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FMI avisou G20 que guerra comercial vai travar o crescimento

O Fundo Monetário Internacional apresentou este fim de semana na cimeira de Buenos Aires o impacto negativo de quatro cenários de tensões comerciais. O mais pessimista significa uma travagem clara da expansão em curso. O comunicado final da reunião dos ministros das Finanças e dos banqueiros centrais apela ao “diálogo”

Jorge Nascimento Rodrigues

As tensões comerciais globais, fruto da vaga de taxas aduaneiras lançada pela Administração Trump e da espiral de retaliações, vai provocar uma travagem da atual expansão económica já a partir do próximo ano, segundo a simulação apresentada pelo Fundo Monetário Internacional (FMI) para a reunião de ministros das Finanças e governadores e presidentes dos bancos centrais do G20 realizada em Buenos Aires este fim de semana.

Para esta reunião, o FMI preparou um documento sobre a situação económica mundial onde deixava o alarme de que os riscos cresceram mesmo no curto prazo. “O cenário de mudança do risco reflete uma combinação de antigos e novos riscos, alguns dos quais já se materializaram – tensões comerciais mais disruptivas e reversões nos fluxos de capital”, referia o FMI, para acrescentar que uma “escalada para níveis mais sistémicos é possível na ausência de políticas adequadas e de cooperação política”.

Para melhor sensibilizar os participantes do G20, a organização dirigida por Christine Lagarde apresentou com detalhe uma simulação dos impactos negativos de quatro cenários ligados ao processo de guerra comercial em curso, mas ainda não incluindo a avaliação dos efeitos das últimas ameaças de Donald Trump avançadas esta semana nas vésperas da reunião ministerial do G20.

O cenário mais pessimista, em que as medidas protecionistas norte-americanas e a retaliação por parte dos atingidos se conjugam com uma perda de confiança global por parte dos investidores, levaria a uma travagem clara na expansão económica mundial, com um abrandamento ainda mais acentuado nos próximos cinco anos do que o já projetado pelo FMI na atualização recente que fez das suas previsões.

A reunião aprovou um comunicado em que os representantes do G20 “reconhecem a necessidade de intensificar o diálogo e as ações para mitigar os riscos e fortalecer a confiança”.

A caminho de um crescimento “medíocre” no final do quinquénio

No caso do cenário mais pessimista, de perda global de confiança dos agentes económicos, o impacto negativo na taxa de crescimento mundial implicaria uma redução de 0,4% no primeiro ano do efeito, subiria para 0,5% no segundo ano, e depois reduzir-se-ia até 0,2% no quinto ano da projeção. O que coincide com a previsão anunciada na semana passada de que em 2020 o efeito negativo das tensões comerciais provocaria uma redução de 0,5%. O que significaria que, em vez de uma taxa de crescimento de 3,8%, esta se reduziria em 2020 para 3,3% já muito perto da taxa de 3,2% registada em 2016 e considerada, então, por Lagarde como “medíocre”.

O FMI, na atualização de previsões publicada na semana passada, já apontava para um abrandamento do crescimento mundial a partir de um “planalto” de 3,9% em 2018 e 2019, caindo para 3,7% em 2022 e 2023. Caso se materialize o cenário mais pessimista apontado pelo FMI, a taxa de crescimento poderá cair para 3,4%-3,5% no final do quinquénio.

Recorde-se que estes cenários não incluem ainda os efeitos de uma extensão do protecionismo norte-americano a todas as importações vindas da China, depois do presidente Trump se ter declarado “pronto” para avançar no sentido de taxar 500 mil milhões de dólares numa entrevista à CNBC, e da abertura de uma potencial nova frente de conflito, agora no mercado cambial, na sequência de um tweet de sexta-feira do presidente norte-americano acusando a China e a União Europeia de manipulação das suas moedas e das taxas de juro dos bancos centrais.

O secretário do Tesouro norte-americano Steven Mnuchin, presente o G20 em Buenos Aires, perguntado se os investidores deveriam estar preocupados com o cenário de guerras de divisas, respondeu que "não", mas recusou-se a elaborar sobre o tema.

  • Países do G20 alertam para ameaça das tensões comerciais no crescimento mundial

    Participantes na reunião em Buenos Aires que juntou os 20 países mais industrializados do mundo reconheceram também a necessidade de “reforçar o diálogo e as ações para limitar os riscos, e reforçar a confiança” nas economias dos países. França fez um apelo direto aos EUA, pedindo-lhes que deixem a “lei da selva” e respeitem as regras do multilateralismo