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Como é que o Algarve quer responder à ofensiva da Turquia?

Filipe Farinha/Stills

João Fernandes, que esta sexta feira toma posse como presidente da Região de Turismo do Algarve, adianta os seus projetos para a região fazer face "à conjuntura adversa"

Tomar medidas para responder à concorrência acesa de destinos como a Turquia, e que está a afetar todos os destinos a sul da Europa e na bacia do Mediterrâneo, é um desafio que se coloca a João Fernandes, que vai tomar posse como presidente da Região de Turismo do Algarve (RTA) esta sexta-feira, 27 de julho, por um mandato de cinco anos. João Fernandes era anteriormente vice-presidente da RTA, e substitui neste cargo Desidério Silva.

"Sabíamos que mais cedo ou mais tarde a Turquia e a Tunísia iam reerguer-se, e que isso ia ter impactos no Algarve", refere João Fernandes. Mas aponta aqui a "resiliência evidenciada por um destino maduro como o Algarve, que tem tido a capacidade de fixar uma nova procura". E que "quando comparamos, por exemplo, com as Canárias, vemos que o Algarve tem tido aqui um desempenho melhor".

João Fernandes frisa que 2018 tem trazido ao Algarve "uma conjuntura externa adversa, com as incertezas do Brexit e as expectativas de consumo dos britânicos", a somar-se ao buraco deixado "pelas falências da Monarch, da Niki e da Air Berlin, que valiam 10% dos passageiros no aeroporto de Faro e que nos ligavam ao Reino Unido e à Alemanha".

Lembra que "também o anticiclone dos Açores nos pregou uma partida", trazendo mau tempo generalizado o que não é favorável a atraír turistas num destino de sol e mar, e a contribuír para "a situação atípica", este foi um ano em que se realizou o campeonato mundial de futebol, o que sempre mexe com a decisão de fazer viagens.

O novo responsável da região de turismo salienta que no acumulado do ano, de janeiro a maio, as dormidas dos estrangeiros no Algarve tiveram um decréscimo de 2,5% face ao período homólogo do ano passado, mas que os respetivos proveitos evidenciaram um crescimento de 5,7%, segundo os últimos dados do Instituto Nacional de Estatística (INE).

"O Algarve, apesar de tudo, cresceu em valor. E esse é o grande objetivo para este ano: continuar a crescer em valor, e não tanto em quantidade", avança o novo responsável da região de turismo.

Nuno Botelho

Trazer ao Algarve mais congressos, campeonatos desportivos ou atletas em estágio

Uma das apostas de João Fernandes vira-se para uma "nova procura, que já tem uma expressão significativa no Algarve", e apesar de "neste boom de procura aparecerem pessoas de todo o mundo", está a vir essencialmente dos mesmos mercados que tradicionalmente vêm ao Algarve. Ou seja, há novos ingleses, alemães ou holandeses a ir ao Algarve, e já não com o objetivo principal de ir para resorts junto à praia, mas para fazer caminhadas, passeios ou birdwatching.

"Constatamos que os nossos produtos associados a turismo de natureza, cultura, gastronomia ou vinhos claramente agradam a turistas que vêm dos mesmos mercados emissores, mas com outras motivações", refere o responsável.

O novo presidente da Região de Turismo do Algarve propõe-se aqui "dar continuidade, e com um trabalho de fundo alargando o leque de opções, a todos os produtos que envolvem a diversificação da oferta" além do sol e praia, o segmento que está a ser mais afetado pela concorrência de outros destinos como a Turquia.

Reforçar os congressos e eventos empresariais, além do chamado turismo desportivo - com particular ênfase no náutico - são outras apostas. "No inverno que passou, tivemos mais atletas olímpicos no Algarve a estagiar que o Rio de Janeiro. Tivemos cá a federação britânica, que é a maior do mundo em vela, e este ano já tivemos o campeonato mundial de vela em mar alto, que foi um evento fabuloso em Lagos, além do campeonato GC32 de catamarãs", exemplifica João Fernandes, defendendo que o "Algarve tem todas as condições favoráveis para atraír mais eventos desportivos".

Requalificar a oferta a nível de hotelaria, restauração ou outros serviços turísticos, com vista a "rejuvenescer a imagem do Algarve, que é um destino que está em concorrência e todos os anos tem de pensar na forma como se apresenta aos turistas", também está na mira do responsável da região de turismo.

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A torcer por um 'soft Brexit'

Os ingleses, que continuam a ser o principal mercado turístico do Algarve, estão na linha da frente das prioridades. "Não há dúvida que não é indiferente para o Algarve a forma como se dá a saída do Reino Unido da União Europeia, ou o impacto que irá ter na própria economia britânica", frisa o responsável da região de turismo.

"A minha expetativa é que venha a haver um soft Brexit", salienta. O que significa que "por exemplo não se coloque em causa a liberalização do espaço aéreo entre o Reino Unido e os restantes países da UE, que não se percam os acordos no sentido de não haver dupla tributação entre Portugal e o Reino Unido (para que um residente inglês ou um emigrante português em Inglaterra não pague impostos cá e lá), ou que à entrada, no aeroporto de Faro , os britânicos não sejam sujeitos às condições dos passageiros dos países da EFTA, nomeadamente a nível de passaportes", enumera.

O Algarve fechou 2017 com 19 milhões de dormidas, das quais cerca de 15 milhões asseguradas por estrangeiros. Mas como frisa João Fernandes, tratou-se de "uma procura que resultou de um ciclo anormalmente vantajoso".

Em 2018, são de esperar crescimentos no Algarve? "É natural que, com esta conjuntura, seja um ano mais de consolidação que de crescimento", considera João Fernandes, referindo que "com a incerteza que existe, não devemos tanto balizar metas quantitativas, mas trabalhar para que os resultados aconteçam".