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Como irá a Europa lidar com a "nova (des)ordem mundial"?

Jorge Jordão, presidente da APED (foto principal) abriu o debate moderado por Pedro Santos Guerreiro, diretor do Expresso, e que contou com Ana Pinto, professora da Universidade Nova e especialista em relações internacionais; Adolfo Mesquita Nunes, secretario de estado do Turismo entre 2011 e 2015; Margarida Marques, deputada e secretaria de estados dos Assuntos Europeus entre 2015 e 2017; Miguel Monjardino, professor da Universidade católica e especialista em relações internacionais; Paulo de Almeida Sande, consultor político do presidente da república

NUNO FOX

O primeiro debate da APED Retail Summit, que arrancou esta terça-feira, 8 de maio, e termina amanhã, quarta-feira, 9 de maio, teve o apoio do Expresso e juntou cinco especialistas em política internacional e assuntos europeus

Ana Baptista

Ana Baptista

Jornalista

O Reino Unido está de saída da União Europeia (UE), a Alemanha e alguns países de Leste estão a braços com uma crise de refugiados, em França crescem os movimentos nacionalistas e os EUA estão cada vez mais proteccionistas, alterando, por isso, as relações comerciais com a Europa. Não só por causa do congelamento das negociações para o Acordo de Parceria Transatlântica de Comércio e Investimento, mais conhecido como TTIP, mas também pela recente imposição de tarifas sobre as importações de aço e alumínio.

Este é o cenário - ou parte dele - que se vive atualmente na Europa e com o qual ela tem de lidar. Um cenário de “disrupção”, de “turbulência” e de “desordem” - mas não necessariamente pessimista - que esteve no centro do primeiro debate da APED Retail Summit. A conferência da Associação Portuguesa de Empresas de Distribuição (APED), que começou esta terça-feira 8 de maio e termina amanhã, quarta-feira 9 de maio, contou, neste primeiro encontro, com a parceria do Expresso.

“A Europa faz 78 anos amanhã [quarta-feira, 9 de maio] e esta disrupção que existe hoje está a afectá-la, mas ela não pode perder a sua identidade e, em primeiro lugar, tem de contar com ela própria, tem de encontrar as suas próprias forças”, disse Paulo de Almeida Sande, consultor político do Presidente da República e professor no Instituto de Estudos Políticos da Universidade Católica Portuguesa, um dos cinco intervenientes neste primeiro debate.

De facto, comentou, por sua vez, Margarida Marques, deputada e ex-secretária de Estado dos Assuntos Europeus entre 2015 e 2017, “existem exemplos de que a Europa está a agir”, nomeadamente no que diz respeito à “regulação da globalização”.

Mas, para Adolfo Mesquita Nunes, político e ex-secretário de Estado do Turismo entre 2011 e 2015, o problema da Europa é precisamente esse: o de ter um papel excessivamente regulador. “Diz-se que os EUA inventam, os chineses imitam e a Europa regula e por isso estamos sempre a perder tempo a regular”, comentou.

Ainda assim, para o ex-secretário de Estado, um dos maiores problemas - ou desafios - da Europa neste momento são os nacionalismos e os proteccionismos. “O tempo é hoje muito mais veloz. Há sempre ideias a aparecer que são melhores que as nossas e, por isso, há o receio de aparecer alguém que nos retira o primeiro lugar e é esse medo que é a causa para os nacionalismos e proteccionismos. Há quem queira fechar fronteiras, a pessoas e a produtos”, disse.

Isso vê-se, por exemplo, nas políticas do presidente dos EUA, Donald Trump, como referiram quase todos os intervenientes. Por exemplo, para Miguel Monjardino, professor da Universidade Católica e especialista em relações internacionais, Trump está a “proteger as cadeias industriais”, ou seja, quer reduzir as importações para aumentar a produção dentro do país, mas está a fazê-lo captando talento e isso sim, pode trazer um problema.

“A concorrência na captação de talento será cada vez maior”, nota.

Adolfo Mesquita Nunes, que participou no governo de direita de Pedro Passos Coelho, notou ainda que existe uma grande dicotomia dentro dos próprios partidos da Europa e que as ideologias - de esquerda e de direita - estão cada vez mais diluídas.

“Hoje estou mais próximo de ideias de pessoas mais à minha esquerda do que dentro do meu partido político. Estamos num ponto em que há amizades improváveis entre a esquerda e a direita”, comentou.

Mas ainda assim, diz ser um optimista, porque “estamos melhor do que estávamos há uns anos, na alimentação, na obesidade infantil, no PIB per capita, etc…”. O que é preciso, repara, “é transformar o discurso optimista em aspiracional” porque só assim se evita o crescimento das sociedades fechadas e que o populismo ganhe uma maior expressão.

Na prática, quer a Europa queira quer não ela vai ter de ser “habituar à mudança e a habituar a conviver com essa desordem”, disse a professora da Universidade Nova de Lisboa e especialista em relações internacionais, Ana Santos Pinto.

De facto, Francisco Seixas da Costa, o antigo embaixador representante da ONU e da UNESCO e ex-secretário de Estado dos Assuntos Europeus entre 1995 e 2001, que falou antes do começo deste debate, questionou-se se estaremos hoje no inicio de uma nova era na Europa e se a Europa ainda tem capacidade para ser relevante.