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Anúncio de Mário Draghi bem recebido pelos mercados

Yuri Gripas / Reuters

O Banco Central Europeu anunciou esta quinta-feira o final do programa de compra de ativos, mas a descontinuação implicará um prolongamento das aquisições até final do ano, ainda que a um ritmo menor. As taxas não serão mexidas pelo menos até ao segundo semestre do próximo ano. O impacto imediato foi a inversão da subida dos juros da dívida na zona euro e das quedas nas bolsas

Jorge Nascimento Rodrigues

As decisões desta quinta-feira do conselho do Banco Central Europeu (BCE) tiveram um impacto positivo imediato nos mercados financeiros, invertendo a trajetória negativa de abertura influenciada pelo anúncio no dia anterior do aperto na política monetária da Reserva Federal norte-americana.

Os juros (yields) da dívida na zona euro, que estavam a subir em relação aos valores de fecho do dia anterior, começaram a cair no mercado secundário após a publicação do comunicado do BCE.

No caso das Obrigações do Tesouro (OT) português a 10 anos, os juros desceram para 1,9% pelas 15h (hora portuguesa), depois de terem chegado a perto de 2% pelas 12h15 . No caso dos juros dos títulos italianos naquele prazo de referência desceram de um máximo do dia em 2,93% pelas 11h45 para 2,75% agora. O comunicado do BCE foi publicado às 12h45. No caso das OT a 10 anos, os juros no mercado secundário já estão ligeiramente abaixo da taxa de 1,92% paga no leilão de dívida desta semana.

Nas bolsas da zona euro, assistiu-se, também, a uma inversão de trajetória, com os índices a passarem do vermelho para o verde, com exceção do PSI 20 na bolsa de Lisboa que ainda está ligeiramente abaixo da linha de água, mas com a trajetória claramente a apontar para o verde. Os índices Dax em Frankfurt, Cac 40 em Paris e MIB em Milão estão a subir mais de 1%, quando, de manhã, estavam em queda.

Mais €45 mil milhões no prolongamento até final do ano

Apesar dos banqueiros centrais do euro decidirem acabar no final do ano com o programa de compra de ativos, vulgo quantitative easing (QE, no acrónimo em inglês), decidiram antecipar que vão prolongar as aquisições pelo último trimestre, ainda que a metade do ritmo mensal atual. O que significa mais €45 mil milhões em compra de ativos entre outubro e dezembro, dos quais 82% serão afetados à aquisição de dívida pública dos países membros do euro no mercado secundário.

Se se mantiver o peso atual da compra de dívida portuguesa no total de títulos soberanos adquiridos pelo BCE na zona euro desde março de 2015, o prolongamento por três meses significa pelo menos mais de €600 milhões de OT compradas no mercado secundário, que não seriam se o programa terminasse abruptamente no final de setembro. No caso do ritmo mensal de compra de dívida portuguesa passar para metade do verificado desde janeiro deste ano, o montante poderá subir para quase €800 milhões nos três meses adicionais.

Taxas de juro atuais mantêm-se até durante o verão de 2019

A hipótese de uma paragem súbita do QE no final de setembro, quando terminava o prolongamento do programa, foi colocada de lado e Mario Draghi, na conferência de imprensa, sublinhou mais dois aspetos da estratégia do BCE: os reinvestimentos do capital recebido nos momentos de amortização dos títulos adquiridos vai prosseguir mesmo depois de findo o QE garantindo liquidez, e, pelo menos, até durante "o verão de 2019" (sem data precisa pré-definida), não haverá mexidas na política das taxas de juro, que estão em mínimos históricos.

Com este horizonte de não mexida nas taxas até meados de 2019, os futuros da Euribor a 3 meses apontam, agora, para valores positivos só em março de 2020, dando mais algum tempo de folga aos contratos de crédito à habitação indexados àquelas taxas.

Desvalorização do contágio italiano

Draghi, na conferência de imprensa desta tarde, procurou baixar a pressão motivada pela incerteza sobre a situação italiana. Repetiu diversas vezes que o euro é "irreversível" e que não se devem"dramatizar" mudanças políticas nos países membros do euro, e muito menos insistir na discussão sobre a existência do euro.

"Não há nenhum risco de redenominação de moeda [de saída do euro e regresso a moedas nacionais]. Temos atualmente um conjunto de novas salvaguardas no euro face a um risco de redenominação. Não vemos ainda nenhum contágio", disse o presidente do BCE.

Recusou, também, que o BCE tenha "conspirado" contra Itália depois da alteração política que ocorreu que abriu o terreno para um governo de coligação entre o Movimento 5 Estrelas e a Liga (ex-Liga Norte). Draghi sublinhou que, em maio, o BCE comprou inclusive mais obrigações italianas no mercado secundário do que em março ou janeiro.