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Alentejo sem mão-de-obra recruta madeirenses ex-emigrantes na Venezuela

A chegada do primeiro grupo de madeirenses, 
já na próxima semana, 
não acontece por acaso. 
É que está a arrancar 
por estes dias mais uma campanha de colheitas que se prolongará 
até outubro

FOTO duarte sá

Muitos regressaram da Venezuela sem nada. Alguns nem sequer falam português mas, entre estar desempregado na Madeira e ir para o Alentejo trabalhar, não custa nada arriscar. A Herdade do Vale da Rosa, em Ferreira do Alentejo, paga as viagens para o continente e disponibiliza casa a €35 por mês. O ordenado-base é da ordem dos €750, sem contar com as horas de trabalho extraordinário ao sábado

A Herdade do Vale da Rosa foi à Madeira tentar recrutar mão de obra entre os recém-chegados da Venezuela. Às sessões de esclarecimento compareceram perto de 600 pessoas. Homens, mulheres, jovens e gente de meia idade, engenheiros com diplomas reconhecidos e até uma antiga jornalista. Todos à procura de uma maneira de recomeçar num país desconhecido.

O auditório do Instituto Regional de Emprego da Madeira enche a cada uma das cinco sessões de recrutamento que os responsáveis da Herdade do Vale da Rosa promoveram na região. A herdade de Ferreira do Alentejo precisa de pessoas para embalar as uvas sem grainha que produz e os recém-chegados da Venezuela procuram trabalho, a maioria tem urgência em arranjar um meio de subsistência e tanto dá que seja a servir à mesa num café ou na agricultura, mas no fim de cada palestra sobram poucos para dar o nome.

Os potenciais interessados — selecionados entre os perto de 900 inscritos no Instituto de Emprego oriundos da Venezuela — hesitam. Uns ficam de dizer depois, precisam de falar com a mulher, com o marido, têm filhos pequenos e o risco de se meter numa nova aventura fá-los pensar. Não é o caso de Maria Gouveia e da irmã Sandra, filhas de madeirenses, chegaram há três meses e vivem em casa de família em Machico. Trabalhar no Alentejo é uma oportunidade e não têm aparecido muitas na Madeira.

‘Perguntam se tens diploma 
e carta de condução’

“Para o trabalho perguntam se tens escolaridade e diploma, se falas inglês e alemão e se tens carta de condução”. As irmãs não têm os documentos e falar línguas não era um requisito muito procurado no país de onde vêm. Maria, de 29 anos, estudou jornalismo e trabalhou numa rádio de Valência, a Contemporânea 99.5 FM, mas a emissora era da oposição e fechou. Os últimos dois anos antes de decidir sair trabalhou como rececionista. A irmã, Sandra, que tem um curso de administração, chegou a supervisora num supermercado, mas a crise na Venezuela cortou qualquer esperança.

Embalar uvas numa herdade por três meses e meio pode ser um bom começo. Os responsáveis do Vale da Rosa pagam a viagem de ferry até Portimão, garantem alojamento, um ordenado-base na ordem dos €750 mensais sem contar com as horas de trabalho extraordinário ao sábado. Cada sábado dá mais €40 e fica tudo estipulado no contrato, mas o primeiro ordenado a ser pago será no fim de agosto e, para quem está num aperto, é muito tempo para esperar. É que os interessados têm que se apresentar em Ferreira do Alentejo até 20 de julho.

Dos que ficam para dar o nome estão dois irmãos de 20 anos, são gémeos falsos. Angibel tem um curso de contabilidade e administração, Angel estava a tirar engenharia de sistemas, já tem o 12º ano reconhecido, mas quer dar um tempo. Chegaram há poucos meses e vivem em casa de uma tia no Campanário, uma freguesia da Ribeira Brava, a oeste do Funchal. Os dois viviam a poucos quilómetros de Caracas, em Los Teques, e a ideia de ir por uns meses trabalhar para o continente é algo que os anima. Por eles vão, estão decididos, ainda têm de falar com a família, os pais ainda estão na Venezuela.

Foto Nuno Botelho

João deixou a padaria e veio 
ver o que conseguia arranjar

Há outros dois irmãos, mais velhos, são dos poucos que nasceram na Madeira e, apesar de terem mais de 45 anos — 45 era a idade-limite para o recrutamento — acham que estão em forma e capazes de trabalhar durante três meses. João Henrique Freitas, 54 anos, tem uma padaria em Caracas e deixou a família lá. Veio ver o que conseguia arranjar. “Dinheiro até se faz na Venezuela, mas não se consegue trocar por euros ou dólares, não tem valor”.

De modo que, para ele, trabalhar uns meses numa herdade não faz diferença. É filho de emigrantes. O pai foi para Angola, depois para a África do Sul e acabou por assentar arraiais na Venezuela. A mãe, ele e o irmão mais novo, o Manuel, deixaram a Madeira na véspera de São João, em 1974, embarcaram no “Eugénio C” e chegaram ao porto de La Guaira no fim de junho. Manuel, divorciado e pai de duas filhas já adultas, regressou há pouco à Madeira e tem um part-time num supermercado, mas não está habituado a trabalhar “só quatro horas por dia e o salário é quase só para a gasolina”.

A ideia de ir trabalhar para o continente anima-o, ainda por cima pode levar o carro no ferry e aproveita para passear aos domingos. “Eu do continente só conheço o aeroporto de Lisboa, não conheço o resto. Esta pode ser uma oportunidade”, explica naquele português com sotaque castelhano. A maioria dos que se apresentaram nas sessões fala melhor castelhano e não percebe tudo o que é dito, é preciso repetir, explicar várias vezes, alguns nem são sequer lusodescendentes.

Como Ahymerd Riveras, engenheiro de produção, casado com uma bibliotecária descendente de portugueses. A mulher trabalha num café, mas ele quer mais, já tem o curso reconhecido pela universidade de Trás-os-Montes e até não se importava de trabalhar na herdade, mas como engenheiro. Ricardo Costa, o diretor-geral do Vale da Rosa, não promete o que não sabe se pode dar. Veio à Madeira recrutar pessoas para o armazém, não tem vaga de engenheiro para oferecer. O engenheiro não esconde o desânimo, mas vai falar com a mulher, ver o que pensa da situação, até podem ir os dois.

Na próxima semana chegam 
os primeiros 20 recrutados

Ricardo Costa diz, entusiasmado, que na próxima semana são esperados na Herdade do Vale da Rosa os primeiros 20 madeirenses, que vão ficar instalados numa casa em Santa Margarida do Sado (freguesia de Figueira de Cavaleiros) a pouco mais de 12 quilómetros do local de trabalho. O transporte entre a casa e a herdade é assegurado pela empresa. No entanto, e para vincular as pessoas à habitação, cada trabalhador vai pagar um valor mensal de €35 pelo alojamento.

A empresa que gere esta exploração já emprega, há vários anos, muitos trabalhadores de origem asiática (sobretudo do Paquistão, Bangladesh, Nepal e Tailândia) mas quer dar prioridade à mão de obra portuguesa.

“Temos muitos asiáticos, eles gostam de cá estar, mas consideramos que, havendo tanto desemprego em Portugal, devemos dar prioridade a trabalhadores nacionais”, sublinha o diretor-geral daquela empresa agrícola de Ferreira do Alentejo. Nota ainda que, “sempre que empregamos estrangeiros estamos e enviar divisas para fora do país mas, se empregarmos nacionais, acabamos por contribuir para a economia local”.

Para já não vêm da Madeira famílias mas, numa segunda fase, os responsáveis do Vale da Rosa querem que isso aconteça e, dessa forma, contribuir para a fixação de pessoas no concelho de Ferreira, um dos muitos — do interior — sacrificados pelo abandono e pela desertificação humana.

A chegada do primeiro grupo de madeirenses, já na próxima semana, não acontece por acaso. Na verdade, está a arrancar por estes dias mais uma campanha de colheitas de uva sem grainha — em grande parte para exportação — sendo que a época se irá prolongar até final de outubro.

No pico da colheita, entre finais de julho e setembro, a empresa irá precisar de 1000 trabalhadores, um número muito acima dos 400 que habitualmente trabalham na herdade ao longo do ano.

Se quiserem ficar 
não falta trabalho no Alentejo

Finda a época da colheita da uva o que é que pode acontecer às pessoas que vêm da Madeira? “Se quiserem, não lhes vai faltar trabalho”, assegura Ricardo Costa. É que, depois da apanha da uva, começa a colheita da azeitona, depois vem a laranja e logo em seguida outras culturas. Ou seja, para quem quiser ficar no Alentejo “há trabalho todo o ano na agricultura. Isso é uma certeza”, reforça aquele responsável.

Numa perspetiva de responsabilidade social, o gestor da Herdade do Vale da Rosa acrescenta que “gostaríamos muito de contribuir de forma sustentada para o repovoamento desta zona do Alentejo. Só isso, já seria uma grande conquista. Se, por acréscimo, conseguirmos garantir mão de obra aqui residente, sem termos de a ir buscar a mais de 100 quilómetros distância, como agora acontece, tanto melhor”.