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Portugal depende do exterior para comer

Economia nacional tem um dos maiores défices da balança alimentar da Europa. Entre 2007 e 2017 melhorou, mas pouco. Passou de -€3878 milhões para -€3460 milhões. Há produtos, como os cereais, a carne ou o arroz, em que jamais seremos autossuficientes, mas nem tudo é mau. No azeite 
a produção já ultrapassou as necessidades de consumo, tal como no vinho

Imagine que, de um dia para o outro, deixava de comer bacalhau. Uma provação difícil de acomodar psicológica e fisicamente, pois não seria nada fácil acostumar o estômago à falta daquele velho e fiel amigo. A verdade é que, bastava Portugal não comprar bacalhau, que é totalmente importado, para que o fiel da balança alimentar portuguesa oscilasse mais de €500 milhões a favor da balança comercial portuguesa.

Mas isso não irá acontecer pois nunca iremos abdicar da companhia do nosso velho amigo, seja com grão, à lagareiro ou à Gomes de Sá. Por outro lado, poderemos facilmente dispensar uma parte da produção nacional de vinho, azeite, leite ou tomate pois, nestes produtos, já estamos num patamar de autossuficiência que nos permite não só consumir à vontade o que é nacional como ainda sobram quantidades para vendermos a outros países.

Em tom jocoso, o ministro da Agricultura, Capoulas Santos, diz mesmo que “é uma maçada termos de gastar €700 milhões na compra de cereais, todos os anos mas, como vendemos lá para fora mais ou menos o mesmo em vinho, uma coisa acaba por equilibrar a outra”.

Mas o equilíbrio é apenas parcial, pois, segundo dados apurados pelo Gabinete de Planeamento, Políticas e Administração Geral (GPP), do Ministério da Agricultura, entre 2007 e 2017 o défice da balança alimentar até melhorou, embora continue negativo: passou de €3878 milhões para €3460 milhões. De igual forma, o grau de autoaprovisionamento nacional evoluiu positivamente, mas não tanto como alguns analistas gostariam: de 82,8%, em 2007, para 85,9%, no ano passado (ver gráfico).

Não é fácil reduzir a dependência alimentar

“Com a crise houve uma pequena melhoria, pois houve uma contração no consumo e comprámos menos ao exterior. Agora, porém, já estamos a consumir mais, outra vez”, nota Eduardo Diniz, diretor do GPP. Ou seja, não é fácil reduzir o grau de dependência alimentar.

Aquele responsável sublinha mesmo que “o nosso défice alimentar é dos maiores da Europa”. Mas como prémio de consolação, segundo o ministro da Agricultura, é que “não há nenhum país com 100% de autossuficiência alimentar. O que há é alguns países — como França, Espanha ou Hungria — com superavits na sua balança comercial”. Sobretudo porque produzem mais do que ninguém em determinados bens, como cereais.

Aliás, a Europa, no seu todo, tem um saldo alimentar positivo de €11 mil milhões, o que significa que vende mais do que compra.

Agora, com a inevitabilidade estatística (ou fisiológica) de comer de três em três horas — num país que produz ‘um pouco’ de quase tudo mas que, na verdade, só é excedentário em azeite, vinho, leite e hortícolas — é quase impossível, mesmo sem querer, acabar a consumir produtos das mais variadas origens. É que, embora possa afetar a balança comercial, não deixa de ser positivo para os consumidores poderem optar — em quantidade e qualidade — de uma oferta mais alargada de produtos.

Eduardo Oliveira e Sousa, presidente da Confederação dos Agricultores de Portugal (CAP), considera que Portugal até está no bom caminho e que o sector até está a produzir mais, tanto para consumo interno como para as exportações, “mas os nossos padrões de consumo atuais não se adaptam à produção que temos. Na fileira agroflorestal até temos um balanço positivo, mas no sector agrícola, por si só, não acredito que alguma vez possamos vir a atingir o autoaprovisionamento total”.

Falta um pacto de regime para o uso da água

O dirigente da CAP acredita, porém, que é possível crescer sobretudo ao nível das culturas de estufa, e em especial no segmento dos frutos vermelhos, onde Portugal está cada vez mais competitivo a nível europeu. Mas “há uma lacuna em termos de política agrícola: a gestão do recurso ‘água’. Precisamos urgentemente de um pacto de regime, que envolva todos os partidos em matéria de captação, armazenamento e utilização da água na agricultura”.