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Pode um banco central lucrar mais do que a Apple?

A política de travar a subida do franco no auge da crise está a traduzir-se em enormes ganhos

FOTO Denis Balibouse/ REUTERS

Banco da Suíça teve lucro recorde de 54 mil milhões de francos em 2017. Ações do banco disparam 23% este ano

João Silvestre

João Silvestre

Editor de Economia

Medir os lucros de um banco central na sua própria moeda é quase como avaliar o resultado de uma fábrica de enlatados em números de latas produzidas. Pode parecer estranho mas não é. É bem possível. Até porque os bancos centrais são muito mais do que uma simples ‘fábrica’: têm o monopólio da emissão de moeda e isso faz toda a diferença. Para o bem e para o mal. Que o diga o Banco Nacional da Suíça (BNS) que vai ter um lucro de 54 mil milhões de francos suíços (€45,9 mil milhões) em 2017. Um valor capaz de causar inveja em gigantes como a Apple, o JP Morgan ou a Berkshire Hathaway de Warren Buffet.

O número final ainda não é conhecido. Para já, é apenas uma estimativa avançada pelo BNS. Mas é já o suficiente para colocar o banco central helvético nas bocas do mundo. Trata-se de um valor que corresponde a 8% do PIB suíço — quase 25% do PIB português — e que coloca a instituição entre as mais lucrativas dos bancos centrais internacionais. Não chega, apesar de tudo, ao desempenho da Reserva Federal dos EUA (Fed) que terá tido cerca do dobro do montante de lucro devido aos rendimentos conseguidos com os títulos em carteira adquiridos nos programas de estímulo monetário (QE, de quantitative easing). Ainda que, proporcionalmente, o retorno do banco central suíço seja bastante superior.

Na verdade, vários bancos centrais têm ganho dinheiro com o combate à crise. O Banco de Portugal, que está integrado na estratégia do Banco Central Europeu, também tem visto os lucros engordar pela dívida pública que tem em carteira. Mas o ‘negócio’ do BNS é ligeiramente diferente. E nem sempre foi tão lucrativo.

No auge da crise da zona euro, o banco central helvético decidiu fixar um teto para o franco suíço. A divisa serviu de refúgio a muitos investidores que ‘fugiram’ da crise da dívida na zona euro e isso levou a uma rápida apreciação nos mercados cambiais. Com todas as dificuldades que implica para os exportadores. A imposição de um limite máximo para o franco não se consegue apenas por proclamação. Como dizem os americanos, o BNS tem que “meter o dinheiro onde mete a boca”, ou seja, tem que ir ao mercado e garantir que o câmbio do franco é aquele que pretende.

Travar a valorização do franco implica imprimi-lo e vendê-lo em troca de outras moedas ou ativos denominados noutras moedas. Esta operação deu mau resultado em 2013 e 2015, quando o banco teve prejuízos de, respetivamente, 9076 milhões de francos (€7,7 mil milhões) e 23.251 milhões de francos (€19,8 mil milhões), mas começou a render bastante a partir de 2016. Nesse ano, os lucros do banco atingiram 24.476 mil milhões de francos (€20,8 mil milhões). E no ano passado terão mais do que duplicado.

O que explica este resultado? A resposta é simples e igual em qualquer negócio: a valorização dos ativos. O que resultou da desvalorização do franco face a outras divisas, do elevado valor do stock de dívida devido à manutenção das baixas taxas de juro (yields) e da subida das bolsas, explicava esta semana o norte-americano “The Wall Street Journal”. O jornal chamava até a atenção para o facto de este lucro corresponder a 8% do PIB o que, no caso dos EUA, implicaria um lucro da Fed cerca de 15 vezes superior, a rondar 1,5 biliões de dólares.

A boa notícia é que o BNS tem o monopólio da emissão de moeda suíça mas não tem necessariamente a exclusividade dos ganhos. O banco é um dos poucos bancos centrais cotado em bolsa e quem quiser apostar pode comprar ações que, desde o início deste ano, já valorizaram 23% na bolsa de Zurique.