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“O que Bragança está a fazer é transformar-se numa pérola”

Anselmo Crespo 
(TSF, à esq.) moderou um debate sobre os desafios da economia transmontana que contou com Jorge Moreira, José Amaral, Alexandrina Fernandes, Isabel Ferreira e Francisco Cary

Paulo Duarte

A cidade transmontana situada no centro de uma região que procura aproveitar melhor as suas potencialidades foi o palco do XVIII Encontro Fora da Caixa

Imagine a música na sua cabeça, concentre-se no ritmo e comece a cantar (de preferência sem assustar as pessoas que possam estar ao seu lado): “... de Bragança a Lisboa são nove horas de distância…” Se é verdade que o êxito dos Xutos & Pontapés gravou na consciência popular o tempo de viagem entre as duas cidades, certo é que hoje este já não corresponde à realidade. Seja em termos geográficos ou em termos de inovação, Bragança nunca esteve tão próximo de Lisboa (apesar de até estar mais próximo de Madrid, mas já lá vamos) e os empresários da região querem agarrar a oportunidade com as duas mãos. Foi pelo menos o que deixaram patente no mais recente Encontro Fora da Caixa. O ciclo de conferências da Caixa Geral de Depósitos — com o apoio do Expresso — que tem percorrido o país ao longo dos últimos dois anos para trazer à baila as histórias de sucesso e os desafios de cada região, assentou arraiais no Teatro Municipal de Bragança para a XVIII edição.

“É um território onde há muitas oportunidades. E é aí que temos que nos focar para ser persistentes e proativos”, afirmou a CEO do A. Montesinho Grupo, Alexandrina Fernandes. Com interesses no campo da agropecuária e do turismo, a empresa, tal como muitas da região, beneficiou com a construção de acessibilidades como o túnel do Marão, cuja conclusão finalmente permitiu diminuir a distância entre a cidade e muitas das suas congéneres nacionais. “O que Bragança está a fazer é transformar-se numa pérola. E isso só podemos saudar”, apontou o economista José Manuel Félix Ribeiro.

As “questões logísticas estão muito bem desenvolvidas”, garantiu Alexandrina, ao mesmo tempo que pediu uma maior aposta nas “questões transfronteiriças.” Com uma proximidade grande à cidade de Zamora e a uma das paragens do TGV que liga a Corunha a Madrid, os empresários são unânimes na importância da ligação ibérica, até pela dimensão do mercado que fica à disposição.

A capital espanhola está a cerca de 300 quilómetros e, segundo José Amaral, se o troço de 90 quilómetros que não é autoestrada for melhorado, os benefícios vão-se sentir rapidamente. Até como forma de diminuir o estereótipo do isolamento: “Estamos aqui perto de tudo. No meu sector não tenho sentido esta interioridade.” O CEO da Catraport vive em Itália mas escolheu Bragança para a principal fábrica do grupo — especializado no fabrico de componentes para o sector automóvel — precisamente por causa da proximidade com as grandes fábricas da Galiza e a qualidade “na formação” de que é possível beneficiar, sobretudo em comparação com as outras unidades na Bulgária e na Roménia, onde “há mais dificuldades”. Muitos dos seus quadros “são licenciados do Instituto Politécnico de Bragança”, instituição de ensino que esteve em destaque ao longo da tarde pelo trabalho de relevo que tem desenvolvido.

Entre os melhores
“Graças à nossa posição geográfica poderíamos estar condenados, mas hoje somos a instituição do país com maior percentagem de alunos estrangeiros” revelou à plateia Isabel Ferreira, diretora do Centro de Investigação Montanha. O Politécnico de Bragança viu esta semana um dos seus cursos, o de Tecnologia Alimentar, ser considerado um dos 50 melhores do mundo pelo Ranking de Xangai. A responsável vai mais longe: “O que nós aqui fazemos pode ser replicado e ter impacto internacional.” Ainda assim, o problema duplo da capacidade de atração e retenção de talento é um desafio constante e levou-a a afirmar que se é “absolutamente indiferente onde está localizada” a investigação, pois o que “faz a diferença são os recursos humanos”. Para aproveitar produtos como a castanha, por exemplo, em que a Sortegel foi pioneira na distribuição como congelada e a que o administrador Jorge Moreira se referiu como “o ouro de Trás-os-Montes.”

Serão pessoas que “não virão para um vínculo precário”, atirou Isabel Ferreira, ao mesmo tempo que em jeito de brincadeira lembrou que só “há duas coisas que movem as pessoas, o amor e o dinheiro”. Nesse campo, José Amaral espera “que o Governo esteja a pensar noutros incentivos que ajudem” a atrair pessoas para se fixarem e criarem valor acrescentado para a região. E é na resposta a esta necessidade que poderá estar a chave para o futuro através de políticas que chamem mais investidores. Sobretudo quando vivemos um “ambiente propício para o investimento e financiamento”, segundo Paulo Macedo. O presidente da Comissão Executiva da CGD falou de um país que “está no radar” e com boas perspetivas de investimento, falando mesmo de um estudo da EY que aponta Portugal como o país europeu “mais atrativo e referido por investidores” estrangeiros. Ainda assim, mesmo com “as taxas de juro historicamente mais baixas dos últimos dez anos”, o nível de aposta financeiro “ainda é baixo.”

Mas as perspetivas para Bragança e a zona onde se insere não podiam ser melhores. Assim também as pintou José Félix Ribeiro, que na sua intervenção destacou a aposta que a região está a fazer nos pontos fortes numa economia onde “todos competem no mundo para se afirmar.” Apesar de Portugal ainda ser “desigual relativamente aos sítios a partir dos quais coloca coisas no mundo”, Trás-os-Montes dá cada vez mais a cara.

Discurso Direto

“Os politécnicos têm papel fundamental 
na coesão territorial. Têm contribuído 
muito também para 
o desenvolvimento 
do país. Tudo se consegue com planos 
a longo prazo e aposta na sustentabilidade”
Isabel Ferreira
Diretora do Centro de Investigação Montanha do I. P. de Bragança



“Há um muito maior nível de diversificação, com procura de mais empresas. Temos hoje a economia a crescer e a confiança dos empresários tem melhorado e por isso tem aumentado a procura do crédito”
Francisco Cary 
Administrador-executivo da CGD


“Sou de uma terceira geração familiar ligada ao negócio, a paixão pelo território é que 
nos move. Apesar 
de todos os anticorpos nunca apeteceu 
fugir para o litoral”
Alexandrina Fernandes
CEO do A. Montesinho Grupo



“As reformas estruturais são precisas para fazer avanços incrementais em coisas que estão erradas. Foram feitas coisas suficientes para impedir a desertificação, a fuga das pessoas? 
É preciso falar disso”
Pedro Marques Lopes
Comentador do programa “Eixo do Mal”

A região com “resultados positivos” numa situação desigual

“Estamos numa situação de muita preocupação relativamente às assimetrias regionais”, começou por dizer António Jorge Nunes na sua intervenção. O vogal executivo do Programa Operacional Norte 2020 traçou um retrato da região de Trás-os-Montes enquadrado na realidade portuguesa para mostrar à audiência do Teatro Municipal de Bragança os grandes desafios que enfrenta. Região que “tem tido pessoas, empresas e instituições que têm apostado no futuro, que têm conseguido resultados positivos” numa situação de desigualdade e face a problemas endémicos, como o despovoamento. A perda de população, que nos últimos anos foi de 13,8%, é um dos principais problemas que esta zona do país enfrenta, com 53% do crescimento económico a estar relacionado com a saída de pessoas, o que é uma “razão negativa” para algo aparentemente positivo. Por outro lado, se até há poucos anos Trás-os-Montes praticamente “não contava” para o contexto regional das exportações, hoje já representa 4% do total da capacidade exportadora do Norte. Uma “mudança significativa” numa região que António recorda da infância como marcada por “pobreza, ausência de infraestruturas e muita emigração”. Agora a realidade mudou muito e, com ajuda de “políticas de incentivos fiscais à interioridade”, a transformação vai continuar pela mão dos transmontanos.