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Há recém-licenciados a ganhar €3571/mês: veja a lista dos 20 empregos que pagam mais à saída do curso

Ranking de profissões que praticam melhores salários em início de carreira agrega funções em sectores como imobiliário, logística, farmacêutica, banca, marketing e vendas, turismo, contabilidade ou tecnologias de informação

Catia Mateus

Catia Mateus

Jornalista

Delegados hospitalares e gestores de produto, na indústria farmacêutica, estão entre os profissionais que ganham melhor à entrada no mercado laboral

RUI DUARTE SILVA

Os dados do Instituto Nacional de Estatística (INE) comprovam aquilo que a maioria dos trabalhadores portugueses há muito já sabia, que a recuperação económica do país tem sido construída à custa de baixos salários. Três em cada quatro empregos criados (75%), entre 2013 e 2018, correspondem a salários abaixo dos 900 euros líquidos mensais. Um cenário que é particularmente penalizador para os que agora entram no mercado de trabalho. Mas há exceções. No mesmo país em que 1,3 milhões de trabalhadores levam para casa salários entre 600 e 900 euros, há profissões onde um recém-licenciado em início de carreira pode atingir remunerações de 50 mil euros brutos anuais (€3571 mensais). São os delegados hospitalares, na indústria farmacêutica, e lideram a lista de 20 profissões que pagam melhor aos jovens em Portugal.

O Expresso partiu do último Guia do Mercado Laboral, elaborado anualmente pela consultora de recrutamento Hays, para identificar as profissões que pagam melhor a quem entra no mercado de trabalho após terminar a formação superior. Na análise foram considerados os salários médios anuais brutos praticados em Lisboa e no Porto, no início da carreira (até quatro anos de exercício profissional), e excluídos todos os cargos de direção e patamares hierárquicos superiores. O resultado foi uma lista de 20 profissões que valoriza as novas gerações de profissionais. E em algumas destas carreiras as competências comportamentais até pesam mais do que as qualificações técnicas.

É o caso, na indústria farmacêutica, dos delegados de informação médica que trabalham com os hospitais, a profissão que paga melhor nos patamares iniciais de carreira — 50 mil euros brutos anuais, em Lisboa, e 47 mil euros, no Porto — segundo os dados da Hays. E não, não falamos de médicos, enfermeiros ou de profissionais altamente especializados. Antes pelo contrário. “Falamos de perfis que podem vir de áreas como a Psicologia, Gestão ou Marketing. Não é muito comum encontrarmos nestas funções perfis da área da Saúde. São sobretudo bons comerciais, com forte capacidade negocial, muito orientados para resultados”, explica Mário Rocha, manager (diretor) da Hays, que acrescenta que nesta área as competências técnicas são menos determinantes do que as soft skills (comportamentais). “Quando contratam para esta função as empresas procuram perfis com as competências comportamentais certas, sobretudo a vocação comercial. “As competências técnicas, asseguradas por uma formação permanente e muito intensa são garantidas pela empresa”, explica.

Os responsáveis de expansão, no sector do retalho/ grande distribuição, são a segunda profissão onde um licenciado pode encontrar maior valorização salarial na fase inicial de carreira. Estes profissionais não ocupam cargo de direção, mas coordenam a ligação dos vários departamentos que podem ter impacto na estratégia de desenvolvimento e expansão de cadeias de grande distribuição, a nível nacional ou internacional. São profissionais com sólidas competências de gestão (muitas vezes licenciados na área) e em início de carreira podem auferir salários médios de 45 mil euros brutos anuais, tanto em Lisboa como no Porto.

A fechar os primeiros três lugares da lista de profissões que remuneram melhor os recém-licenciados está novamente o sector farmacêutico, com um salário médio anual de 45 mil euros brutos para os gestores de produto. Um valor ligeiramente acima do praticado no Porto (€42 mil). Segundo Mário Rocha, esta é outra das áreas onde as competências comportamentais valem mais do que as técnicas. Os gestores de produto estão ligados à área do marketing farmacêutico e são o equivalente ao “CEO do produto”, o profissional que tem de assegurar a sua gestão eficaz e rentabilidade. O seu papel é envolver, estrategicamente, todas as áreas relacionadas com o produto: desenvolvimento, implementação, atendimento ao cliente, marketing e vendas. Também aqui a capacidade de comunicação, gestão de equipas e a orientação para resultados são fundamentais.

Tecnologia vale menos

O ranking de profissões que praticam melhores salários em início de carreira agrega funções em sectores como o imobiliário, logística, banca, marketing e vendas, turismo, contabilidade ou tecnologias de informação (TI). Mas os melhores salários talvez não estejam nos sectores mais óbvios. Um responsável comercial no sector imobiliário ganha em média €45 mil euros anuais em Lisboa e €42 mil no Porto, segundo a consultora. Valores que superam em muito os €32.900 auferidos em média por um arquiteto de soluções e infraestruturas, a profissão com melhor salário em início de carreira, no sector das TI.

E o comportamento dos salários no sector tecnológico é, na verdade, curioso. Esta é uma das áreas que regista maior défice de profissionais qualificados a nível nacional, com as empresas a apostarem na requalificação para responder às dificuldades de contratação. Mas se compararmos os salários de início de carreira praticados no sector em 2018 com os de há uma década (com base no relatório salarial da Hays para o ano de 2008), percebemos que um número significativo de profissionais do sector ganham hoje menos. Entre eles estão os business developers (com uma redução do salário anual médio na ordem dos 27,6%), engenheiros de pré-venda (menos 24,2%) ou gestores de contas na área de soluções e serviços (menos 22,4%).

Mário Rocha justifica estes ajustes salariais com o facto desta ser uma área “constantemente alvo de atualizações de mercado e onde há funções que se tornam rapidamente obsoletas, desvalorizando a cotação dos profissionais no mercado”. Mas esta pode não ser a principal razão para alguns dos profissionais das TI ganharem hoje menos do que há dez anos. “Hoje estes profissionais entram no mercado mais cedo, ainda estudantes, e as suas perspetivas remuneratórias são ajustadas a isso”, explica o especialista.

A análise comparativa dos salários praticados em Portugal em 2008 e 2018, para funções de início de carreira, mostra que os especialistas em trade marketing foram os mais penalizados, com reduções salariais de 35%, em Lisboa, e 26% no Porto. Logo a seguir estão os analistas de crédito que perderam 32,8% do seu salário em dez anos, apesar da banca ser o sector com maior número de profissões representadas no ranking das carreiras onde um licenciado entra no mercado a ganhar melhor.

O diretor da Hays confirma ajustes salariais em algumas carreiras, ocorridos sobretudo a partir de 2013, altura da crise, mas defende que em termos globais “não são ajustes expressivos”. Pelo contrário, o especialista em recrutamento acredita que já no próximo ano “é de esperar que o mercado produza atualizações salariais positivas nos patamares iniciais da carreira”. Mas são os profissionais em redor dos cinco a seis anos de experiência quem mais deve sentir o peso dos aumentos que poderão rondar, segundo Mário Rocha, os 15% a 20% já em 2019.