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Outsystems é o novo 'unicórnio' português

A tecnológica acaba de angariar 360 milhões de dólares em capital de risco, investidos pela Goldman Sachs e pelo fundo KKR. É a segunda empresa nascida em Portugal a conseguir uma valorização acima de mil milhões de dólares, depois da Farfetch

Paulo Rosado fundador e presidente da Outsystems

Paulo Rosado fundador e presidente da Outsystems

FOTO Nuno Botelho

Não é uma startup, porque nasceu no já ido ano de 2001. Na verdade, está à beira de atingir a maioridade. Mas nem por isso deixa de ter o brilho dos negócios de rápido crescimento. A Outsystems, que atua no mercado do desenvolvimento rápido de aplicações de software (low code), é a nova estrela do firmamento empresarial português. Nascida em Linda-a-Velha (Lisboa) e atualmente com sede no Luxemburgo, acaba de anunciar uma ronda de investimento de 360 milhões de dólares (perto de €310 milhões), liderada pelos fundos de capital de risco da KKR e da Goldman Sachs.

Apesar de a empresa não revelar, por motivos de confidencialidade, qual a fatia do capital social envolvido, avança que o negócio avalia a Outsystems em mais de mil milhões de dólares – garantindo-lhe assim a entrada no seleto grupo dos ‘unicórnios’, empresas com uma avaliação acima dos 10 dígitos. São 1.000.000.000 de dólares. Praticamente 857 milhões de euros.

O acordo com os fundos norte-americanos ficou fechado no primeiro trimestre de 2018, sendo agora anunciado. Em causa, está uma fatia minoritária, que deverá rondar os 35% do capital da empresa – através de um cálculo simplista a partir do valor agora atribuído à Outsystems.

Antes da Outsystems, só a Farfetch, plataforma luso-britânica de comércio electrónico para marcas de luxo, havia conseguido alcançar o epíteto de 'unicórnio'. Foi preciso esperar quase 17 anos para a Outsystems também aí chegar. Em grande parte porque, segundo Paulo Rosado, fundador e presidente executivo, a tecnológica foi sempre uma empresa "à frente do seu mercado", na categoria de plataformas low code: “Nós começámos em 2001 e lançámos a primeira versão do produto no ano seguinte. Estávamos completamente à frente do mercado e tivemos de esperar uma série de anos até a indústria chegar ao nosso nível”, conta ao Expresso o empreendedor, a partir dos Estados Unidos, numa entrevista exclusiva a um órgão de comunicação social em Portugal (e que será publicada no caderno de Economia, no próximo sábado).

A tecnológica tem um volume de negócios que ronda os 100 milhões de dólares (85 milhões de euros) e que, segundo a empresa, “cresce mais de 70% anualmente”. Está presente, atualmente, em mais de meia centena de países, com destaque para os Estados Unidos, região Ásia Pacífico e Europa. Conta atualmente com perto de 770 trabalhadores, a maioria dos quais engenheiros informáticos e baseados em Portugal (nos escritórios de Lisboa, Proença-a-Nova e Braga). Até ao final do ano, segundo Paulo Rosado, serão feitas mais 400 contratações. "Somos uma empresa portuguesa, é assim que nos revemos", afirma o empreendedor, que escolheu Lisboa para, em fevereiro passado, lançar o Centro de Excelência em Inteligência Artificial da Outsystems, que capta 20% do orçamento total de Investigação & Desenvolvimento do grupo.

Low code, uma ferramenta rápida para fazer aplicações

Foi na viragem para o novo milénio que o engenheiro informático vislumbrou o futuro: produzir uma plataforma ágil de desenvolvimento de software que pudesse ser utilizada por outras empresas – que necessitam de criar os seus próprios sistemas de informação e aplicações ou que os fazem para outros. Este tipo de tecnologia, designada low code (e até há pouco tempo conhecida por agile software), permite aos programadores desenvolver aplicações de software de forma mais rápida e simples do que as tradicionais linguagens de programação e codificação, caracterizadas pela sua complexidade e elevado nível de abstração. Integrando, numa única plataforma, soluções de programação e de inteligência artificial, esta tecnologia torna possível desenhar desde complexos sistemas de suporte à produção até aplicações internas para colaboradores ou clientes.

Através de ferramentas visuais, intuitivas e, por isso, mais fáceis de aprender, a Outsystems oferece uma solução de programação rápida e com altos níveis de produtividade: bastam dias ou semanas, consoante a complexidade dos projetos, quando antes eram necessários meses ou anos. E tudo sem ter de ampliar as equipas de engenheiros.

A Outsystems, que começou por atuar sobretudo no segmento das pequenas e médias empresas (mais necessitadas de soluções mais fáceis e económicas para criarem tecnologia), tem nos últimos anos aumentado a sua carteira de grandes clientes, onde constam organizações como a Toyota, a Logitech, a Deloitte, a Schneider Eletric ou a General Motors Financial.

O negócio do low code está a disparar um pouco por todo o mundo, à medida que a transformação digital vai acontecendo em todos os sectores e indústrias, e ao ritmo a que as aplicações invadem as nossas vidas. “Nós preparámo-nos para ser os líderes e, agora, estamos a ser empurrados por esta onda, pelo crescimento elevado desta categoria. Este é um mercado muito grande. Neste momento, há analistas que o colocam entre os 25 mil milhões e os 30 mil milhões de dólares, em termos de dimensão. E está a crescer a mais de 40% ao ano”, conta Paulo Rosado. “Estamos a combater um dos grandes problemas que os negócios enfrentam hoje: a falta de rapidez e agilidade do tradicional software de desenvolvimento, que está a dificultar iniciativas de transformação digital em todo o mundo”, afirma o empreendedor de 52 anos.

Uma empresa sólida, “quase lucrativa”

Stephen Shanley, diretor da KKR, escusa-se a comentar pormenores do negócio. “Naturalmente olhámos para outras empresas deste mercado. O que nos fez optar pela Outsystems foi, em primeiro lugar, o seu produto, que pela profundidade e extensão, permite aos seus clientes construírem aplicações altamente complexas – muito mais do que vimos acontecer com a concorrência", conta ao Expresso.

Mas foi também a estrutura financeira sólida da Outsystems: “Raramente encontramos ativos que ultrapassam os 100 milhões de dólares em volume de negócios, enquanto continuam a crescer 70% ao ano, e que são quase lucrativos, além de verdadeiramente globais”, sublinha, elogiando a equipa fundadora, “feita de empreendedores fenomenais”. Na Goldman Sachs, o discurso está alinhado: "A Outsystems está diretamente alinhada com aquilo que nós procuramos nos novos investimentos: o apoio de fundadores e de equipas de gestão excecionais em negócios inovadores que oferecem oportunidades significativas de criar valor no longo prazo".

O responsável da KKR, fundo que gere ativos num valor de 176 mil milhões de dólares (mais de 150 mil milhões de euros), acredita que “ainda estamos nos primórdios de um período longo de crescimento progressivo e sustentado do mercado low code”. Dando como exemplo o portefólio da KKR, que conta com participações numa centena de empresas (em sectores tão variados como a energia, infraestruturas, imobiliário ou farmacêutica), Shanley reforça que o que “é comum em todas as indústrias é o facto de se estarem a tornar cada vez mais e mais digitais, tentado diferenciar-se através da utilização da tecnologia e da criação de softwares próprios”. Por isso, o low code é uma solução para elas. Sobretudo numa altura em que se verifica o envelhecimento das infraestruturas tecnológicas tradicionais, muito complexas e pesadas. “O que tecnologia como a da plataforma da Outsystems faz é permitir que as organizações desenvolvam rapidamente aplicações complexas, apesar de terem de lidar com uma escassez de engenheiros de desenvolvimento de software”, diz.

Stephen Shanley prevê que estas “mega tendências”, como a digitalização dos negócios e a falta de talento técnico, “se mantenham previsivelmente no futuro", dando "confiança" sobre "o crescimento a longo prazo deste mercado”, conclui.

Os unicórnios ‘made in Portugal’

Esta ronda de financiamento de 360 milhões de dólares é a segunda maior a envolver uma empresa com ADN português. Segundo a base de dados Crunchbase, a maior aconteceu em junho do ano passado, quando o segundo maior grupo de comércio electrónico da China, JD.com, comprou uma fatia da Farfetch por 397 milhões de dólares (praticamente 325 milhões de euros).

A Farfetch, plataforma de comércio eletrónico para marcas de luxo nascida pelas mãos do empreendedor vimaranense José Neves e sedeada em Londres, foi a primeira empresa ‘made in Portugal’ a sagrar-se ‘unicórnio’. Aconteceu em 2015 e, segundo noticiou em março o "Financial Times", estará a preparar a sua entrada para a bolsa de Nova Iorque ainda este ano, em setembro. A empresa estará a apontar para uma avaliação de 4,5 mil milhões de euros, aquando da estreia no mercado de capitais.

A partir desta terça-feira, neste mundo das tecnológicas e dos unicórnios, Paulo Rosado, 52 anos, passa a fazer companhia a José Neves. Falta saber quem será a próxima startup portuguesa a assegurar a chave dourada para entrar neste universo mitológico e milionário. A julgar pela lista da consultora Crunchbase, a fintech portuguesa Feedzai, fundada por Nuno Sebastião, poderá ter a mesma sorte. Se assim for, poderemos falar de um ‘unicórnio’ totalmente português.

Em outubro do ano passado, esta startup de inteligência artificial aplicada a operações bancárias, conseguiu levantar 50 milhões de dólares de capital de risco (42,3 milhões de euros). Foi, até hoje, a maior ronda de investimento conseguida por uma startup 100% nacional.