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Dívida. Portugal liderou descida do prémio de risco em julho

Juros da dívida portuguesa a 10 anos desceram no mês passado no mercado, mas subida da taxa dos títulos alemães provoca uma caída do spread superior à registada para os restantes periféricos do euro. Custo de dívida emitida está em mínimos

Jorge Nascimento Rodrigues

O prémio de risco da dívida portuguesa caiu de 149 para 133 pontos-base em julho, uma descida de dezasseis pontos, a maior redução registada nos periféricos do euro. Os juros (yields) das Obrigações do Tesouro português (OT) a 10 anos foram os únicos a descer no mercado secundário em julho no conjunto dos periféricos da moeda única.

A redução foi ligeira, de 1,79% no final de junho para 1,78% na última sessão de julho, mas face à subida de 15 pontos-base nos juros das obrigações alemãs (designadas por Bunds), o risco (spread) da dívida portuguesa caiu significativamente. O prémio de risco calcula-se a partir da diferença entre o custo de financiamento da dívida a 10 anos num país membro do euro em relação à taxa de mercado para as Bunds, que serve de referência. Com os juros das OT, naquele prazo, em 1,78% e a taxa para as Bunds em 0,45%, o spread era, no final de julho, de 1,33 pontos percentuais, ou 133 pontos-base, para a dívida portuguesa.

O custo da dívida emitida pelo Tesouro português desceu de 2,6% em 2017 para 2% entre janeiro e julho do ano corrente, o custo mais baixo de sempre, segundo os dados divulgados pela Agência de Gestão da Tesouraria e da Dívida Pública (IGCP). Portugal colocou €950 milhões através de leilões de OT em julho. Na emissão a 10 anos, o Estado pagou 1,727%, uma taxa mais baixa do que no leilão de junho, mas acima da conseguida no leilão de maio, quando pagou 1,67%, um mínimo histórico em colocações de dívida naquele prazo pelo IGCP.

Italexit continua adormecido

Nos outros quatro periféricos do euro, os juros, no prazo de referência a 10 anos, mantiveram-se ou inalterados, como no caso da Grécia (continuando ligeiramente abaixo de 4%), ou subiram, como nos casos de Espanha (nove pontos-base), Irlanda (nove pontos-base) e Itália (três pontos-base). Por isso, os prémios de risco destes três periféricos desceram menos do que para Portugal.

Os juros gregos poderiam ter descido para 3,8%, nível para que apontava a trajetória desde o início de julho, mas a reafirmação na terça-feira pelo Fundo Monetário Internacional das suas divergências com o Eurogrupo e Bruxelas sobre a sustentabilidade da dívida helénica no longo prazo inverteram a tendência descendente.

Apesar das subidas verificadas nos juros da maioria dos periféricos, o cenário de uma saída do euro por parte de Itália- um Italexit - continua adormecido, depois dos sobressaltos de final de maio e início de junho, quando as taxas no mercado para a dívida italiana a 10 anos galgaram os 3% respondendo a rumores de que o governo de coligação do Movimento 5 Estrelas e da Liga em Roma colocaria em cima da mesa a opção de redenominação da moeda. Essa opção continua na gaveta. Mas o risco de redenominação em algum país do euro continua de pé “no longo prazo”, como recordou ao Expresso o académico norte-americano Kenneth Rogoff em entrevista publicada em julho.

Os juros das Bunds alemãs continuam a sentir a pressão da subida das taxas dos títulos do Tesouro norte-americano a 10 anos, que aumentaram de 2,86% no final de junho para 2,96% na última sessão de julho. No entanto, os juros norte-americanos continuam abaixo do máximo do ano de 3,126% registado em maio.

Estímulos monetários continuam na zona euro

A reafirmação pelo Banco Central Europeu (BCE), na reunião da política monetária de julho, da estratégia aprovada em junho - de prosseguimento das compras de dívida no mercado secundário até final do ano e de continuação dos reinvestimentos do capital vincendo nas amortizações - mantém a estratégia de estímulos.

Adicionalmente, a comunicação de que o BCE não subirá os juros pelo menos “até durante o verão” de 2019, dá garantia ao mercado de que o custo real negativo do euro se vai manter por mais algum tempo. A taxa diretora do BCE está no mínimo histórico de 0% e, com a inflação em 2,1% (acima da própria meta do BCE) em julho, o juro real negativo é, agora, de -2,1%. A título de comparação, no caso dos Estados Unidos, a taxa diretora da Reserva Federal está em 2% e a inflação em junho subiu para os 2,9% - o juro real negativo é de -0,9%.

Mario Draghi, o presidente do BCE, sublinhou, ainda, que o próprio banco mantém as opções em aberto, apesar da antecipação de que descontinuará a política de aquisições no final deste ano e de que não mexe nas taxas até ao final do verão do próximo ano. A essa postura de flexibilidade, o BCE chama de "opcionalidade" em função dos dados da conjuntura económica.

  • Os técnicos do Fundo Monetário Internacional na análise publicada esta terça-feira duvidam do realismo das previsões do Eurogrupo e de Bruxelas para o crescimento económico da Grécia e a geração de excedentes primários orçamentais no longo prazo. Acham que acabará por haver necessidade de nova dose de alívio de dívida