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Mira Amaral acusa Governo de repetir “erro de Passos” nas ligações ferroviárias

Mira durante audição da comissão parlamentar de inquérito ao BPN

João Relvas/Lusa

“Daqui a 20 anos, quando olharmos para o mapa ferroviário europeu, temos a Espanha ligada ao centro da Europa por bitola europeia, e nós estaremos aqui periféricos com a bitola Ibérica”, afirmou o ex-ministro da Indústria

O presidente do Conselho da Indústria, Mira Amaral, acusou nesta quinta-feira o Governo de persistir no erro de Passos Coelho de não avançar com uma rede ferroviária de bitola europeia, que favoreça as exportações.

Mira Amaral, que participava numa conferência sobre a ligação Aveiro/Salamanca, lamentou "o erro" do governo de Passos Coelho de ter desistido da linha Poceirão/Caia em bitola europeia, não honrando os compromissos com Espanha, que foi avançando com a sua rede de bitola europeia, mas desistiu de a fazer chegar à fronteira, devido ao desinteresse português. Em vez disso, optou por criar os portos secos de Vigo, Salamanca e Badajoz, onde as mercadorias portuguesas a transportar terão de passar da bitola ibérica para a europeia, aumentando os custos de transação.

Nas palavras de Mira Amaral, esse erro "não é de agora, já vem do tempo de Passos Coelho e, nesta matéria, o tempo novo desta solução política é igual ao tempo velho da solução anterior" e vai ser pago no futuro. "Daqui a 20 anos, quando olharmos para o mapa ferroviário europeu, temos a Espanha ligada ao centro da Europa por bitola europeia, e nós estaremos aqui periféricos com a bitola Ibérica. Nessa altura eu pergunto se há Investimento estrangeiro que venha para Portugal", questionou.

Mira Amaral considera que a "posição oficial evoluiu agora para a adaptação das linhas de bitola Ibérica a bitola europeia em momento oportuno", instalando nas atuais linhas travessas que permitiriam depois a instalação dos carris de bitola europeia.

Outro erro, para Mira Amaral, que classifica tal solução como sendo "o programa de ferrovia para 1900", pretendendo aproveitar linhas do século XIX "com elevados pendentes e traçados obsoletos". "Vamos gastar volumosos recursos financeiros para fazer remendos e já vimos o que aconteceu com tal solução na linha do Norte, em que temos um Alfa que devia fazer duas horas Lisboa/Porto e demoramos três horas porque já se gastaram milhões e não temos uma linha decente", criticou.

No que respeita à ligação ferroviária de Aveiro a Salamanca, que serviu de tema à conferência, Mira Amaral defendeu a construção de uma nova linha de via dupla em bitola europeia. "A linha a Sul vai servir fundamentalmente para a circulação da carga que é posta em Sines, Setúbal e Barreiro, e não para escoar as exportações do Centro e Norte do país, onde têm origem dois terços das exportações portuguesas, das quais cerca de 70% são enviadas para os mercados europeus, maioritariamente por rodovia e pela A25", concluiu.

“Última oportunidade para suprir as fragilidades competitivas”, afirma a CIP

Numa nota de imprensa divulgada esta tarde, a Confederação Empresarial de Portugal (CIP) considerou indispensável para o futuro da competitividade da economia nacional que os decisores políticos não repitam os erros de planeamento do passado, nomeadamente ao nível das infraestruturas de transporte.

A confederação considerou que o Programa Nacional de Investimentos 2030, lançado pelo Governo em junho, "constitui provavelmente a última oportunidade do país para suprir as enormes fragilidades competitivas da ferrovia nacional".

Para a CIP, os planos inscritos no Ferrovia 2020 e o recente anúncio do lançamento de concurso para a modernização da Linha da Beira Alta, entre Cerdeira e Guarda, com um valor de 11 milhões de euros, "constituem um sinal alarmante do autismo do Governo em relação às necessidades futuras do país".

No entendimento do Conselho da Indústria da CIP, o investimento previsto para a modernização da Linha da Beira Alta, não a vai tornar operacional do ponto de vista da competitividade exigida para o transporte de mercadorias, nomeadamente porque o troço é desadequado, com inclinações elevadas e curvas apertadas que limitam a velocidade máxima de comboios com 750 metros.

O Conselho da Indústria da CIP recomendou que se desenvolvam desde já os projetos das linhas férreas internacionais em bi-bitola, sem esquecer a adaptação dos respetivos traçados, desenvolvendo-os o mais possível para maximizar as probabilidades de sucesso a novas candidaturas a Fundos da União Europeia. "É ainda essencial que o Governo não ignore a opinião de grande parte dos agentes económicos exportadores nacionais", concluiu.