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A lã das ovelhas bordaleiras e churras portuguesas já viaja pelo mundo

Rosa Pomar faz dos fios de lã de ovelhas de raças autóctones um negócio internacional, que vende para geografias tão distantes como o Canadá, o Japão ou a Nova Zelândia

Joana Madeira Pereira

Joana Madeira Pereira

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Jornalista

Tiago Miranda

Tiago Miranda

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Fotojornalista

Além de empreendedora, Rosa Pomar é autora do livro “Malhas Portuguesas. 
História e Prática do Tricot em Portugal”

Além de empreendedora, Rosa Pomar é autora do livro “Malhas Portuguesas. 
História e Prática do Tricot em Portugal”

tiago miranda

Só aqui entra quem já sabe ao que vai, porque esta não é uma loja como as outras. Não tem montra, fica no segundo andar de um antigo prédio da Rua do Loreto, mesmo ao lado do Largo Camões, em Lisboa, e os degraus das escadas de madeira, altos, podem ser um desafio para os mais em baixo de forma. Nada que detenha quem aqui vem procurar um produto que praticamente não existe em mais lado nenhum: fios à base de lã 100% portuguesa, para tricô e outras artes manuais.

Na Retrosaria de Rosa Pomar, ilustradora feita empreendedora e investigadora da malha nacional, é possível comprar esta fibra natural como quem compra vinho, como se fosse castas: o fio Beiroa só é feito com lã proveniente da Beira Baixa, nomeadamente de ovelhas bordaleiras da serra da Estrela; a marca Cobertor é composta por lã de ovelhas churras nacionais; os novelos João têm na sua composição apenas lã de ovelhas da raça merino branco e merino preto, características do sul de Portugal, sobretudo do Alentejo; a marca Bucos é processada à mão e fiada em fuso manual por mulheres minhotas, a partir de lã de ovelhas da raça bordaleira de Entre-Douro-e-Minho; enquanto o mais recente fio Brusca, que começou a ser comercializado há uns dias, é feito em exclusivo com a fibra proveniente de ovelhas saloias — que, tal como o nome indica, já foram próprias da região de Lisboa, mas hoje já só se encontram em pouco número em alguns pontos do Alto Alentejo. São apenas alguns exemplos. Como o vinho, há lã para todos os gostos.

Ainda que pareça contraditório é agora nos meses de verão, quando chegam fornadas de turistas, que a loja tem mais visitas. No pico do calor, compram-se novelos para as camisolas que vão aquecer o inverno. “São todas as nacionalidades” que chegam ao balcão vintage da Retrosaria, conta Rosa Pomar, de 42 anos. Nórdicos, franceses, americanos, brasileiros e até australianos, acompanham, ao longe, nas redes sociais, o trabalho de pesquisa que a empreendedora vai fazendo um pouco por todo o país, ao encontro dos produtores de ovinos, da pequena indústria nacional têxtil e dos já poucos artesãos que ainda fiam e transformam o velo (a cobertura lanar dos animais) em fio. E, em turismo em Portugal, acabam por visitar a loja.

O segredo, neste negócio tão local, é mesmo estar no auditório imenso da internet — e, nisso, Rosa já tem experiência, ou não fosse uma das primeiras bloggers portuguesas a ganhar projeção internacional (o seu blogue ‘aervilhacorderosa.com’ foi para o ar em 2001) e ter lançado a Retrosaria primeiro em formato virtual, antes de passar para a loja física (que cumpre, este ano, o seu décimo aniversário).

“Mais de metade das receitas são feitas a partir da nossa loja online”, contabiliza Rosa, à frente de um negócio que, ainda que em comparação a grandes empresas “possa parecer mínimo”, não deixa de ser “interessante para uma retrosaria”: este ano, a faturação deverá chegar aos €200 mil. Mais de 50% das compras são feitas por estrangeiros. Por outro lado, desde o final do ano passado que a revenda dos fios da Retrosaria “explodiu” e já vale atualmente 25% das receitas.

Com exceção do continente africano, os novelos assinados por Rosa Pomar (e que se fazem acompanhar por rótulos desenhados por ilustradores portugueses) são vendidos em retrosarias um pouco por todo o mundo. Sobretudo nos países da Europa do Norte, mas também França, Espanha, Estados Unidos, Canadá, Taiwan, Japão e “até nos antípodas”, sublinha a empresária — a Austrália e a Nova Zelândia, com a China, são os principais produtores mundiais de lã.

Local global

Porque se interessa um dinamarquês ou um canadiano por um novelo de lã de uma ovelha portuguesa? “São pessoas que valorizam muito, por um lado, a rastreabilidade, querem saber exatamente qual a origem e os processos pelos quais passou um produto. Por outro lado, valorizam também o património cultural e a história de um determinado recurso e local. É por isso que digo que trabalho num nicho dentro do nicho”, diz.

Além disso, mais consumidores estão alertados para as questões ambientais e de sustentabilidade. Na segunda metade do século XX, a emergência das fibras sintéticas alterou, de forma profunda, a indústria têxtil e do vestuário. “Estamos a começar a perceber que o plástico é muito mau. E que não faz sentido vestirmos calças de ganga ou camisolas que já não são de algodão, mas sim de poliéster. Porque isso tem um preço e é muito alto”, aponta. “Ainda vai demorar muito tempo, mas, no futuro, vão ter de ser tomadas algumas decisões políticas, que podem passar por taxar, ou até mesmo proibir, as fibras sintéticas”, nota.

Em Portugal, há cada vez mais consumidores atentos a estas questões, mas ainda são a exceção. Na verdade, os clientes estrangeiros foram mais velozes a interessarem-se pelas lãs nacionais do que os próprios portugueses. São também eles que fazem as “compras mais substanciais”, aponta Rosa. O cabaz dos portugueses é mais modesto e não é raro ouvi-los dizer que as lãs “são caras”. Uma meada de 100 gramas de Beiroa, uma das lãs com mais saída, custa acima de €8. E há fios inteiramente transformados manualmente, como o Alfeire, feito pelas mãos de artesãos em Mértola, no Baixo Alentejo, cujo novelo se faz pagar por mais de €15. Tricotar uma camisola com estas lãs pode, facilmente, chegar aos €50. “Mas dura 20 anos, sem borbotos”, afiança a especialista, cujo lema é “comprar menos, comprar melhor”.

Preços a valorizar

Com a desvalorização da lã, os produtores de ovinos deixaram de ter o fator preço a motivá-los para produzirem matéria de qualidade. E sem preocupações de melhoria genética e dos cuidados apropriados, a lã portuguesa foi-se degradando. Agora, há quem deite fora a lã ou a enterre (já que ajuda a renovar o solo). Ou simplesmente a venda por atacado para a indústria têxtil nacional ou até para a China.

Este ano, Rosa Pomar vai comprar quatro toneladas de lã aos produtores portugueses — quantidade que tem aumentado de ano para ano, à medida que chegam novas encomendas e que a paleta de cores vai aumentando. Trabalha com várias associações de produtores que, além de atestarem a origem genealógica da lã, também servem de intermediárias com os produtores — acabada a campanha anual, depois das tosquias que já começaram e se estendem pelo verão dentro.

Muitas associações, todavia, ainda não estão sensibilizadas para trabalhar este recurso. Com algumas exceções, como a Associação Nacional de Criadores de Ovinos da Raça Merina (ANCORME), que já procede à escolha e vende lotes de lã selecionada. Por ser merina, é uma lã mais macia e, por isso, mais valiosa. Por tudo isto, no ano passado, comprou-a mais cara, mais de €2 por quilo. Também este ano, mais a Norte, na Beira Baixa, vai pagar mais pela lã bordaleira da serra da Estrela, comprando-a, pela primeira vez, diretamente à Associação Nacional de Criadores de Ovinos da Serra da Estrela (ANCOSE). “Vou pagar mais 30% do que no ano passado, cerca de €1,2 por quilo”, contabiliza.

Depois, há toda a parte de preparação e transformação do fio, numa cadeia produtiva têxtil partida e com poucos players, quase toda concentrada à volta da Covilhã e da Guarda, região de lanifícios por excelência, que perdeu o fulgor nas últimas décadas — e que faz crescer os custos e a burocracia. Cumprir o ciclo da lã, em Portugal, pode ser um desafio. Mas Rosa é perseverante: “Gosto de pensar que os meus filhos, da lã até à camisola, só têm de fazer umas poucas centenas de quilómetros para o conseguirem”.