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Venda da Comporta marcada por ameaças, processos judiciais e conflitos de interesses

Herdade da Comporta está a atrair vários potenciais compradores

Foto João Carlos Santos

Consórcio da Oakvest com a Portugália acusa o de Paula Amorim com Claude Berda de transmitir “deturpações” e “falsidades” aos participantes do fundo da herdade. Louis-Albert de Broglie vem dizer que a sua proposta afinal é a mais alta. Tudo na semana em que os donos do fundo vão votar o futuro da Comporta - e que será esta sexta-feira de manhã

O consórcio da empresária Paula Amorim e do milionário francês Claude Berda, que está a disputar a compra da Herdade da Comporta, vai processar o consórcio concorrente da Oakvest e da Portugália por difamação, apurou o Expresso. Mas se pensa que a polémica em torno da propriedade da família Espírito Santo fica por aqui desengane-se. Do lado de Paula Amorim há um potencial conflito de interesses em torno da sociedade de advogados que trabalha com a empresária.

A sociedade Luiz Gomes e Associados não só está a trabalhar com o consórcio de Paula Amorim, que é um potencial comprador dos ativos imobiliários do fundo Herdade da Comporta, como também representa João Filipe Espírito Santo de Brito e Cunha, um dos participantes (e, de forma indireta, potencial vendedor) do mesmo fundo.

A 12 de julho, sabe o Expresso, a advogada Maria Mateus Pinto, da Luiz Gomes e Associados, questionou a Gesfimo (sociedade gestora do fundo imobiliário da Comporta), na qualidade de representante legal de João Brito e Cunha, sobre uma alegada indisponibilidade de documentos relativos ao processo de venda de ativos da Herdade da Comporta, dando disso conhecimento à Comissão do Mercado de Valores Mobiliários (CMVM). Na mesma data a Gesfimo, através do seu administrador Pedro Mello Breyner, assegurou ter disponibilizado a informação solicitada a todos os participantes do fundo, incluindo João Brito e Cunha.

O Expresso questionou esta quinta-feira por telefone e por email Maria Mateus Pinto, tendo ainda contactado André Luiz Gomes, a respeito do potencial conflito de interesses, mas não obteve resposta.

Certo é que o processo de venda da componente imobiliária e turística da Comporta ainda fará correr muita tinta. O desfecho da maior propriedade privada em Portugal vai depender em muito do que ficar decidido esta sexta-feira, 27 de julho. A assembleia dos participantes do fundo da Comporta vai reunir-se às 10h30, para votar a proposta que a Gesfimo considerou a melhor (a apresentada pela Oakvest, Portugália e Sabina Estates) e para analisar as outras duas propostas (uma de Paula Amorim e Claude Berda e outra de Louis-Albert de Broglie).

Independentemente do resultado da assembleia do fundo da Comporta, esta disputa irá chegar aos tribunais. José Cardoso Botelho, diretor-geral da Vanguard Properties (detida por Claude Berda), avançou ao Expresso que a empresa deverá avançar com um processo por difamação, depois de o consórcio da Oakvest, Portugália e Sabina Estate ter acusado Paula Amorim e Claude Berda de “falsidades”.

“Manifestamos o nosso maior desagrado pelos termos usados por aquele consórcio e reservamos o direito de vir a agir judicialmente. Oportunamente tomaremos as medidas necessárias para defender o nosso bom nome”, afirmou José Cardoso Botelho ao Expresso.

Consórcio de Paula Amorim apresenta garantias de 1,1 mil milhões de euros

Cardoso Botelho assegurou ainda ao Expresso que o consórcio de Paula Amorim e Claude Berda enviou esta quinta-feira à Gesfimo e aos participantes do fundo várias cartas de conforto da banca atestando a capacidade financeira do consórcio.

“Hoje mandámos emitir cartas de conforto de valor superior a 1,1 mil milhões de euros”, disse o gestor.

A Amorim Luxury apresentou uma carta de conforto da Caixa Geral de Depósitos atestando ter fundos de 500 milhões de euros e uma carta semelhante do BCP no valor de 100 milhões de euros.

Já Claude Berda apresentou uma carta de conforto do Crédit Agricole do Luxemburgo no valor de 350 milhões de euros e uma outra carta do Crédit Agricole da Suíça no montante de 160 milhões.

“Se eu não ganhar a Comporta, vão ter de me explicar porquê”, diz Louis-Albert de Broglie

O aristocrata francês Louis-Albert de Broglie, que esta segunda-feira enviou uma carta à Gesfimo enfatizando que o valor global da sua proposta não se ficava em €115 milhões, mas ascendia a €159 milhões tendo em conta as “componentes adicionais” - e passado assim a ter a oferta mais alta, com as dos concorrentes na casa dos €156 milhões - está disposto a bater-se pelo seu projeto na Comporta.

“Se a nossa oferta não for escolhida, vão ter de explicar porquê. A Gesfimo disse desde o início que ia escolher a oferta mais alta e nós temos a oferta mais alta”, frisou ao Expresso Louis-Albert de Broglie. “Se escolherem outra oferta que é menor em termos de contribuição em dinheiro, os participantes do fundo da Comporta têm de saber exatamente como é que o processo foi executado pela Gesfimo, como se chegou a essa escolha e como é que isso foi decidido”. E garante mesmo: “Eu vou questionar, sou um lutador e na vida temos de escolher as nossas batalhar. Vão ter de explicar, claro e alto, se a minha proposta não for aceite. E o público também tem o direito de saber”.

Na corrida à Comporta, Louis-Albert de Broglie tem como parceiros Comporta os grupos GAC (Global Asset Capital) e Bonmont. “Dizem que estou sozinho, o que não é verdade. Só trabalho com os melhores, e quero trazer grupos que trabalhem o turismo de baixa densidade”.

O seu plano de desenvolvimento para a Comporta assenta em criar centros de agricultura biológica, incubação de startups, conferências ou escolas, não tendo mais de 15% do imobiliário previsto pelo grupo Espírito Santo. “É um erro a Comporta ir na direção contrária ao que deve ser hoje o desenvolvimento sustentável, em benefício das pessoas e do território”, sustenta.

Porque é que a Comporta é tão disputada?

Não é por acaso que a maior propriedade privada em Portugal está a ser disputada de forma acesa por investidores neste processo de venda.

“A Comporta ainda é uma área intocada, tem três reservas naturais e em frente ao mar, é um 'hot spot', um sítio que não tem a biodiversidade destruída, e isso é raro no mundo”, salienta Louis-Albert de Broglie, que garante ter dezenas de investidores, entre os quais cadeias hoteleiras de topo, interessadas em entrar no seu projeto. “A Comporta também está a uma hora de Lisboa. Apesar de ainda não estar no mapa, já é um sítio bem conhecido no mundo por estas razões. Por isso, se fizermos algo errado será um desastre e toda a gente vai notar”.

O valor da Comporta aos olhos dos investidores é reiterado por Eduardo Abreu, 'partner' da Neoturis, consultora especializada em turismo.

“Estamos a falar de um projeto de grande dimensão e já licenciado, num destino com um enorme potencial de desenvolvimento e próximo de Lisboa. Dá resposta a tudo o que os investidores procuram, quer na componente hoteleira, imobiliária ou de golfe. E não há muitas oportunidades destas por essa Europa fora”, resume o consultor.

Frisando que a Comporta envolve “um negócio que tem várias fontes de receita ao longo do seu ciclo de vida”, e que “mexe com muita coisa, desde as construtoras aos bancos que querem financiar”, Eduardo Abreu salienta que tudo isto não é indiferente aos investidores.

“Portugal está no radar dos investidores internacionais, e a Comporta é um grande projeto de turismo imobiliário. Não se trata de construir um prédio, mas toda uma cidade”, conclui.