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O imPACto do ‘Brexit’ na agricultura europeia

EMMANUEL DUNAND/GETTY

O ‘bolo’ servido aos agricultores encolheu. E a culpa fala inglês

Bruxelas, “we have a problem”. Basta olhar para o gráfico de barras que aparece mais à frente para se perceber que há ali qualquer coisa de estranho na sexta barra a contar de cima. Está completamente em branco. Ou seja, há uma carta fora do baralho, chamada Reino Unido.

Na redistribuição do dinheiro da Política Agrícola Comum (PAC) pelos campos destes países há menos um a receber, mas o problema é que era também um dos principais contribuintes líquidos para o orçamento comunitário.

No final do dia estamos a falar de um cheque a menos, de mais de €12 mil milhões, nos cofres de Bruxelas — todos os anos. Este percalço, associado ao facto de a própria Comissão Europeia estar a querer canalizar menos dinheiro para o próximo pacote financeiro da PAC para o período 2021/2027, resulta numa perda de €58,6 mil milhões para os agricultores europeus.

Portugal sai a ganhar, 
mas também pode perder

Em casa onde não há pão (no caso, euros) todos ralham e ninguém tem razão. Mas os países do Norte da Europa acham que têm toda a razão em querer cortar nos apoios à agricultura, para dar mais a outras áreas, como a da investigação, por exemplo. Todos os outros, do Sul e do Leste europeu, acham exatamente o contrário, e, no meio da confusão, há um que está a surpreender, mas já lá vamos.

Nesta luta de galos, que se repete de seis em seis anos, Portugal até fica numa situação que o ministro da Agricultura qualifica como nem má nem boa, antes pelo contrário. Ou seja, segundo contas fornecidas por Capoulas Santos ao Expresso, os agricultores portugueses até acabam por ficar a ganhar €279 milhões no pacote da PAC para 2021/2027.

“O problema, no nosso caso, é que o Estado — segundo Bruxelas — vai ter de aumentar a comparticipação de 15% para 30%” nos apoios a conceder aos agricultores. “Como é óbvio, é nessa frente que vamos lutar junto da Comissão, pois o que defendemos é que o Estado faça o mínimo esforço financeiro possível”, sublinha o ministro.

Assim que se conheceu a proposta de Bruxelas para o período 2021/2027, Capoulas Santos criou um grupo de pressão com Espanha e França. A iniciativa foi tão cobiçada que em menos de um mês já conquistou mais 17 adeptos. E há ainda o tal — “inesperado e surpreendente”, segundo o ministro — que esta semana se juntou ao grupo dos 20 para dizer que, realmente, seria melhor meter mais dinheiro no orçamento da PAC.

Foi Julia Klöckner, ministra alemã da Agricultura, que veio dar um contributo de peso à causa defendida por Portugal e restantes aliados. Aquela responsável defende que é necessária uma “posição mais construtiva” nas negociações que agora decorrem entre os vários países e a Comissão Europeia.

Note-se, porém, que ainda estamos no início de uma longa maratona de negociações entre os vários Estados-membros e Bruxelas, que se irá prolongar até maio do próximo ano — altura das eleições para o Parlamento Europeu.

Segue-se mais um ano de negociação das regras de aplicação da PAC, “que irão ser decisivas”, segundo Capoulas Santos. O ministro admite que vai ter de haver cedências de parte a parte.