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É o “momento em que podemos mudar o mundo”

A mais recente edição do IBM Think Lisboa foi uma plataforma de demonstração e discussão da inovação que marca a atualidade. Os jornalistas da SIC, Pedro Mourinho e Sara Pinto (ao centro), foram os moderadores do painel que desafiou António Raposo de Lima, Francisco Barbeira, Vera Pinto Pereira, João Paulo Oliveira e Rogério Campos Henriques a “pensar o futuro”

Inovação. As grandes novidades do mundo digital e o impacto na sociedade e economia em destaque na mais recente edição do Think Lisboa

Tiago Oliveira

Todo o mundo é composto de mudança”, já cantava José Mário Branco. Hoje talvez mais do que nunca. Se até há bem pouco tempo coisas como inteligência artificial pareciam cingidas aos laboratórios de investigação, agora a realidade é outra. Da forma como trabalhamos à maneira como consumimos, o impacto da inovação tecnológica em todas as facetas da sociedade é evidente. Há só a “pequena” questão de perceber como aproveitar da melhor forma estas oportunidades, sem descurar os desafios que representam.
Discussão que esteve em grande plano no IBM Think, mostra global da multinacional tecnológica onde os temas mais prementes da tecnologia são reis e senhores. A edição portuguesa — que contou com o apoio do Expresso — teve lugar em Lisboa, no Convento do Beato, e tal como as suas congéneres mundiais foi subordinada ao mote “Onde a Tecnologia encontra a Humanidade.” Campo onde o mais recente “Global C-Suite Study” da empresa revela que 72% dos CEO entrevistados acreditam que as empresas tradicionais estão a liderar a disrupção no seu sector. São os chamados incumbentes digitais, que ao contrário do que era expectável (em 2015, no mesmo estudo, 54% achavam que os concorrentes surgiam sobretudo fora da sua indústria) estão a responder ao desafio de inovação lançado pela era das startups.


Vêm aí os carros autonómos
“Os incumbentes têm a enorme oportunidade de continuar a liderar”, garantiu Francisco Barbeira. O administrador do BPI revelou que os concorrentes menos tradicionais (as fintech) são “uma grande ajuda” porque obrigam a incorporar mais inovação. Aconteceu num processo em que mesmo com “vaga de tecnologia atrás de vaga de tecnologia” o sector bancário “foi capaz de se reinventar e aumentar as interações.” Opinião partilhada pelo vice-presidente da comissão executiva e chief information officer da Fidelidade, Rogério Campos Henriques, para quem “a grande concorrência vem dos players tradicionais”. Nos seguros este responsável pelas tecnologias de informação vê a “cadeia de valor radicalmente alterada” e diz que a sociedade tem que se começar a preparar para inovações como os carros autónomos, apesar de admitir que há tempo para preparar essa transição. Por outro lado, quando se estima que a tecnologia vai provocar menos acidentes, a expectativa é que a “prevenção pode ser um negócio”, ou até “mesmo uma oportunidade.”
A urgência em não deixar o comboio passar foi notória em praticamente todos os intervenientes, o que levou Remy Mandon a realçar que “estamos no momento em que podemos mudar o mundo.” O vice-presidente do Watson IOT para a IBM Europa falou do impacto que a internet das coisas (ver caixa) já está a ter, com a proliferação de sensores que fazem com que seja “muito fácil e barato reunir dados”, além do impacto “no comportamento do trânsito” e na redução da congestão.


(Perceber) quando intervir
Fatores que já contribuem para “uma mudança nos padrões de consumo e produção”, na opinião do responsável pela Inovação e Tecnologia da Galp. Carlos Martins de Andrade não escondeu que “os combustíveis fósseis continuarão a ter um papel relevante, pelo menos nas duas próximas décadas” mas que, por exemplo, a “descarbonização dos transportes públicos” está a avançar a todo o vapor. Já do lado da produção, as novas “tecnologias ajudam a mitigar o risco de impacto biológico” e a aumentar a eficácia. É o caminho rumo a “uma maior eletrificação da economia”, como designa a vogal do conselho de administração executiva da EDP, Vera Pinto Pereira, que falou da “liberalização do mercado” em Portugal como um “exemplo a nível europeu.”


Inteligência artificial no trabalho
Ao mesmo tempo, o local de trabalho encontra-se em constante mutação, com Mike Hobday, vice-presidente da IBM automação para a Europa, a garantir que “não é só uma destas tecnologias que vai mudar o local de trabalho. São todas em conjunto”. O responsável procurou mitigar alguns dos medos relativamente à maior incorporação da inteligência artificial nos processos de trabalho, ao apontar um cenário em que só se elimina “a intervenção humana em qualquer processo em que não origine valor acrescentado.” Ou seja, o “trabalho será perceber quando é preciso intervir” para que as ferramentas complementem ao invés de substituir. Poderá ser uma das formas “de colocar as empresas no futuro”. Algo que não é de todo estranho à The Navigator Company, que o administrador executivo, João Paulo Oliveira, garante dever muito do sucesso à “performance tecnológica.” Num sector que vive sob ameaça do digital, é importante “aumentar a segurança como forma de criar novos modelos de negócio”, sem esquecer mecanismos que ajudem, por exemplo “a prevenir incêndios” e que já são comuns nas florestas que fornecem a empresa.

Três perguntas a António Raposo de Lima, presidente da IBM Portugal

Quais são as grandes tendências tecnológicas que marcam a atualidade?

Em primeiro lugar, a inteligência artificial, conjugada com a construção e implementação de plataformas digitais com componentes de conhecimento e aprendizagem. É algo que estamos a ver surgir um pouco por todos os sectores de atividade, desde o transformador à energia ou às PME. Depois, o blockchain como alavanca fundamental no arranque destes novos projetos que estão a surgir em todas as indústrias e o quantum computing como o novo paradigma computacional. Tivemos aqui [Think Lisboa] casos reais de empresas portuguesas altamente destacadas. Saímos daqui todos encorajados.


Entre oportunidades e desafios, o que é que esses desenvolvimentos podem representar?
É o desafio da inovação, da transformação dos modelos de negócio e da criação de valor, que depois se tem de traduzir em crescimento económico que simultaneamente vai permitir desenvolver a economia, desenvolver a capacitação, os recursos e a empregabilidade mais consistente. As oportunidades são justamente a aplicação inteligente destas tecnologias a casos de usos concretos, e hoje há mecanismos para acelerar a implementação dessas soluções pioneiras. Historicamente, o desenvolvimento tecnológico passou sempre por tecnologias que criam novos espaços de valor e novas profissões entre outras que ficam redundantes. É um desafio que no caso de Portugal é um bom desafio, porque o problema que se coloca à população mais jovem é, porventura, haver uma procura excedentária relativamente à oferta. Através dos nossos projetos, estamos a ajudar a que essa melhoria dos skills dos jovens e dos portugueses possa colocar-nos numa posição mais competitiva não só no mercado de trabalho como também no empresarial.


Apesar dos progressos registados em Portugal, o que nos falta fazer para darmos o próximo passo?
Acho que não se está a fazer o suficiente. Se o gap existe, quer dizer que não estamos a fazer o suficiente. Se o projetarmos a dois, três anos, alargar-se-á inevitavelmente. É preciso trabalhar muito do lado da oferta e do lado da procura. Do lado da oferta, uma transformação do modelo de ensino na adequação dos currículos. Sei que o mundo académico está muito motivado a fazê-lo, e é necessário, porque se nos compararmos, por exemplo, com o Reino Unido, vemos que o modelo e a forma de lecionar recorrendo a estas novas tendências tecnológicas é diferente do que nós utilizamos. Há aqui uma transformação a fazer. Por outro lado, as empresas têm de acelerar no caminho de fazer requalificação dos quadros disponíveis, mas tudo isto tem de ser feito com base em modelos de negócios consistentes, ou seja, é preciso haver clientes. Sobretudo quando se trabalha a uma escala global.

Artigo publicado originalmente no Expresso de 23 de junho