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A corrida pela Comporta

A área da Herdade da Comporta que está prestes a ser vendida ultrapassa os 1300 hectares

João Carlos Santos

A Herdade da Comporta, a histórica propriedade da família Espírito Santo, vai ser vendida. É disputada por milionários franceses, pela mulher mais rica do país, por um controverso empresário britânico e pela discreta família que controla os restaurantes Portugália. À venda está um território equivalente a quase um terço do município do Porto. Para lá se promete luxo. A decisão final será conhecida na próxima sexta-feira

“É 
como a história da cigarra e da formiga. Temos que acumular no verão para compensar o inverno!” Jéssica António, 25 anos, é a terceira geração à frente do restaurante O Gervásio, um espaço discreto de cozinha portuguesa na pequena povoação de Brejos da Carregueira de Baixo, a umas centenas de metros da Estrada Nacional 261. Perdido, e encontrado, a sul da praia da Comporta, o restaurante recebe portugueses e estrangeiros, sobretudo espanhóis. Vão lá almoçar, petiscar e jantar os fregueses da terra mas também os novos e endinheirados clientes que fizeram da Comporta uma segunda casa.

Perto das dunas e dos arrozais, os terrenos da Comporta estão salpicados por moradias de acesso reservado, com acessos de terra batida, às quais se juntarão nos próximos anos novos empreendimentos. Entre eles os que o Grupo Espírito Santo (GES) não chegou a construir nos terrenos a perder de vista da Herdade da Comporta. A área que está prestes a ser vendida ultrapassa os 1300 hectares. É o equivalente a duas vezes e meia a área do Parque das Nações, em Lisboa. É quase um terço do município do Porto. E é um território apetecível. Christian Louboutin, Madonna, Harrison Ford e Carla Bruni estão entre os estrangeiros que já se apaixonaram pela Comporta.

A herdade que a família Espírito Santo aí tem começou por ser, ainda no século XIX, propriedade da Coroa Portuguesa, quando revelou potencial para a exploração de arroz. Em 1925 a Atlantic Company adquire a propriedade e em 1955 entrega-a à família Espírito Santo, que duas décadas mais tarde, em 1975, a vê nacionalizada. Entre 1989 e 1991 os Espírito Santo recuperam o controlo da Herdade da Comporta e dos seus 12.500 hectares. Mas o colapso do GES, em 2014, precipita a necessidade de vender os anéis.

Este é um dossiê delicado. “Sobre a herdade não falo”, aponta Jéssica António. Fala, sim, da conjuntura, do contexto desafiante da Comporta. “Tem que se apostar também nos jovens da terra. Mas quem não quiser trabalhar no turismo e na agricultura tem que sair daqui... Não há pessoas suficientes para trabalhar na restauração”, desabafa a jovem gerente do restaurante familiar de Brejos da Carregueira de Baixo.

Jéssica garante que os empreendimentos turísticos de luxo que são projetados para a Comporta não irão mudar o perfil do negócio da sua família. “O nosso restaurante é muito simples. E vai continuar”, afirma. Mas o futuro que se perspetiva para a Herdade da Comporta é um desenvolvimento turístico de padrão elevado. As propostas de compra dos ativos imobiliários da herdade já são conhecidas. Em cima da mesa estão três projetos. E um forte apetite pelos terrenos do que restou do GES, que começa a ganhar contornos novelescos.

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