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29% do PIB está no Norte

Duzentos empresários do Norte juntaram-se em Braga para conhecer os primeiros nomes da seleção “Os Nossos Campeões” e participar numa emissão especial da SIC dedicada ao projeto

Paulo Duarte

Seleção: Braga recebeu o primeiro summit de “Os Nossos Campeões”, projeto que junta Novo Banco, SIC Notícias e Expresso. E não faltam campeões em Portugal. A cidade que acolheu o evento no Norte, Braga, criou 8 mil novos postos de trabalho em quatro anos e, em 2017, tornou-se o terceiro maior exportador nacional, com €2 mil milhões. É um caso paradigmático numa zona do país que faz por estar no pelotão da frente. De acordo com a Comissão de Coordenação e Desenvolvimento Regional do Norte, a região representa 29% do PIB, e as suas empresas têm um volume de negócio de €85 mil milhões, diz a Informa DB. E foi do Norte que saíram os primeiros nomes das novas estrelas que se distinguem nas mais variadas áreas e que foram selecionadas para titulares deste projeto

Um homem de fé que aposta na cultura dos funcionários, a enóloga que trabalha para revolucionar a produção vinícola na mais antiga região demarcada do mundo, o campeão de canoagem que extravasa como nunca as fronteiras de Portugal, o funcionário de limpeza que se tornou dono do maior grupo português de calçado e o gestor do quarto maior exportador nacional que aprendeu com o pai a nunca deixar uma tarefa a meio. São os primeiros cinco de dez escolhidos de “Os Nossos Campeões”, projeto para dar a conhecer os nomes que, a partir das mais diversas áreas, trabalham para colocar o país na dianteira, sem esquecer as regiões onde estão baseados. A primeira seleção incidiu sobre o Norte, região que concentra cerca de 35,5% das exportações do país, a partir de mais de 106 mil empresas, com um volume de negócios a rondar os €85 mil milhões, de acordo com dados fornecidos pela Informa DB. Está por direito próprio entre as zonas empresarialmente mais ativas, sem esquecer o seu contributo para domínios como as artes ou o desporto. Dinamismo que se estende ao resto do país e que o projeto vai procurar dar a conhecer com a escolha de mais personalidades de diferentes regiões. Conheça os primeiros cinco perfis dos “Nossos Campeões”.

JOSÉ TEIXEIRA

O CEO da DST não tem dúvidas quanto à primeira recordação que mudou a sua vida: “A carrinha cinzenta da Gulbenkian que distribuía livros” pela sua terra natal. E que despertou uma paixão que tem como um dos pilares a compra e distribuição “por ano de cerca de 9000 livros a trabalhadores e alunos”. Faz parte do ethos do grupo bracarense, empresa líder no ramo das obras públicas e construção civil, que define como um local de “inquietação cultural permanente onde todos entendem a importância da cultura na economia”. Daí a aposta em parcerias com instituições culturais da zona para beneficiar os trabalhadores e colaboradores, assim como um programa de mecenato de apoio às artes plásticas. O engenheiro fala também da inovação como algo essencial e não esconde o orgulho por ser presidente do Conselho Estratégico da Universidade do Minho, onde o grupo é responsável por uma cátedra que pretende precisamente aproximar essa realidade do mundo empresarial. Por isso defende que “as empresas do Norte devem tirar mais partido das suas universidades e dos seus politécnicos”, quase como forma de “comprar ciência”.

Ao longo destes anos procurou “construir uma imagem empresarial culta, cosmopolita e cool” que se refletisse nos valores de uma empresa e de uma região com muito para dar. Aos 10 anos teve o primeiro emprego fora da família, numa pequena marcenaria que hoje pertence ao grupo que lidera. Cresceu como “produto do trabalho infantil” e tornou-se um “adepto praticante da mobilidade e do elevador social”. Sempre apegado à terra que o viu nascer e ao rio por onde costumava passar. Hoje passa por sua casa como “homem de fé”. Mandou construir umas Alminhas, onde todos os dias reza “pela alma dos trabalhadores que faleceram, pela dos pais, dos vizinhos e dos que mais precisam”.

OLGA MARTINS

“Provavelmente tive de trabalhar mais e provar mais o meu valor do que se fosse um homem, Mas sinceramente nunca pensei muito nisso nem senti que me tivesse travado.” É assim que Olga Martins olha para a história de sucesso com menos de duas décadas (“que no nosso negócio é mesmo muito pouco”, faz questão de lembrar) da Lavradores de Feitoria, empresa que resultou da união de 15 lavradores, proprietários de 18 quintas da região demarcada de Douro. Licenciada em Engenharia Química pela Universidade de Aveiro, a paixão pela produção vinícola falou mais alto quando decidiu especializar-se em Enologia pela Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro. E partiu para a génese de um projeto que já lhe valeu a distinção do grau de oficial da Ordem do Mérito Empresarial, Classe do Mérito Agrícola, por parte da Presidência da República.

“Uma empresa criada de raiz, com um conceito absolutamente único e inovador”, atira, “que agrega pessoas de diferentes origens e trabalha para um bem comum”, o de criar condições para valorizar um produto que marca indelevelmente toda a região. Percurso onde Olga se sente sempre acompanhada pelo marido, “um dos mais brilhantes enólogos” que conhece e com uma “ética pessoal e profissional” que ainda não encontrou “em mais ninguém”. Sem esquecer a filha, a quem procura ensinar “que o trabalho e as capacidades de cada um podem e devem ser o único factor a determinar o seu sucesso profissional”. Lição de de uma carreira de trabalho onde aprendeu que “com dedicação todos os sonhos se podem conquistar”.

Os convidados participaram num jantar com António Ramalho, presidente executivo do Novo Banco e um dos promotores desta iniciativa

Os convidados participaram num jantar com António Ramalho, presidente executivo do Novo Banco e um dos promotores desta iniciativa

Paulo Duarte

FERNANDO PIMENTA

De Ponte de Lima para o mundo. Mais precisamente para campeão e vice-campeão do mundo, títulos que o limiano Fernando Pimenta ostenta nas categorias K1 5000 e K1 1000 da canoagem, respetivamente. Medalhas conquistadas em 2017 e que se juntam a uma coleção ímpar na história da modalidade em Portugal, que também inclui, por exemplo, uma medalha de prata em k2 100 nos Jogos Olímpicos de Londres (obtida em conjunto com Emanuel Silva).

“Orgulho-me de conseguir fazer aquilo de que gosto, de representar Portugal ao mais alto nível e da pessoa que me tornei”, confessa, ao mesmo tempo que recorda alguns momentos complicados, como as lesões que o afligiram ou o ter de “abdicar de competir no campeonato do mundo devido a problemas com a federação”. Situações que geraram “dúvidas” quanto às suas capacidades, de pessoas que pensava acreditarem em si, o que só serviu para o dotar de ainda mais força para fazer frente às adversidades e redobrar a vontade de vencer.

E como o tem feito. Ao todo, o agora atleta do Benfica — após 18 anos passados no Clube Náutico de Ponte de Lima — acumula 70 pódios ao longo da carreira, o que já lhe valeu a elevação a grande oficial da Ordem do Mérito. Percurso vencedor do qual é indissociável o papel de Hélio Lucas, o treinador de sempre e que continua a apurar e a moldar o talento do atleta. Que não esquece a infância passada com os avós no campo, que o ajudaram a crescer e “a aprender que se realmente queremos alguma coisa grande temos de trabalhar muito para a conseguir”.

Não admira por isso que entre as suas grandes inspirações esteja a família e a ligação a uma região “única” que ainda pode ser “mais aproveitada, desenvolvida e explorada”. Tudo a fazer força para o próximo grande objetivo, os Jogos Olímpicos de Tóquio, em 2020.

FORTUNATO FREDERICO

Começou por varrer o chão de uma fábrica de calçado quando tinha 14 anos. Hoje com 75, é dono do maior fabricante português de calçado, a Kyaia, e responsável por uma das marcas portuguesas com maior implantação global, a Fly London. Tudo porque se manteve fiel a um princípio, que o tem acompanhado ao longo da vida: “Não desistir de nenhum projeto por mais dificuldades que apresente.”

A primeira fábrica fundou-a pouco depois do 25 de Abril, com economias que já tinha feitas, mas o seu grande sonho era ter em mãos uma marca de fabrico próprio de qualidade. Foi assim que lançou a Kyaia nos anos 80 (nome escolhido em homenagem a uma localidade angolana que o marcou) e no início dos anos 90 cumpriu a sua ambição de produzir os seus sapatos. Já o nome Fly London apareceu quando, após muita procura por um nome chamativo, na Feira de Dusseldorf, soube que uns empresários ingleses se tinham chateado a caminho e já não iam para a frente com o seu projeto. Quando descobriu o nome (que já deve ter adivinhado qual era), fez-se clique imediato e comprou-o a um dos empresários. E o resto, como se costuma dizer, é história.

É um império do calçado com €65 milhões em vendas e que gere com a mesma energia de sempre a partir da zona de Guimarães, na qual continua a inovar como poucos num papel de aposta numa região que apesar das suas potencialidades “acredita demais num D. Sebastião que há de aparecer”.

Sempre “com entusiasmo e perseverança”, tem como mais recente desafio o Overcube, que representa €1 milhão de investimento e arranca com uma equipa de 20 profissionais dedicada às vendas online. Para ajudar na ambição de se tornar um dos cinco maiores grupos europeus do sector do calçado nos próximos anos.

Ouviu-se também o fado na voz de Gisela João, um dos nomes desta seleção nacional de campeões que cruza os mundos dos negócios, do desporto e das artes

Ouviu-se também o fado na voz de Gisela João, um dos nomes desta seleção nacional de campeões que cruza os mundos dos negócios, do desporto e das artes

Paulo Duarte

PEDRO CARREIRA

“Nunca comeces nada que não tenhas a certeza de acabares.” A frase é do pai de Pedro Carreira e foi dita ao filho quando este tinha 10 anos e deixou a meio um trabalho que tinha combinado de distribuição de medicamentos por se ter cansado.

“Deixaste ficar mal alguém que contava contigo”, avisou-o o pai, numa “filosofia de vida” que mantém sempre presente — seja na vida pessoal seja ao leme da Continental Mabor, fábrica da multinacional alemã de produção de pneus que é a unidade mais valiosa do grupo e tem em curso um investimento de €100 milhões para alargar ainda mais a sua capacidade.

Com um percurso que já o levou por Brasil e Roménia, após ter ingressado originalmente em 1988 no departamento químico da fábrica de Lousado, Famalicão, é CEO desde 2013 e olha com orgulho para “alguns projetos que no início eram impensáveis mas que acabaram por se tornar realidade”. Ambição que não deixa perecer naquele que é o quarto maior exportador português e de onde no ano passado saíram 18 milhões de pneus para todo o mundo.

Entre os seus ídolos, Pedro Carreira destaca três: Mahatma Gandhi, Martin Luther king e Einstein. Os dois primeiros porque sacrificaram a própria vida em prol dos seus ideais e o terceiro em razão da mistura que conseguia fazer entre génio e humanidade.

Valores que, tal como o que lhe foi transmitido pelo pai, procura aplicar a partir de uma região que considera estar a precisar de “outros meios para continuar a crescer e a desenvolver-se”, até porque, na sua opinião, parece que muitas vezes os empresários da zona “não são ouvidos”. Região que é sua de coração, porque apesar de ter nascido em Lisboa é “do Norte de alma”. Com “coração sportinguista”.

Como Braga subiu ao pódio das exportações

O tempo do made in já passou. Agora, o mote tem de ser o invented in ou o designed in Braga. E isto é válido para o Norte e para todo o país Como Braga subiu ao pódio das exportações No campeonato das exportações, Braga subiu pela primeira vez ao pódio dos concelhos mais exportadores em 2017, com um salto de 34%, para os €2 mil milhões. Este valor, só batido por Lisboa e Palmela, dá à cidade uma quota de 3,7% nas vendas totais do país ao exterior e, diz Carlos Oliveira, da InvestBraga, premeia um modelo de desenvolvimento “assente no capital humano, no conhecimento, na inovação”.

Na vida das pessoas, isto reflete- -se em indicadores como os oito mil postos de trabalho criados em quatro anos ou a redução do desemprego em 50%. As empresas também podem apresentar números como o salto da Bosch, de 1900 para 3450 trabalhadores, no mesmo período, o investimento da Accenture num centro de investigação onde já trabalham 120 engenheiros e entram mais 100 até ao fim do ano, ou a aposta da Fujitsu, com um plano de expansão dos 350 para os 500 postos de trabalho.

“O investimento estrangeiro no passado procurava grandes incentivos do ponto de vista dos impostos e de outro tipo. Hoje, procura conhecimento, talento, recursos humanos qualificados”, destaca o presidente da InvestBraga, certo de que Portugal é “um dos últimos redutos da Europa” com talento disponível no mercado e a aposta vencedora para aumentar a competitividade passa precisamente pelo conhecimento e inovação. “É aí que temos uma mina que tem de ser explorada”, afirma o antigo secretário de Estado do Empreendedorismo, Competitividade e Inovação, convidando todos a verem os cérebros, as pessoas, o ensino como “recurso natural, uma matéria-prima diferenciadora”.

Carlos Oliveira, da InvesBraga, apresentou “Uma Visão para oNorte”

Carlos Oliveira, da InvesBraga, apresentou “Uma Visão para oNorte”

Paulo Duarte

Na apresentação de “Uma Visão para o Norte” na quinta-feira, em Braga, durante o lançamento do projeto “Os Nossos Campeões”, que junta o Novo Banco, a SIC Notícias e o Expresso na criação de uma seleção de estrelas da economia, desporto e artes, centrou a sua análise no trabalho feito em Braga, onde a InvestBraga — Agência para a Dinamização Económica nasceu em 2014. Desde então, acompanha 384 projetos de investimento na ordem dos €600 milhões que deverão criar 2400 postos de trabalho até 2020. Deste valor, €359 milhões respeitam à atividade industrial e €232 milhões já foram concretizados, criando mais de mil empregos, resumiu.

Quando faz o balanço entre objetivos definidos à partida e resultados obtidos, acredita que “Braga deve ser um exemplo”. Porquê? Enquanto o saldo da balança comercial no país caiu 43% entre 2013 e 2017, cresceu 13% no norte e 116% em Braga, onde atingiu os €557 milhões. E o PIB no concelho está a crescer 1% acima da taxa média de 2,9% relativa à Península Ibérica, argumenta.

Olhando para o trabalho feito e a fazer, diz que “o grande mote é passar do made in Braga, made in Norte, made in Portugal, para o invented ou designed in Portugal”, porque é este foco na criação que permite subir na cadeia de valor, ganhar competitividade, exportar mais. A prova está nas pequenas empresas do concelho que exportavam €500 mil há poucos anos e hoje passaram a barreira dos €10 milhões puxadas pelos grupos maiores e mais internacionais, em especial no sector automóvel.

Textos originalmente publicados no Expresso de 14 de julho de 2018