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FMI não dá alívio a Portugal

Marcos Borga

O governo de Costa e Centeno não se pode desviar da consolidação orçamental, deve criar almofadas financeiras, e tem de dar atenção à especulação imobiliária em algumas regiões do país, refere o relatório do Fundo Monetário Internacional sobre a zona euro publicado esta quinta-feira

Jorge Nascimento Rodrigues

Portugal vai ter de manter a consolidação orçamental e dar atenção a sinais de excessos em alguns sectores, como, por exemplo, o do imobiliário em algumas regiões do país, aconselha o Fundo Monetário Internacional (FMI), no seu relatório sobre a zona euro, ao abrigo do Artigo IV, publicado esta quinta-feira.

Os riscos globais para a zona euro são crescentes e vão coincidir com um período de saída gradual do Banco Central Europeu (BCE) da sua intervenção extraordinária no mercado, o que vai tornar as economias periféricas do euro cada vez mais dependentes do seu esforço próprio.

Esforço tanto maior quanto os periféricos enfrentam a resistência das economias do centro com folga orçamental e com excedentes externos elevados, como a Alemanha e a Holanda, a desempenharem um papel de impulso orçamental na região.

Resposta está de pernas para o ar

A resposta na zona euro a este horizonte próximo de riscos está de pernas para o ar. Vai haver uma expansão orçamental em 2018 a nível agregado, dos 19 membros, mas os países que deveriam ser os motores desse impulso não o estão a fazer, e os que deveriam ser cautelosos estão a abrir os cordões à bolsa. “A distribuição dos impulsos [orçamentais] nacionais difere diametralmente daquela aconselhada pela equipa [do FMI]: os países com amplo espaço orçamental e excedentes externos estão a seguir políticas orçamentais mais rígidas do que as aconselhadas, enquanto a maioria dos países com dívida elevada estão a adiar os ajustamentos, ou mesmo contemplam expansões orçamentais, à medida que o crescimento se consolida”.

No caso dos endividados que estão a seguir um caminho desadequado, o relatório aponta Espanha, Itália e Portugal, com o FMI a acusá-los de “fazerem ajustamentos pequenos ou de quase nada este ano” e , no caso de Roma, alertando que “o novo governo favorece medidas orçamentais e de gastos que, se implementadas integralmente, proporcionariam uma expansão [orçamental] em desacordo com a sustentabilidade da dívida [italiana]”.

Comissão Europeia está a relaxar a vigilância

O FMI critica inclusive a Comissão Europeia por ‘abrandar’ na vigilância. “Em contraste com anos anteriores, as recomendações específicas para 2018 para cada país por da parte da União Europeia não apontam o esforço orçamental exigido que seria coerente com o Pacto de Estabilidade e Crescimento (PEC)”. Além disso, a Comissão tenciona utilizar uma “margem de discricionariedade ” que prejudica a própria credibilidade do PEC, diz o relatório.

Os países com dívida elevada – como é o caso de Portugal - têm de criar, agora, no tempo de algumas vacas gordas, almofadas financeiras e devem evitar reversões de políticas. As economias com excedentes externos elevados, acima do adequado, como Alemanha e Holanda, têm de fazer mais investimento direcionado e incentivar o crescimento mais rápido dos salários. Têm de deitar fora a “cautela excessiva” que têm manifestado, recomenda o FMI.

Tudo pode voltar a um filme conhecido. “Se a normalização da política monetária coincidir com a perceção de que países vulneráveis não estão a fazer o suficiente para lidar com os problemas subjacentes, ou se, de facto, pretendem reverter reformas ou implementar políticas que prejudiquem a sustentabilidade da dívida, os prémios de risco poderão, de novo, subir abruptamente com possíveis efeitos de contágio, impondo perdas de valorização aos investidores em toda a zona do euro”, alerta o documento. O que teria um impacto negativo no crescimento e “poderia forçar a ajustamentos orçamentais acentuados, tornando a situação ainda pior”.

Há, ainda um outro risco referido pelo relatório do FMI. Podem estar a emergir vulnerabilidades financeiras localizadas: “Por exemplo, no Luxemburgo, em algumas cidades alemãs e em algumas áreas de Portugal e da Holanda há desequilíbrios entre a procura e a oferta que estão a gerar um disparo na valorização dos preços dos imóveis para habitação e comércio”.