar’ num campus de grande dimensão, mas este meio de transporte torna o desafio bem mais fácil e rápido.

Tal como em muitas cidades, também existem bicicletas partilhadas

Tal como em muitas cidades, também existem bicicletas partilhadas

foto maria joão bourbon

Há estações de bicicletas partilhadas, gratuitas, espalhadas pelas diferentes zonas e uma loja para as vender ou reparar, o Transit Hub, que oferece uma espécie de consultoria para os mais aficionados. “Hey, vamos falar sobre bikes! 11.00 am - 3.30 pm @ tenda de consultoria”, lê-se num quadro de ardósia à entrada do estabelecimento.

O Transit Hub vende e repara as bicicletas dos trabalhadores

O Transit Hub vende e repara as bicicletas dos trabalhadores

foto maria joão bourbon

Quase em frente, uma minibiblioteca que mais parece uma cabine telefónica disponibiliza livros para empréstimo — e recorda-nos que mesmo nas empresas mais digitais o papel ainda resiste. Veem-se clássicos, livros de ficção, não ficção, poesia, entre muitos outros, como mostram as etiquetas coladas nas pequenas prateleiras.

A minibiblioteca tem vários livros para empréstimo. “Leva um livro emprestado, guarda as ideias”, lê-se na porta

A minibiblioteca tem vários livros para empréstimo. “Leva um livro emprestado, guarda as ideias”, lê-se na porta

foto maria joão bourbon

Adiante, nova ode ao papel: o Analog Research Lab (Laboratório de Investigação Analógica), espaço de criatividade, design e artes manuais que desde 2010 leva os ‘techies’ — e os empregados que trabalham exclusivamente neste espaço — a meter as mãos na massa e não apenas no ecrã.

O Laboratório de Investigação Analógica foi criado em 2010

O Laboratório de Investigação Analógica foi criado em 2010

foto maria joão bourbon

Os janelões com desenhos e mensagens coloridos a vermelho convidam a entrar — e a explosão interior de cores, formatos e feitios com que somos recebidos traz-nos rapidamente à memória uma célebre frase de Nietzsche: “É preciso muito caos interior para parir uma estrela que dança”.

A aparente desorganização do espaço é também uma das suas belezas

A aparente desorganização do espaço é também uma das suas belezas

foto maria joão bourbon

Aqui dançam-se ilustrações, pinturas, posters, livros, cadernos, t-shirts, instalações de arte e até bordados no meio de um caos criativo e de uma cultura de arriscar, tentar, testar, falhar e voltar a tentar que o líder do Facebook quer tornar lei.

Posters, t-shirts, artes manuais e bordados são alguns dos resultados deste laboratório de ideias

Posters, t-shirts, artes manuais e bordados são alguns dos resultados deste laboratório de ideias

foto maria joão bourbon

É talvez por isso que encontramos também um centro de aprendizagem que não vive só de código e do digital. “Existem workshops de escrita, poesia e pintura...”, aponta um estagiário que encontramos pelo caminho.

Meia hora passa num ápice e a sala de aula espera-nos para nos encher com novas matérias, novidades e detalhes sobre a forma de trabalhar da multinacional. Depois de um dia em cheio, regressamos — mas não sem antes tirar a fotografia da praxe à placa com a enorme mão de polegar espetado para cima que assinala o mediático “gosto” da rede social. E aqui, no nº 1 da Hacker Way, esbarramos com novo simbolismo.

Quando vemos esta placa, sabemos que estamos na entrada do Facebook

Quando vemos esta placa, sabemos que estamos na entrada do Facebook

foto maria joão bourbon

Na traseira da placa de boas-vindas ao Facebook encontra-se o símbolo da Sun Microsystems, que ocupava este campus antes de ser comprada pela Oracle em 2010. Um ‘detalhe’ propositado, para que cada pessoa que aqui trabalha “nunca se desleixe nem se esqueça que os grandes também podem cair”.

Zuckerberg manteve o logótipo da empresa que antes ocupava este campus, comprada pela Oracle em 2010

Zuckerberg manteve o logótipo da empresa que antes ocupava este campus, comprada pela Oracle em 2010

foto maria joão bourbon

* O Expresso viajou a convite do Facebook