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Atenas consegue saída ‘limpa’

Euclides Tsakalotos espera conseguir a 21 de junho um pacote de alívio de dívida que convença os mercados e lhe garanta a vitória política de ter tirado a Grécia dos resgates

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Otimismo. Os dados estão lançados para o Eurogrupo de 21 de junho. Ninguém quer o fiasco do resgate à Grécia

Jorge Nascimento Rodrigues

em Bruxelas

Jornalista

Reina o otimismo em Bruxelas sobre a ‘saída limpa’ do terceiro resgate por parte da Grécia a 20 de agosto. Na próxima semana, a 21 de junho, a reunião informal do Eurogrupo (ministros das Finanças da zona euro), chefiada pelo português Mário Centeno, deverá aprovar um pacote de alívio da dívida grega que será suficiente para que Atenas não seja forçada a recorrer a uma linha de crédito de precaução após o final do programa.

Esta semana em Bruxelas, num seminário sobre a Grécia organizado pela Direção-Geral dos Assuntos Económicos e Financeiros, Alexis Charitsis, o vice-ministro grego da Economia e do Desenvolvimento, garantiu que o Governo helénico não solicitará uma tal linha, que equivaleria, na realidade, a um novo programa de resgate. Charitsis, que se apresentou de gravata, adiantou que o Ministério das Finanças, chefiado por Euclides Tsakalotos, deverá garantir uma almofada financeira para o período pós-resgate e que o recurso a novas emissões obrigacionistas junto dos investidores deverá ser discutido após conhecida a decisão do Eurogrupo.

A solução política para o fim do terceiro resgate a Atenas vai trazer alguma estabilidade financeira, mas poderá “não fornecer uma solução definitiva para a Grécia, depois de tantos anos difíceis”, refere-nos o analista Nick Malkoutzis, editor e fundador do portal helénico “Macropolis”. “A minha expectativa para 21 de junho é que o Eurogrupo encontrará um compromisso que se adeque mais aos credores do que à Grécia”, diz Malkoutzis, para depois precisar: “Acredito que os equilíbrios políticos em alguns Estados-membros da zona do euro, particularmente na Alemanha, e a falta de confiança dos credores na Grécia significa que eles encontrarão uma solução que manterá os pagamentos da dívida grega e as necessidades de financiamento relativamente baixas nos próximos anos, mas não enfrentarão o problema de longo prazo.”

Alemanha e FMI 
ainda não se entenderam

A poucos dias da reunião crucial do Eurogrupo no Luxemburgo permanecem ainda divergências entre a Alemanha e o Fundo Monetário Internacional (FMI) a respeito da dimensão de uma nova extensão das maturidades nos empréstimos dos fundos de resgate europeus e das medidas de gestão da dívida por Atenas após agosto.

Há um consenso para que possam ser estendidos os prazos do empréstimo por parte do Fundo Europeu de Estabilização Financeira (FEEF), sediado no Luxemburgo, que desembolsou durante o segundo resgate quase €142 mil milhões, dos quais Atenas deve €130,9 mil milhões. O intervalo de discussão vai entre 0 e 15 anos, e fontes oficiais em Bruxelas admitem que o compromisso seja encontrado na faixa entre 5 e 10 anos de extensão. São conhecidas as exigências do Fundo para que as medidas sejam suficientemente claras para garantir a sustentabilidade da dívida grega, enquanto Berlim torce o nariz a um alívio excessivo e a opinião pública germânica encara as extensões de maturidades como reestruturações de dívida encapotadas.

Olivier Bailly, chefe do gabinete de Pierre Moscovici, o comissário europeu para os Assuntos Económicos e Monetários, admitiu esta semana em Bruxelas que, na realidade, já não há tempo para que o FMI tome uma decisão de participação financeira na ponta final do terceiro resgate, que termina daqui a pouco mais de 60 dias. Contudo, espera que o organismo chefiado por Christine Lagarde esteja tecnicamente envolvido no acompanhamento da Grécia após a saída do programa. Bailly sublinhou, ainda, que será importante para os mercados financeiros o selo técnico de aprovação do FMI ao pacote de medidas de alívio da dívida grega que sairá da reunião do Eurogrupo a 21 de junho. Pelo que um compromisso terá de ser encontrado entre as posições mais extremas de um lado e de outro, leia-se entre o FMI e o ministro das Finanças alemão Olaf Scholz. Na próxima terça-feira haverá em Bruxelas uma informação técnica sobre o processo de preparação da reunião de quinta-feira.

Todos de acordo 
para haver uma ‘saída limpa’

Os sinais de otimismo não são escondidos por responsáveis europeus. Hans Vijlbrief, o presidente do Grupo de Trabalho do Eurogrupo, que tem um papel vital na preparação das reuniões daquele órgão informal agora chefiado por Centeno, está “absolutamente certo” de que haverá acordo na reunião da próxima quinta-feira. Politicamente ninguém quer um fiasco na saída do terceiro resgate a Atenas.

O holandês garantiu, esta semana em Bruxelas, que “ninguém no Eurogrupo acha que a Grécia deva recorrer a uma linha de crédito de precaução, nem mesmo a Alemanha”, na pessoa de Scholz. Este peso pesado do SPD substituiu Wolfgang Schäuble, mas já disse, secamente, que não iria fazer nada de diferente do seu antecessor quanto ao essencial. O grupo de trabalho chefiado por Vijlbrief é formado por representantes das áreas de Finanças e Economia dos países do euro, da Comissão Europeia e do Banco Central Europeu.

A expectativa para a reunião de quinta-feira do Eurogrupo centra-se em três pontos. Estão em cima da mesa o volume da almofada financeira de que o Governo grego deverá dispor após agosto, a dimensão da extensão das maturidades dos empréstimos à Grécia por parte do FEEF, a possibilidade de usar parte do empréstimo do terceiro resgate ainda não desembolsado para comprar antecipadamente dívida ao FMI, que custa mais caro, e os contornos e condicionalidades da “vigilância reforçada” sobre as contas helénicas, que vai ser mais apertada do que a monitorização que é feita a Chipre, Irlanda e Portugal desde que saíram dos resgates.

O Expresso viajou a convite da Comissão Europeia