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Draghi dá um bónus de €45 mil milhões e juros da dívida descem nos periféricos

Portugal agradece mais umas centenas de milhões de euros em títulos que vão ser comprados pelo BCE no mercado secundário nos três últimos meses do ano. Juros a 10 anos fecham semana em 1,85%, já abaixo da taxa paga no leilão de quarta-feira

Jorge Nascimento Rodrigues

Na ponta final da semana, os juros (yields) da dívida pública dos periféricos do euro desceram no mercado secundário e afastaram-se dos picos registados na semana anterior motivados pelo contágio italiano.

O ‘milagre’ deveu-se ao Banco Central Europeu (BCE) ter decidido na reunião de quinta-feira em Riga prolongar a compra de ativos – e em particular de dívida pública no mercado secundário – até final do ano, altura em que descontinuará o programa de estímulos monetários conhecido por quantitative easing (QE, no acrónimo).

Em suma, são mais €45 mil milhões de aquisições que não estavam previstas, das quais mais de €35 mil milhões em dívida pública dos países membros do euro, com destaque para Alemanha, França e Itália. Para Portugal, isso pode significar compras adicionais no mercado secundário de Obrigações do Tesouro entre €600 a 800 milhões entre outubro e dezembro.

No caso das Obrigações do Tesouro português a 10 anos, os juros caíram na sexta-feira para 1,85%, vinte pontos-base (0,2 pontos percentuais) abaixo do fecho acima de 2% na semana anterior. Desceram no mercado secundário para um nível já abaixo da taxa de 1,919% paga pelo Tesouro no leilão de quarta-feira realizado no mercado primário.

Juros italianos com descida significativa

A descida mais significativa naquele prazo de referência registou-se nos juros dos títulos italianos que desceram 51 pontos-base (mais de meio ponto percentual) durante a semana, encerrando em 2,62%, face a 3,13% uma semana antes. No caso das obrigações gregas a descida foi similar à portuguesa. Para as obrigações espanholas a descida foi de 17 pontos-base e para os títulos italianos a queda foi de 13 pontos-base.

O prémio de risco da dívida dos periféricos desceu significativamente durante a semana, pois a queda nos juros das obrigações alemãs (designadas por Bunds) a 10 anos, que servem de referência na zona euro, foi pequena (apenas 3 pontos-base). O prémio que os investidores exigem para comprar dívida dos periféricos mede-se pela diferença entre os juros dos títulos do país em causa e os juros dos Bunds. No caso português, o prémio caiu de 160 para 144 pontos base numa semana. Cada 100 pontos-base equivalem a 1 ponto percentual. Deste modo, o prémio de risco exigido pelos investidores para a dívida portuguesa desceu de 1,6 para 1,4 pontos percentuais.

Na quinta-feira, o BCE reafirmou que a sua estratégia monetária para os próximos tempos continua a ser “acomodatícia”, ou seja baseada em estímulos monetários convencionais e não convencionais. Mario Draghi, o presidente do BCE, sublinhou inclusive, na conferência de imprensa de quinta-feira, que os estímulos não convencionais são agora parte da ‘caixa de ferramentas’ de política monetária do banco do euro.

Bónus de mais três meses no programa de compras

Os banqueiros centrais do euro decidiram, efectivamente, anunciar o fim do QE, um dos pilares dos estímulos monetários desde sobretudo 2015, neste caso, um estímulo não convencional. Mas, adiaram esse fecho para o final do ano e deram um bónus de mais três meses de compras de ativos entre outubro e dezembro, ainda que a um ritmo mensal reduzido para 50%.

O prolongamento do QE deveria terminar em Setembro próximo, mas foi adiado, por razões de cautela, que se prendem ao abrandamento económico na zona euro (o BCE reviu em baixa o crescimento para 2018) e a factores globais de risco, como o aumento do proteccionismo (com guerras comerciais no horizonte entre as principais economias do mundo). Esse pilar vai ser descontinuado desde o início de 2019 e significa, de uma assentada, a retirada anual de €315 mil milhões de compras de ativos (valor de 2018). O que, certamente, a partir de janeiro de 2019 irá ter o seu impacto no mercado.

Contudo, Draghi temperou essa perda futura recordando dois outros pilares da actual estratégia monetária: a manutenção das taxas de juro em mínimos históricos (estímulos convencionais) e o reinvestimento em novos ativos do capital recebido aquando da amortização dos títulos que possui em carteira, que, no final de maio, já somavam mais de €2,4 biliões. O BCE anuncia inclusive mensalmente os valores desses reinvestimentos no horizonte de 12 meses. Ou seja, há a manutenção de estímulos por essa via.

Taxas de juro do BCE não serão mexidas até ao verão de 2019

Sobre as taxas de juro do BCE, Draghi sublinhou que, pelo menos até ao final do verão de 2019, há um consenso entre os banqueiros do euro de não as subir. Esse anúncio provocou um adiamento da passagem a terreno positivo dos futuros da taxa Euribor a 3 meses para junho de 2020, quando, no dia anterior, essa mudança ocorria em março desse ano.

As taxas Euribor são as taxas interbancárias europeias mais importantes. Verificando-se uma subida ou descida dessas taxas há um impacto no nível das taxas de juros para produtos bancários como hipotecas, contas poupança e empréstimos. Atualmente, essas taxas, de uma semana a 12 meses, estão em terreno negativo.

A política de reinvestimentos também não tem, ainda, data de fecho. O assunto ainda não foi discutido no seio do BCE, disse Draghi. O fim dos reinvestimentos, quando ocorrer, significará, finalmente, a redução da carteira do BCE, o que, ainda, não se vislumbra. Em final de maio, o BCE era o segundo banco central do mundo com um balanço total mais elevado, logo atrás do Banco Popular da China, segundo dados da consultora Yardeni Research. O Banco do Japão situa-se em terceiro lugar e a Reserva Federal norte-americana em quarto lugar.

A semana em que se reuniram os principais bancos centrais

A semana ficou marcada, também, pelas reuniões de política monetária da Reserva Federal norte-americana (Fed) - que subiu a taxa diretora em 25 pontos-base e projeta mais duas subidas até final do ano -, do Banco do Japão (BoJ) e do Banco Popular da China (BPC).

O BoJ reviu em baixa o intervalo de inflação anual para 0,5% a 1% e os analistas preveem o começo da descontinuação do programa de estímulos iniciado em 2012 só daqui a 18 meses.

No caso do banco central da China, os responsáveis decidiram, pela primeira vez, não subir a taxa de juro - que está em 4,35% - logo a seguir a uma subida da taxa diretora pela Reserva Federal, face aos riscos de abrandamento da segunda maior economia do mundo.