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Kenneth Rogoff: “No atual mundo de taxas de juro tão baixas, a Europa pode continuar a desenrascar-se”

Rogoff diz que o importante em Trump são as ações e não os tweets

reuters

O guru de Harvard e ex-economista-chefe do FMI avisa que a dívida elevada é um problema na zona euro e critica, sem papas na língua, Donald Trump

Há muito que Kenneth Rogoff é um reputado académico da Universidade de Harvard em Boston, nos EUA, mas tornou-se mundialmente famoso depois de ter sido economista-chefe do Fundo Monetário Internacional (FMI), entre 2001 e 2003, e, principalmente, depois de ter publicado, em coautoria com Carmen Reinhart, um artigo em 2010 onde avisava que, a partir de certo limiar de dívida pública, havia uma travagem brusca do crescimento. O número ‘mágico’ era 90% do PIB e, entre outras coisas, serviu a muitos governos para justificar políticas de austeridade.

O artigo inicial de Rogoff acabou por ser criticado em 2013 por economistas da Universidade do Massachusetts depois de terem detetado um erro no Excel que servia de base às conclusões. No entanto, Rogoff e Reinhart já haviam publicado um outro artigo com os dados corretos e mantiveram a conclusão de que, no longo prazo, quando a dívida pública é de 90% ou mais do PIB, o crescimento económico é inferior em 1 ponto percentual ao que seria possível se o rácio da dívida fosse inferior.

Em entrevista ao Expresso, que será publicada na íntegra na edição deste sábado do semanário, no âmbito da série de trabalhos sobre os 10 anos da crise financeira que serão publicados até setembro, Rogoff mostra alguma preocupação sobre a situação da zona euro e alerta que o risco de saída de países não está ultrapassado. Sobre o excessivo endividamento público dos países da moeda única, que no conjunto está atualmente em 84,2% do PIB, sublinha que “no atual mundo de taxas de juro tão baixas, a Europa pode continuar a desenrascar-se”.

Só que os juros vão subir um dia e, nessa altura, a pressão sobre os países – é o caso de Portugal, que tem das dívidas mais elevadas do euro – irá aumentar drasticamente. A subida das taxas de juro à escala global deverá penalizar de forma bastante acentuada algumas economias emergentes onde a pressão da subida as taxas se junta num perigoso cocktail com violentas oscilações cambiais.

Em relação aos EUA, o seu país, mostra-se preocupado com as políticas de Donald Trump, que considera o risco número um para a economia global. Mas, diz, o que importa é o que o Presidente faz - e não o que diz: “Os tweets não importam, mas as ações sim.”

O académico acredita ainda assim que o sistema político norte-americano servirá de travão a algumas das medidas mais radicais do Presidente mas, ainda assim, admite que pode sempre haver surpresas: “Há limites para o quanto o Presidente pode fazer sozinho sem a ajuda do Congresso, mas no ambiente político rude de hoje, eu não descartaria nada.”