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Jovens ganham menos do que há 10 anos

Salários. Os millennials foram os mais afetados pela crise. Na última década, o seu salário real diminuiu 4,6% em Portugal

Catia Mateus

Catia Mateus

Jornalista

São apontados como a geração mais qualificada de sempre, vital para o sucesso e competitividade das empresas nacionais, mas a crise não poupou os millennials. Desde 2008, o rendimento mensal médio real — atualizado para preços de 2017 — dos jovens entre os 25 e os 34 anos, registou em Portugal uma variação negativa de 4,6%. Segundo as as contas do Expresso a partir das séries fornecidas pelo Instituto Nacional de Estatística (INE), o rendimento médio mensal líquido encolheu, em termos reais, dos €794 registados em 2008 para os atuais €757. Foi de resto o único segmento etário cujos salário médio recuou neste período (ver gráfico). Convém sublinhar, no entanto, que a média não resulta apenas de variações salariais, é afetada também — e bastante — pela alteração pode ser afetada pela composição: basta haver maior ou menor peso dos segmentos de maior salário (os licenciados) para a média subir ou descer.

E não se pense que a qualificação superior é garantia de incrementos salariais ou bons rendimentos futuros. Em Portugal, os licenciados ganham hoje menos 17,7% de salário médio mensal líquido, do que há uma década. São, de resto, os trabalhadores mais castigados nestes dez anos que passam desde a crise financeira.

Em 2008, um licenciado auferia, em termos reais, um salário médio líquido de €1504 nas empresas nacionais. Hoje, não vai além dos €1237. Desde 2009, altura em que um licenciado leva, em termos reais, para casa uma média de €1518 mensais líquidos que os salários dos profissionais mais qualificados estão queda. Na verdade, nem em 1998 um profissional qualificado ganhava tão pouco como agora. Nessa altura, ser detentor de uma qualificação superior garantia, pelo menos, €1531 mensais líquidos. Feitas as contas, o rendimento salarial médio mensal líquido dos trabalhadores com qualificação superior diminuiu, em termos reais, 19,2%.

Na verdade, a análise dos dados salariais do INE relativos às últimas duas décadas revela que a crise “forçou” quebras nos rendimentos de quase todos os grupos profissionais, ainda que em menor grau face às registadas entre os que detém qualificação superior. Entre os detentores de qualificação ao nível do ensino secundário ou pós-secundário, a quebra dos salários reais rondou os 11% desde 1998 e 10,7% se restringirmos a análise à última década. Os profissionais menos qualificados sentiram menos o impacto das reduções salariais. Se tomarmos como ponto de partida os seus rendimentos médios mensais líquidos reais de 1998, os trabalhadores com qualificações até ao ensino básico até registaram incrementos salariais na ordem dos 8%. Mas a comparação dos dados face a 2008 aponta para uma quebra do salário médio real de 0,2%.

A redução teve início a partir de 2010 e só deu sinais de inversão no último ano, altura em que estes profissionais registaram um ganho salarial médio líquido real de €11 mensais, totalizando os €665. Ainda assim, em 2002 um trabalhador com qualificações ao nível do 3º ciclo ganhava mais €12 euros mensais do que hoje.

A degradação das condições salariais dos mais jovens está a fazer soar múltiplos alarmes. O Núcleo de Observação Social da Cáritas Portuguesa divulgou esta semana as conclusões do estudo europeu “Os Jovens na Europa Precisam de um Futuro”, onde cruzou estatísticas oficiais para chamara a atenção para as dificuldades com que se deparam atualmente os profissionais mais jovens, por via do aumento da precariedade e a da diminuição progressiva dos rendimentos.

Baixos salários 
e empregos precários

Segundo o relatório, a maioria dos jovens em Portugal não consegue arrendar ou comprar casa. O desemprego — que apesar de estar a diminuir, se mantém elevado para os jovens, 22,2% (ver caixa) —, os empregos precários, os contratos irregulares e os baixos salários, argumenta o estudo, “fazem com que seja muito difícil para um jovem conseguir suportar os custos de habitação”. O estudo comprova que “as oportunidades de emprego e os níveis salariais diminuíram acentuadamente desde a crise financeira de 2008” e Eugénio Fonseca, presidente da Cáritas Portuguesa, reforça que “Portugal regista ainda um elevado nível de desemprego jovem e as habilitações de nível superior não estão a ser valorizadas pelo mercado de trabalho”.

O argumento do presidente da Cáritas Portuguesa remete para a perda real de 17,7% de rendimento salarial médio mensal líquido entre os licenciados, face a 2008, apurada pelo Expresso com base nos dados do INE. Se pensarmos que muitos dos salários mais antigos não podem, por lei, ser reduzidos, esta quebra está em grande parte relacionada com menores remunerações pagas a quem chega de novo ao mercado. Ou seja, os mais jovens recém-licenciados ou com pouca experiência. Para o representante da Cáritas o recurso a instrumentos de financiamento europeu pensados para reduzir o desemprego — como os programas de formação e estágios profissionais — estão a nivelar os salários por baixo e a agravar o emprego temporário entre os jovens portugueses, mesmo os mais qualificados.

O estudo conduzido pela Cáritas revela que esta é a primeira geração de jovens a enfrentar o risco de empobrecimento relativamente à geração dos seus pais. E até fala no aparecimento de uma nova geração que apelida de sinkies (a afundar). São maioritariamente jovens casais trabalhadores que dificilmente conseguem suportar as despesas com os seus rendimentos profissionais e que, por isso, não podem constituir família. E a Cáritas não é a primeira a reconhecer este desafio social. No último mês , o grupo de reflexão britânico Resolution Foundation, divulgou as conclusões do seu estudo anual “The Living Standards Outlook 2018”, onde alerta também para o desafio que é sobreviver com os rendimentos de um millennial na economia atual.

Segundo o relatório, que compara vários países, “a crise financeira provocou um rombo nos rendimentos dos millennials”. No Reino Unido, por exemplo, um millennial com 30 anos ganha só mais 6% hoje do que ganhava a geração nascida entre 1946 e 1965. Em valores reais, isto representa uma quebra de 14% do salário médio. As quebras registadas no Reino Unido são maiores do que as ocorridas na maioria dos países analisados. Mas segundo o estudo, os millennials portugueses figuram no grupo dos que registam maiores quebras nos salários médios reais face à geração anterior: 11%.