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Advogados vão ao teatro para aprender a negociar

Alberto Frias

Faculdade de Direito
 da Universidade de Lisboa e Teatro D. Maria II uniram-se para treinar juristas na negociação

Catia Mateus

Catia Mateus

Jornalista

Todo o jurista é também um negociador, “mas nem sempre se sabe servir das ferramentas mais adequadas à negociação”. É o advogado Mário João de Brito Fernandes, um dos coordenadores, do curso “Técnicas de Negociação em Contexto Jurídico” que arranca em outubro no Instituto de Ciências Jurídico-Políticas (CJP) da Faculdade de Direito da Universidade Lisboa, quem o admite. A academia tem a sua quota parte de responsabilidade nisto, reconhece o advogado. É que as faculdades de Direito em Portugal, ao contrário do que acontece noutros Estados-membros da União Europeia, “não têm dado a devida atenção ao ensino de técnicas negociais a utilizar em ambiente jurídico”. Para colmatar esta lacuna, o CJP criou um programa de formação semestral, multidisciplinar, que visa “ensinar aos juristas tudo o que sempre quiseram saber sobre negociação e a Faculdade de Direito não lhes tinha ensinado”.

É no método escolhido que reside o principal trunfo desta formação que tem como principais destinatários juristas, mas também não-juristas que queiram aperfeiçoar os seus conhecimentos na área dos processos e técnicas negociais. “O curso de técnicas de negociação faz um apelo a uma abordagem multidisciplinar com recurso aos conhecimentos da psicologia, da análise da decisão e julgamento em contexto negocial, da teoria dos jogos, da estratégia e tática militares, das situações de negociação em casos de tomada de reféns ou da organização e direção de negociações e gestão de equipas multidisciplinares”, explica Mário João Fernandes.

Formação multidisciplinar

Realizado em colaboração com o Teatro Nacional D. Maria II e um conjunto de profissionais de várias áreas de especialidade — encenação, voz, media training, psicologia, retórica e argumentação e investigação criminal — o curso, que tem data de início agendada para outubro, mostra que “o fenómeno negocial pode ser encarado a partir de diversas perspetivas e ramos do saber.

Além da parte teórica que será lecionada na Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa, o curso combina também uma forte componente prática e leva os alunos ao Teatro Nacional D. Maria II para aulas práticas de encenação e workshops de voz, com Tiago Rodrigues (encenação) e João Grosso (voz). Mário Boto Ferreira, professor da Faculdade de Psicologia da Universidade de Lisboa, assegurará um dos módulos do curso centrado no diagnóstico da mentira e na análise de microexpressões, Pedro Prata, coordenador de investigação criminal da Polícia Judiciária, responde pelo módulo de negociação em situações de tomada de reféns, a jornalista Raquel Alexandra assegurará a formação na área de media training (treino mediático) e Pedro Wilson, encenador do Cénico de Direito, trabalhará com os participantes a encenação de textos negociais.

Para o coordenador do curso, no Direito tal como noutras áreas, as necessidades de formação, especialização e atualização dos profissionais são hoje permanentes e “vão além da licenciatura e do mestrado”. E na área do Direito, Portugal parece estar muito distante das práticas internacionais. O advogado relembra que “a Universidade de Harvard tem desde a década de 60 o Instituto da Negociação” e em Portugal “continuamos a não ensinar negociação nos cursos de Direito”, lamenta o advogado. O curso lançado pelo CJP teve no último ano uma edição experimental e arranca agora com um total de 20 vagas, posicionando-se como uma resposta para os juristas que procuram formação específica nesta área.