Construção apreensiva “com falta de visão nacional” para o programa europeu para África
28.12.2017 às 12h38
Ricardo Pedrosa Gomes, presidente da AECOPS
DR
A Comissão Europeia lançou um programa de 4,1 mil milhões de euros para financiar investimentos em África. Mas a associação dos industriais de construção teme que a oportunidade se torne uma ameaça às empresas portuguesas
Com a redução de empreitadas em África, a produção das construtoras portuguesas no exterior está em modo de redução. O Plano de Investimento Externo Europeu (PIE), destinado a fomentar o desenvolvimento sustentável em África e países vizinhos da União Europeia (UE) surge como um novo estímulo para a indústria portuguesa de construção reforçar a sua presença no continente africano.
O programa conta com uma dotação orçamental de 4,1 mi milhões de euros até 2020 que, segundo a Comissão Europeia, deve gerar um caudal de investimentos de 44 mil milhões. Mas, no tema PIE, o presidente da AECOPS - Associação de Empresas de Construção Obras Públicas e Serviços, Ricardo Pedrosa Gomes, está apreensivo. Porque, diz ele, Portugal não revela “nem visão nem estratégia para aproveitar esta oportunidade”.
Portugal na linha da frente
A relevância das construtoras em África “constitui uma mais-valia geoestratégica que importa aproveitar para consolidar a presença portuguesa em mercados encarados como estratégicos pela UE”, diz Ricardo Pedrosa Gomes, para quem a nova gama de financiamentos europeus “pode ser vital para todas as empresas que incorporam a cadeia de valor do sector”.
O industrial nota que “o PIE está a avançar lentamente, a ganhar forma e a dar os primeiros passos na Europa”, mas neste processo, Portugal “não está a ter uma atitude pró-ativa”.
O que falta? “Uma visão e estratégia nacionais para aproveitar esta oportunidade e criar condições para que as empresas portuguesas possam estar na linha da frente no acesso ao financiamento e execução dos projetos”, responde o presidente da AECOPS ao Expresso.
Da oportunidade à ameaça
E, se Portugal permanecer alheado e não tomar iniciativas “o PIE pode tornar-se uma ameaça” às construtoras portuguesas. Porque os concorrentes de outros países europeus vão beneficiar do programa e “ganhar preponderância em mercados à partida mais favoráveis ao reforço da exposição portuguesa”.
Ricardo Pedrosa Gomes sugere que o governo siga o exemplo de outros países europeus e lance “um organismo de apoio ao desenvolvimento que canalize os meios financeiros disponíveis e, acima de tudo, marque presença no fórum europeu em que o PIE se debate e implementa, de modo a que o país e o setor não percam por falta de comparência”.
A produção das construtoras portuguesas no exterior ficou-se, em 2016, nos 4,5 mil milhões, uma cifra que em 2017 voltará a registar uma ligeira redução, tendo em conta a evolução de novos contratos. Argélia, Angola e Moçambique foram os mercados que mais perderam. A América Latina, com o México em destaque, estiveram em alta.
A geografia do negócio segue inalterada. O presidente da AECOPS nota que “na última década as construtoras consolidaram a sua presença na África, América Central e do Sul e Europa” e afirmaram-se como grandes operadores europeus naqueles dois continentes.
Ricardo Pedrosa Gomes apela “à intensificação de parcerias e cooperação entre o Estado e as construtoras”. A cooperação aprofundada passaria pelo “reforço das linhas COSEC e outros instrumentos de financiamento e cobertura dos riscos de crédito” e pela gestão da dívida dos donos de obra locais, “impedindo que dificuldades conjunturais como atrasos de pagamento possam inviabilizar o investimento no exterior”.
Neste ponto, Ricardo Pedrosa Gomes pede especial atenção a Angola, “um mercado em processo de mudança”. A abertura do país pode conduzir a novas linhas de financiamento de entidades como o Banco Mundial e seduzir novos operadores que reduzam a influência portuguesa.