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Multinacionais tecnológicas despedem por todo o mundo. Mas continuam a contratar. E em Portugal?

A Siemens está a reduzir postos de trabalho a nível mundial, mas quer contratar 240 pessoas em Portugal

HP, Amazon, IBM, depois de Microsoft, Siemens, Cisco, Nokia e Oracle. Todas despediram a nível global, num total de dezenas de milhares de funcionários. Portugal está a escapar à tendência.

O caso mais recente é o da HP, que anunciou, na passada semana, um processo de redução de efetivos que deverá levar ao despedimento de 5 mil profissionais nos diversos países onde a empresa opera. No arranque deste ano, a Amazon e a IBM tinham já anunciado reestruturações semelhantes. A primeira não divulgou o números de postos de trabalho eliminados, mas sabe-se que rondam as centenas. Já a IBM convidou a sair cerca de 10 mil profissionais em todo o mundo. Além destes, nos últimos cinco anos, a empresa quis também eliminar da sua estrutura perfis mais seniores. Dispensou mais de 20 mil trabalhadores acima dos 40 anos. A esta lista somam-se outras empresas, como Microsoft, Siemens, Cisco, Nokia e Oracle. Todas despediram a nível global. Portugal está a escapar à tendência.

A introdução ou substituição de tecnologias por parte das empresas (e consequente necessidade de adaptação das equipas), operações de fusão e aquisição e mudanças legislativas com impacto no desenvolvimento e na utilização da tecnologia (como o Regulamento Geral de Proteção de Dados) podem estar na origem destes processos de reestruturação. “Há empresas que se preparam para um cenário e acabam por ter outro, mais modesto, o que as leva a redimensionar a operação”, explica Paulo Ayres, especialista em Tecnologias de Informação da consultora de recrutamento Spring Professionals. A Nokia é um bom exemplo. A empresa apostou forte no segmento da realidade virtual com a câmara OZO para a captura e edição de vídeo, mas teve de repensar o negócio devido à “imaturidade deste mercado”, despedindo 310 pessoas na Nokia Technologies.

Em muitos casos, o despedimento numa das áreas estratégicas da empresa vem acompanhado por contratações noutra. Siemens, Microsoft e IBM são disso exemplo (ver caixa). Embora tenham realizado despedimentos em larga escala a nível internacional, continuam a contratar em áreas que são chave para o futuro da empresa, como a cloud (nuvem), segurança, inteligência artificial, machine learning (algoritmos com capacidade de aprendizagem), entre outras. “Durante os últimos cinco anos, reinventámos a nossa força de trabalho e a nossa base de competências para liderar nos segmentos emergentes e de alto valor no sector das tecnologias de informação”, explica fonte oficial da IBM Portugal ao Expresso.

Portugal a contratar

Esse parece ser o caso do mercado nacional, que não foi alvo de reduções de postos de trabalho anunciadas globalmente pelas tecnológicas. A Siemens fez saber, no final do ano passado, que iria cortar 6900 empregos em todo o mundo, mas contratou 186 profissionais desde o início deste ano comercial em Portugal. E Pedro Pires de Miranda, presidente executivo (CEO) da empresa no país, afirma que a tecnológica “mantém o plano de criar 240 novos empregos líquidos em Portugal até ao final do ano”, a maioria nas áreas da engenharia, tecnologias de informação e serviços digitais. O CEO garante ainda que o anúncio global de despedimentos não produziu impacto em Portugal: “Não saiu nenhum colaborador fora daquela que é a dinâmica normal da empresa.”

Na Microsoft, que tem mais de 500 colaboradores em Portugal, o panorama é idêntico. “A Microsoft continua a crescer e a investir em Portugal desde 1997”, assegura fonte oficial da empresa no nosso país. “O nosso centro de suporte internacional em Lisboa, que oferece suporte altamente qualificado para tecnologia da empresa, quadruplicou a sua dimensão nos últimos três anos.” O foco está na contratação para funções nas equipas de pré-venda, engenheiros de suporte, especialistas em soluções na nuvem, entre outras.

O Expresso contactou igualmente a Oracle, a HP e a Cisco para obter informações sobre o impacto dos cortes anunciados nas suas operações nacionais, mas as empresas não se mostraram disponíveis para comentar um cenário de eventuais cortes de pessoal.

Emprego garantido

Falar de milhares de despedimentos no sector tecnológico está longe de ser igual a falar da eliminação de postos de trabalho em áreas como as ciências sociais, as artes ou outras. “Quando existem trabalhadores dispensados na área tecnológica, o mercado absorve-os muito bem. Há centenas de outras empresas a querer contratá-los”, diz Pedro Oliveira, cofundador e diretor de operações da plataforma de recrutamento tecnológico Landing.jobs. “O mercado está tão bom que o problema não é ter ou não um trabalho, é ter o trabalho certo”, acrescenta.

O especialista da Spring, Paulo Ayres, corrobora a opinião. O líder relembra que a área tecnológica “tem sido, nos últimos anos, um dos sectores mais dinâmicos do mercado de recrutamento. Do ponto de vista global, a tecnologia deixou de ser vista como uma simples área de backoffice, mas sim uma maneira de reduzir custos, aumentar a competitividade e atrair mais clientes. E isso reflete-se diretamente em Portugal”.

Há áreas com maior risco de despedimento do que outras. Tudo depende da aposta tecnológica das empresas, concordam ambos os especialistas. “Áreas como programação, data science (ciência de dados), business intelligence (inteligência de negócio), cloud e segurança mantêm uma elevada procura”, diz Paulo Ayres. Mas há outras que nunca chegaram a estar em alta, como as infraestruturas tradicionais, não virtuais.