Siga-nos

Perfil

Economia

Economia

FMI afasta crise e acredita numa “aterragem suave” na Zona Euro

FABRICE COFFRINI/GETTY

A economia da moeda única vai desacelerar nos próximos cinco anos caminhando para uma taxa de crescimento “sem brilho” perto de 1,5%, segundo o relatório do Fundo Monetário Internacional publicado esta quinta-feira. Mas a equipa de Lagarde ainda não vaticina uma crise

Jorge Nascimento Rodrigues

O crescimento económico na zona euro deve ter tido um pico em 2017 com uma taxa de crescimento de 2,4% e já entrou num plano de desaceleração, a caminho de uma taxa “sem brilho”, em torno de 1,5%, avisa o Fundo Monetário Internacional (FMI) no relatório sobre a área da moeda única publicado esta quinta-feira em Washington. Mas o Fundo dirigido por Christine Lagarde ainda acredita que “há boas razões para esperar uma aterragem suave” da economia do euro e não uma crise no horizonte até 2023.

Ainda que o FMI evite classificar de medíocre – uma palavra muito usada por Lagarde ainda há dois anos atrás - um crescimento de 1,5% na zona euro, alerta que essa fraca dinâmica será o “normal” na zona euro. Precisamente tendo em conta os sinais claros de abrandamento, o FMI reviu em baixa na semana passada as suas previsões para a zona euro na atualização que publicou do World Economic Outlook, a sua bíblia de projeções e recomendações de política à escala global. O crescimento foi cortado de 2,4% ara 2,2% em 2018 e de 2% para 1,9% em 2019.

Este relatório do Fundo elaborado ao abrigo do Artigo IV da organização, traz, por isso, boas e más notícias para Portugal cujos principais destinos de exportação se encontram nos seus parceiros da moeda única.

Por um lado, o crescimento no espaço do euro vai continuar, mesmo que “sem brilho”, não se prevendo uma aterragem forçada com muito estresse e estragos. Mas, por outro, vai abrandar claramente depois de 2020 para uma taxa anual quase 1 ponto percentual abaixo da registada em 2017, uma dinâmica que o FMI tende a considerar como o “normal” no futuro em flagrante contraste com o período antes da crise.

Herança da crise com alto risco de não ser resolvida

Esse novo “normal” do crescimento da zona euro é devido a constrangimentos estruturais (como as mudanças demográficas e o fraco crescimento da produtividade) e à permanência de várias heranças das duas recessões havidas na zona euro (em 2009 e depois em 2012 e 2013) e das sequelas da crise das dívidas soberanas desde 2010.

O que o FMI designa por “heranças da crise” na zona euro abrange um rol de problemas que perduram e onde Portugal surge mencionado em temas críticos como crédito malparado, exposição da banca à divida pública e rácio da dívida pública em relação ao PIB.

Para o FMI as heranças são várias: desemprego jovem acima de 20% em vários países membros; crédito malparado acima de 15% na Grécia (mais de 40%), Chipre (mais de 30%), Itália e Portugal; exposição do sector bancário nacional à dívida do país acima de 60% em casos como Alemanha, Espanha, Portugal, França, Itália e Irlanda, por ordem decrescente do peso; crescimento dos salários abaixo de 2% ao ano desde o auge da austeridade; inflação anual que só estabilizará em 2% (a meta do Banco Central Europeu) daqui a três anos, permanecendo abaixo até lá; e desequilíbrios gritantes que permanecem com países com dívida acima de 90% do PIB (entre eles Portugal) e outros (como a Alemanha e a Holanda) que persistem em manter excedentes externos excessivos acima de 8% do PIB, totalmente desadequados segundo o Fundo.

Na matriz de riscos que publica no final do relatório, o FMI acha que há uma alta probabilidade da zona euro falhar na resolução desta herança.

Mas, apesar de tudo, os técnicos do Fundo ainda acreditam em um cenário “suave” pois acham que ainda há margem para um aumento do consumo e do investimento na zona euro, alimentado, por um lado, por uma subida dos salários e aumento de emprego, e, por outro, pela continuação “por mais algum tempo” da política de estímulos do Banco Central Europeu, que o FMI considera “vital”.

Muitos riscos “sérios” que podem tornar a aterragem forçada

Mas a “suavidade” pode esfumar-se. O FMI alerta para “uma série de riscos globais e nacionais que pairam sobre o horizonte” e que se tornaram “particularmente sérios neste momento”. E não são dois ou três só, enchem mesmo um menu variado.

A nível global, o risco óbvio é o protecionismo. O FMI aponta-o claramente: “As incertezas em torno da política comercial dos EUA e as tensões entre os grandes atores globais correm o risco de enfraquecer o sistema de negociação”. O que pode “desencadear uma guerra comercial, perturbar o comercio transfronteiriço e prejudicar a recuperação”. No entanto, na matriz de riscos, considera-o, por enquanto, com uma probabilidade média. Com probabilidade elevada está o risco de crises geopolíticas (ainda que não entre em detalhe).

No plano da União Europeia, o risco vem do Brexit, que poderá implicar um impacto de longo prazo no crescimento dos países membros entre 0,8% e 1,5%, dependendo se o divórcio termina num acordo de comércio livre ou se a saída é “disruptiva”. Varia, também, em função de um “índice de exposição ao Brexit” por parte dos 27 que o FMI criou.

A nível político dentro do espaço do euro, há o risco de “choques políticos” que têm “uma propensão contínua para perturbar os mercados financeiros”, de que o caso recente de Itália vem logo à memória, com a crise de final de maio e início de junho.

Para além destes choques, há, ainda, o que o FMI chama de “inação política” dos governos da zona euro e entidades europeias sobretudo tendo pela frente um período em que o BCE vai normalizar, ainda que gradualmente, a política monetária. Mario Draghi e depois o seu sucessor ao leme do BCE a partir do final do próximo ano vão descontinuar os estímulos. Pelo que, com a redução da intervenção do BCE no mercado, as economias mais frágeis, como Portugal, contam cada vez mais com o seu esforço próprio de controlo das contas, criação de almofadas financeiras, e vigilância prudencial em relação a excessos.

A governação da zona euro, também, tem de dar passos mais rápidos. O FMI elogia a decisão em criar no Mecanismo Europeu de Estabilidade linhas de crédito a que o Fundo Único de Resolução bancária possa recorrer em caso de emergência. E incentiva a que se aprove o mecanismo de garantia europeia de depósitos. O relatório indica que a cúpula do FMI se inclina para achar boa ideia uma solução orçamental central. “Muitos diretores [do FMI] veem mérito em que se desenvolva ao longo do tempo uma capacidade orçamental central”, desde que se salvaguardem o mau hábito de transferências permanentes e o chamado risco moral, de manifesto abuso por parte de alguns países membros.