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Maior exportador precisa de mais formação

A conferência teve dois painéis de debate, ambos moderados por Pedro Santos Guerreiro. 
No primeiro estiveram presentes Francisco Seixas da Costa, Pedro Sousa, Francisca Guedes 
de Oliveira e Vítor Neves

José Fernandes

A metalurgia e a metalomecânica estão a ganhar mais peso na economia nacional, mas mesmo com a marca Metal Portugal, ainda precisa de se tornar mais sexy e atrair mais jovens

Ana Baptista

Ana Baptista

Jornalista

Em 2017, as exportações do sector da metalurgia e da metalomecânica somaram €16,4 mil milhões, mais 12% que em 2016. E já este ano, no primeiro trimestre, atingiram os €4,6 mil milhões, também uma subida, neste caso de 14%. Este sector não só é o que mais exporta em Portugal como tem estado a crescer a dois dígitos, anual e trimestralmente.

Ou seja, “está bem e recomenda-se”, diz Rafael Campos Pereira, vice-presidente da Associação dos Industriais Metalúrgicos e Metalomecânicos e Afins de Portugal (AIMMAP).

E até foi elogiado pelo primeiro-ministro, António Costa: “É justo e devido prestar homenagem ao primeiro sector exportador português. Temos referido o que tem sido o grande sucesso do crescimento das exportações no agroalimentar, têxtil e calçado, mas a verdade é que o primeiro sector exportador português é o das indústrias metalomecânicas”, comenta.

Ainda assim, é uma indústria que podia estar melhor, tendo em conta as carências que tem neste momento em termos de mão de obra, não só em número mas também em qualidade e em capacidade de adaptação à nova realidade de uma economia cada vez mais digital.

Esta foi uma das principais conclusões da conferência que o Expresso e a AIMMAP organizaram esta terça-feira em Serralves, no Porto e onde o primeiro-ministro esteve para encerrar os trabalhos. O tema era alargado — Metal 4.0: Sustentabilidade, Crescimento e Inovação — e o painel de oradores variado, mas foi transversal a todos que existe uma cada vez maior necessidade de formar mais e melhor os trabalhadores deste sector. “A formação é muito importante, mas não é fácil em três anos”, nota a associate dean da Católica Business School, Francisca Guedes de Oliveira.

Ou seja, é muito importante neste sector (e não só) apostar na formação contínua. “Temos de refundar todo o exercício da formação profissional. As empresas devem fazer parcerias com os formadores porque eles é que conhecem as necessidades”, nota o assessor da direção e especialista em formação da AIMMAP, João Girão. Principalmente quando se trata de um sector que tem a maior parte do seu negócio nos mercados internacionais.

“Ter uma boa base técnica é importante, mas quando se vai para fora há outras questões, como saber trabalhar noutras culturas. Isso é o mais crítico na minha empresa”, realça Vítor Neves, o CEO da COLEP Portugal. A empresa de produtos metálicos, construções soldadas para a indústria alimentar ou depósitos para a indústria farmacêutica e químicos, como as latas de espuma de barbear, tem uma grande atividade no exterior, por exemplo no México, onde entrou recentemente.
Mas para Francisca Guedes de Oliveira é também crucial adaptar o ensino e a formação profissional à nova realidade digital. E o administrador da TSF — Metalúrgica de Precisão, Pedro Sousa, não podia concordar mais. “Com a indústria 4.0 e com todas as máquinas ligadas digitalmente vai haver uma quantidade de dados para analisar e é preciso formar os trabalhadores”, diz. E não são só os engenheiros que têm de aprender a fazer isto, mas também os gestores, realça a associate dean da Católica Business School.

Tornar sector mais sexy
Outra das conclusões dos debates passa pelo facto de que uma melhor formação é meio caminho para ajudar a ultrapassar outro dos grandes desafios deste sector: melhorar a imagem e a comunicação a nível nacional e, principalmente, a nível internacional.

É verdade que este sector criou, em 2014, a marca Metal Portugal — que se lê da mesma forma em inglês, francês, alemão e, claro, português — precisamente para este efeito e tem dado os seus frutos, como se pode ver pelo aumento das exportações. Mas a imagem desta indústria ainda é um problema. E não sendo atrativa torna mais difícil atrair mão de obra qualificada. “Temos um problema de atratividade de jovens para a indústria”, comenta João Girão, acrescentando que é essencial “desenvolver perfis profissionais e curriculares mais adaptados à atualidade”.

No segundo painel estiveram João Cerejeira, Bernardo Trindade e João Girão

No segundo painel estiveram João Cerejeira, Bernardo Trindade e João Girão

José Fernandes

Mas para o professor da Universidade do Minho, João Cerejeira, a questão da formação é mais profunda. Diz ele que não existe diálogo entre as escolas e as empresas e que cada escola está preocupada em ter alunos e não no bem comum, ou seja, no ensino.

Ainda assim, para melhorar a imagem que ainda existe hoje do sector e que é muito ligada à maquinaria pesada, “podiam largar a ideia de ferrugem e falar mais do design e inovação e assim atrair mais pessoas”, sugere. Ou como diz um dos fundadores do Portugal In, Bernardo Trindade, aproveitar o boom do turismo para mostrar às empresas e turistas que qualquer área se serve de uma atividade associada da AIMMAP: a cutelaria, ou seja, os simples talheres.

Para o sócio da KPMG, Luís Magalhães, que abriu a conferência com uma apresentação, de facto, este sector não tem recebido a devida atenção, dada a importância que tem na economia nacional. Mas, apesar de ser, maioritariamente, composto por “empresas muito pequenas”, tem tudo para conseguir mais relevância lá fora e no contexto político e comercial mais protecionista que existe atualmente por causa das medidas de Trump e do ‘Brexit’. Mas para o embaixador Francisco Seixas da Costa ainda há uma esperança de algo positivo: “A agenda de Trump tem recuos e, sendo orientada para a economia, poderá haver algum realismo.”

Costa garante 
fim dos entraves no Cenfim

O primeiro-ministro, António Costa, garantiu, durante a conferência, que vai acabar com a necessidade de se pedir autorização ao ministério das Finanças para contratar formadores e professores para os centros de formação protocolares, neste caso no Centro de Formação Profissional da Indústria Metalúrgica e Metalomecânica (Cenfim).

O governante respondeu, desta forma, às reivindicações que, minutos antes, o vice-presidente da associação, Rafael Campos Pereira, tinha feito nesse sentido. “Não é admissível que este sector precise de autorização das Finanças para admitir um formador. Estamos a perder os nossos melhores formadores porque não os podemos contratar”, disse.

A encerrar esteve o primeiro-ministro, António Costa, que chegou mais no final do encontro, mas cuja presença demonstra a importância do sector

A encerrar esteve o primeiro-ministro, António Costa, que chegou mais no final do encontro, mas cuja presença demonstra a importância do sector

José Fernandes

O que se passa é que estes centros protocolares resultam de uma parceria entre o Estado e as empresas deste sector na qual os dois pagam, a meias, aos professores que são contratados para ensinar, por exemplo, serralharia ou soldadura. Mas nos tempos da crise, o Governo de Passos Coelho integrou essa despesa no perímetro orçamental e daí ser necessária a autorização das Finanças para se gastar o dinheiro. Agora, tudo indica, isso vai acabar.

Três perguntas:
Rafael Campos Pereira, vice-presidente da AIMMAP

Quais são os maiores problemas ou entraves ao crescimento deste sector em Portugal?
Os custos de contexto, nomeadamente a energia, são fatores que dificultam a vida e a competitividade das empresas nacionais e podia também referir a dificuldade de acesso a crédito para investimento aos mesmos valores que os nossos concorrentes. Mas neste momento, a maior dificuldade das nossas empresas é a obtenção de mão de obra qualificada para fazer face às necessidades do sector e aos desafios da digitalização e robotização da indústria. Estimamos que neste momento sejam precisos perto de 28 mil novos colaboradores para o sector, entre engenheiros, recursos intermédios para as áreas da soldadura, controlo de máquinas, design industrial e produção. A falta de estratégia que tem havido nas áreas de formação nos últimos anos e a falta de perspetiva face ao que vai ser a indústria do futuro, preocupa-nos.

E quais são os maiores desafios?
Claramente que continuar a aumentar as exportações, internacionalizando as empresas, é um dos maiores desafios. O mercado nacional é manifestamente insuficiente para crescermos de forma sustentada — sempre foi e por isso sempre fomos uma indústria de vocação internacional — pelo que a obtenção de resultados passará sempre por procurar novos mercados. O sector exporta cerca de 80% para a Europa e o restante para o resto do mundo e temos vindo a apostar em mercados que têm um enorme potencial, como a América Latina (Colômbia, Chile, México), a China e outros mercados asiáticos onde apreciam muito a qualidade do metal Portugal. Também nos parece relevante continuarmos a tentar substituir algumas importações por produtos nacionais, não numa perspetiva protecionista mas porque temos produtos nacionais igualmente competitivos. O associativismo terá sempre um papel crítico neste processo e foi por isso que criámos a marca Metal Portugal para podermos aparecer com uma imagem associada a qualidade e inovação “Made in Portugal”.

Por falar em associativismo, já fazem compra de energia em grupo?
A AIMMAP promove a compra de energia em grupo desde 2011. No início começamos pela aquisição de eletricidade mas face ao sucesso da iniciativa em 2014 começámos também a promover a compra de gás natural. Se a adesão das empresas é um bom indicador, então podemos dizer que a iniciativa é um sucesso: o ano de 2018 teve a maior adesão de sempre por parte das empresas, quer na aquisição de eletricidade quer na aquisição de gás. Aderiram ao concurso deste ano 374 empresas (na eletricidade) o que significou um aumento de 38% relativamente a 2017. Quando iniciámos este processo aderiram 57 empresas. Acho que estes números são significativos. Estamos a falar de empresas com um volume total de faturação na ordem dos €52 milhões e com consumos totais de 463GW. Já no gás aderiram 78 empresas (€8,3 milhões e 185GW). Com este tipo de práticas temos uma poupança média de 3% nas faturas de energia, sendo que temos casos em que a poupança é mais significativa do que noutros. Temos empresas a pouparem €25 mil/ano e outras a pouparem €1500.

Retrato do sector que o primeiro-ministro elogia

“É justo e devido prestar homenagem ao primeiro sector exportador português”, disse António Costa na conferência da AIMMAP. A metalurgia e a metalomecânica são responsáveis pelo fabrico de componentes e peças relevantes do dia a dia, como partes de um carro ou um simples garfo.

Textos originalmente publicados no Expresso de 19 de maio de 2018