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“Há algum limite a estes ataques?”: hackers e manipulação de preços realçam necessidade de regulação das moedas digitais

Metade da valorização da bitcoin e de outras grandes criptomoedas no passado resultou de uma da manipulação artificial de preços, conclui estudo

Foto Illustration by Chesnot / Getty Images

Bitcoin já afundou mais de 65% desde o pico mais elevado no final do ano passado. Desconfiança dos reguladores, ataques de hackers e alegada manipulação de preços contribuem para as oscilações desta e de outras moedas digitais. Blockchain pode dar uma mão aos reguladores

E se a blockchain, a tecnologia na base das criptomoedas, fosse utilizada para detetar manipulações de mercado associadas a essas moedas digitais? Foi o que fizeram John Griffin, professor de Finanças da Universidade do Texas, e o estudante universitário Amin Shams ao divulgarem esta quarta-feira um estudo que conclui que pelo menos metade do aumento no valor da bitcoin e de outras grandes criptomoedas no ano passado resultou de uma “campanha de manipulação de preços”.

Analisando milhares de transações registadas nas blockchains públicas de todas as moedas digitais compradas ou vendidas na bolsa Bitfinex, repararam que alguém naquela que é uma das maiores e menos reguladas bolsas de criptomoedas contribuiu para subir artificialmente os preços. Como? Utilizando uma moeda virtual secundária criada e vendida pelos detentores da plataforma para adquirir outras moedas: a Tether.

Apesar de, segundo o “The New York Times”, a plataforma ter negado qualquer manipulação e de os autores não terem emails ou outras provas, ao examinarem a evolução da Tether conseguiram chegar a uma conclusão: perceberam que metade dos aumentos no valor da bitcoin em 2017 ocorreram logo depois de a Tether se ter deslocado de esta para outras bolsas (normalmente quando o preço estava em queda).

A publicação do relatório contribuiu para empurrar o preço da bitcoin e de outras moedas digitais ainda mais para baixo: depois da sua publicação na quarta-feira, a bitcoin caiu mais 5% atingindo o ponto mais baixo do ano. A criptomoeda mais mediática afundou assim mais de 65% (para cerca de €5.300) desde o seu pico mais elevado, em dezembro, no qual ultrapassou a fasquia dos €16.500, de acordo com dados do CoinMarketApp.

Foto Artyom Geodakyan / TASS via Getty Images

Para este declínio contribuíram recentemente o ciberataque à bolsa sul-coreana Coinrail (que roubou 30% de todas as moedas digitais transacionadas neste mercado ou, segundo as estimativas, €30 milhões) e a notícia, avançada pelo “The Wall Street Journal”, que dava conta de que os reguladores norte-americanos estão a investigar manipulações de preços em quatro grandes bolsas onde se negoceiam estes ativos digitais: Coinbase, Bitstamp, itBit e Kraken.

Blockchain, uma arma para os reguladores?

A desconfiança dos reguladores em vários países, os sucessivos ataques de hackers a bolsas de criptomoedas (como este recente à Coinrail, em janeiro à japonesa Coincheck ou em dezembro à sul-coreana Youbit) e os episódios de alegada manipulação de preços têm contribuído para as oscilações na capitalização das criptomoedas. E evidenciam a falta de segurança e regulação neste mercado.

A segurança do acesso dos utilizadores às criptomoedas — e não da tecnologia blockchain, onde ficam registadas as transações — é apontada como o calcanhar de Aquiles destas bolsas de moedas digitais. Isto porque muitas destas plataformas são pequenas startups, com duas ou três pessoas, que ainda não investiram muito em sistemas de autenticação e segurança inteligente, explica à “Wired” Rik Ferguson, analista na empresa de cibersegurança Trend Micro.

“Há algum limite a estes ataques?”, questionou Naeem Aslam, da bolsa ThinkMarkets, citado pelo “The Guardian”. “De poucos em poucos meses, vemos o mesmo padrão. Isto resulta da perda de controlo regulatório e os reguladores devem chegar-se à frente para proteger os consumidores. Qualquer bolsa deve ser forçada a adotar segurança elevada e melhorias regulares nessa segurança.”

Há quem defenda que a resposta para os reguladores pode estar na blockchain. É o caso do advogado do Zimbabué residente no Reino Unido Prosper Mwedzi, fundador da VicFalls Coin, criptomoeda exclusivamente focada no turismo. “A blockchain é a maior ferramenta com a qual os reguladores têm de se familiarizar para ganhar a luta contra as atividade criminosas associadas às criptomoedas”, explica num artigo de opinião. E aponta a transparência, imutabilidade e eficiência desta tecnologia descentralizada na base das moedas digitais para ajudar os reguladores a rastrear as transações com criptomoedas. Tal como fizeram o professor Griffin e o estudante Amin Shams.

Mas para isso, assegura, é necessário antes um enquadramento legal para as criptomoedas.