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O regresso dos engenheiros civis

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Retoma. As empresas estão a voltar a contratar engenheiros civis, mas o bastonário fala em “salários indignos” e relembra que é preciso criar emprego, mas não a qualquer custo

Catia Mateus

Catia Mateus

Jornalista

A engenharia está novamente na moda. É o bastonário da Ordem dos Engenheiros, Carlos Mineiro Aires, quem hasteia a bandeira. O investimento de empresas multinacionais em Portugal tem permitido somar em solo nacional inúmeros centros de competências, projetos industriais e tecnológicos e até plataformas comerciais, criando com elas mais emprego e alavancando a procura de engenheiros. O aumento das contratações é transversal a quase todas as especialidades da engenharia, mas há uma — a Engenharia Civil — que traz desafios acrescidos. Depois de anos em que a crise afastou milhares de engenheiros civis do país e centenas de alunos dos bancos das universidades nacionais, empurrando-os (por falta de perspetivas de emprego) para cursos noutras áreas, a engenharia civil está novamente a dar emprego e até já há quem fale em dificuldades de contratação e falta de engenheiros civis no mercado. O bastonário garante que é tudo uma questão de perspetiva e de salários. “O país ainda tem engenheiros civis suficientes para as suas necessidades, não estão é disponíveis para trabalhar por salários que mais do que baixos, são indignos”, acusa.

A consultora de recrutamento Michael Page acaba de divulgar as conclusões preliminares de um estudo que está a realizar sobre o recrutamento no sector da engenharia e que revela que, no último ano, a procura de engenheiros aumentou em Portugal. Pedro Mira Martins, gestor executivo da divisão de Engineering & Property da consultora, explica que o aumento das contratações é transversal à generalidade das especialidades, com particular enfoque na já habitual área das Tecnologias da Informação, mas também em áreas como a engenharia mecânica, eletrotécnica, industrial, de processos e de qualidade. Um aumento que vem acompanhado de um aumento de salários que ronda, em média, os 15% para a generalidade das funções (ver caixa).

Uma ofensiva de recrutamento que Pedro Mira Martins garante ser global e extensível até a especialidades que viram as portas do mercado de trabalho nacional fechar-se, como a Engenharia Civil. “Nos últimos anos, assistimos a uma redução na ordem dos 30% a 40% de profissionais e alunos que se afastaram desta área por falta de oportunidades laborais”, explica o especialista, enfatizando que “muitos profissionais integraram projetos fora de Portugal em países como Angola, Brasil ou Emirados Árabes. Embora, fruto da situação social e económica que se vive hoje nesses países, muitos tenham já regressado ou estejam a regressar, neste momento, a procura por parte das empresas é quase maior do que a oferta de profissionais disponível no mercado”.

Emprego de baixo custo

Carlos Mineiro Aires, bastonário da Ordem dos Engenheiros, tem outra forma de ver a questão. Ainda que reconheça o desinvestimento de que foi alvo a Engenharia Civil em Portugal, por profissionais e alunos que passaram a escolher outras oportunidades, o representante da classe garante que ainda não faltam engenheiros civis em Portugal. O que sucede é que “há ofertas de emprego que são tão vergonhosas pelos salários que praticam”, que não encontram profissionais dispostos a trabalhar por aqueles valores.

O bastonário Aires cita, a título de exemplo, uma oferta que apareceu no próprio portal da Ordem e que “pedia um engenheiro civil, com dez anos de experiência, por €570 euros mensais”. Carlos Mineiro Aires diz ver com muito agrado a crescente dinâmica de contratação da Engenharia Civil, à semelhança do que sucede com outras especialidades, “onde mesmo escasseando emprego em Portugal, os profissionais sempre tiveram ofertas de empresas estrangeiras e são muito reconhecidos pela excelência da sua formação a nível internacional”. Mas relembra que “é bom haver emprego, mas não emprego a qualquer custo”.

O próprio estudo salarial da Michael Page demonstra que, no sector da construção, os salários praticados entre os engenheiros são abaixo dos verificados no sector da indústria, ainda que sejam muito superiores ao exemplo dado pelo bastonário. Um engenheiro que integre, por exemplo, um gabinete técnico tem, segundo a consultora, uma remuneração média de €1600 brutos mensais. Mas Carlos Mineiro Aires garante que os salários €700 e €800 não são raros no mercado.

A impulsionar a recente vaga de contratação de engenheiros civis em Portugal está a dinâmica do mercado da reabilitação em Portugal. O gestor da divisão de Engenharia e Imobiliário da Michael Page e o bastonário da Ordem dos Engenheiros concordam que a maioria dos profissionais têm como destino projetos de reabilitação e habitação, já que o sector das grandes obras não está a recrutar um número significativo de engenheiros.

Basta olhar para as estimativas da Comissão Europeia (CE) para perceber que, para estes profissionais, até faz sentido falar no “milagre da reabilitação”. Segundo um estudo divulgado na passada semana pela Direção-geral da Indústria e Empreendedorismo da Comissão Europeia, as pequenas e médias empresas portuguesas vão criar 70.400 novos postos de trabalho até ao final do próximo ano, um aumento de 3% no emprego que estará muito ancorado na crescente dinâmica do sector da construção que deverá prolongar-se ao longo dos próximos três anos. O Instituto de Investigação Económica (Ifo) avança com uma previsão de aumento de 15% na atividade de construção nacional, entre 2018 e 2020, sustentado na crescente reabilitação urbana nacional.

A confirmar-se este cenário, os engenheiros civis nacionais voltarão a estar entre as prioridades de contratação das empresas. E, se neste momento os recrutadores já admitem dificuldades de contratação, seja por escassez de profissionais disponíveis ou porque os mais juniores que existem no mercado não possuem ainda as competências e experiência consideradas essenciais pelas empresas, o cenário pode mesmo agravar-se nos próximos anos se as universidades não conseguirem voltar a atrair jovens para esta área.

Os dados do Ministério da Ciência e Ensino Superior, relativos ao último concurso nacional de acesso, revelam que há sete anos que não entravam tantos alunos no ensino superior. Os 44.914 colocados este ano (metade entrou na sua primeira opção) só foram superados em 2010. Apesar disso, o número de cursos de Engenharia Civil que ficaram vazios, sem alunos, aumentou. Se em 20016/2017, num total de 19 cursos de Engenharia Civil, oito ficaram desertos e dois tinham apenas um aluno, no último ano letivo, 12 cursos (em 20 disponíveis) não tinham estudantes.