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Se a Grécia tivesse beneficiado do programa do BCE, os juros poderiam estar abaixo dos portugueses

É a opinião de Yiannis Mouzakis, economista-chefe do portal helénico Macropolis. Mesmo estando excluído das compras do BCE desde 2015, os juros da dívida helénica a 10 anos caíram a pique de mais de 11% para pouco mais de 4% no espaço de pouco menos de três anos

Jorge Nascimento Rodrigues

Se a Grécia não tivesse sido excluída do programa de aquisição de dívida pelo Banco Central Europeu (BCE) em 2015, os juros da dívida de longo prazo poderiam estar próximos ou mesmo abaixo dos registados atualmente para Portugal, segundo Yiannis Mouzakis, o economista-chefe do portal helénico Macopolis. “Não conheço nenhum estudo empírico sobre o assunto, mas, creio, ser seguro que a yield da dívida grega estaria próxima da de Portugal, ou até mesmo baixo, em virtude da escassez de dívida helénica detida pelo sector privado, pois a nossa dívida é dominada pelo sector oficial”, refere ao Expresso o economista do portal económico e político independente sediado em Atenas.

O país teve de fazer o percurso destes últimos quase três anos sem o apoio do programa do BCE e, mesmo com uma ‘saída limpa’ em agosto próximo não vai chegar a ‘entrar’ para o programa do BCE, diz o especialista grego. “Não penso que a Grécia consiga entrar para o programa de quantitative easing (QE) do BCE no seu atual formato”, refere Mouzakis. “Há um entendimento, mesmo no governo grego, de que isso está totalmente fora de alcance. Por isso, o próprio primeiro-ministro Alexis Tsipras disse na semana passada em entrevista à cadeia norte-americana CNBC que a Grécia não precisa do QE para recuperar o acesso ao mercado”, acrescenta.

Apesar de ter sido excluída do QE, a dívida helénica viu cair brutalmente os juros desde março de 2015 (quando se iniciou a aquisição de dívida pública dos restantes membros do euro no mercado secundário por parte do BCE) nos títulos com prazo a 10 anos – de 11,45% no início de março daquele ano para 4,4% atualmente. Desde 5 de dezembro que os juros naquela maturidade de referência, estão abaixo de 5%. Há oito sessões consecutivas que estão a descer.

Duas barreiras mesmo depois da 'saída limpa'

O país termina o terceiro resgate em agosto do próximo ano, um mês antes do fim do prolongamento do programa de compra de ativos pelo BCE, vulgo QE. Mesmo que o programa do BCE beneficiasse de mais uma extensão para além de setembro, o que o consenso dos analistas considera muito pouco provável, Atenas defronta duas barreiras – a falta de garantia da sustentabilidade da sua dívida pública e o rating altamente especulativo que as três principais agências de notação lhe atribuem.

As barreiras que Atenas enfrenta após a saída do resgate em agosto próximo são importantes. “O BCE exige garantias sobre a sustentabilidade da dívida helénica. Sendo o Fundo Monetário Internacional (FMI) a autoridade final nesse tipo de análise podendo confirmá-la, isso ainda não aconteceu, pois a Alemanha se recusou a discutir, no exame que terminou recentemente, as medidas de alívio da dívida de médio prazo”, sublinha Mouzakis. Recorde-se que continua pendente o acordo dos credores oficiais europeus, por pressão do então ministro das Finanças germânico Wolfgang Schäuble, para um plano claro para a dívida grega no médio e longo prazo, como exige o FMI.

“Essas medidas, provavelmente, serão discutidas a acordadas após o final do resgate, mas, nessa altura, a Grécia confronta-se com a situação de ter notações muito abaixo do grau de investimento. Deste modo, o BCE não vai aceitar obrigações gregas nem no seu financiamento operacional nem no âmbito do QE”, acrescenta o especialista da Macropolis. Recorde-se que as notações atribuídas pelas três principais agências estão em nível de risco substancial (quase no fundo da tabela, em CCC) ou em situação altamente especulativa (em B-), cinco níveis abaixo do rating de ‘lixo financeiro’ ainda atribuído pela Fitch e pela Moody’s a Portugal.