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Hotelar recupera Fábrica Rio Vizela

Rui Duarte Silva

Grupo da família Pereira investe €6 milhões e ajuda a primeira têxtil do vale do Ave a renascer das ruínas

À procura do espaço certo para investir em novas instalações, ganhar escala e responder à ambição de crescimento da Hotelar, a família Pereira cruzou-se, um dia, com a hipótese de recuperar parte das ruínas da Fábrica de Fiação e Tecidos Rio Vizela, a primeira têxtil do vale do Ave, em São Tomé de Negrelos.

“A falta de espaço estava a bloquear o nosso crescimento, e com esta escolha estamos a ajudar a recuperar uma fábrica que ficará para sempre na história da indústria têxtil portuguesa e que integra a Rota do Património Industrial”, justifica Pedro Pereira, que representa a segunda geração do grupo fundado pelo pai, Albino, em 1995.

Para isso, a família, natural de Santo Tirso, investe €6 milhões neste projeto, que envolve 37.000 m2 de terreno, 22.000 m2 dos quais são área coberta, distribuídos por dois pisos, onde vão concentrar escritórios, matéria-prima, produto acabado e produção.

Ocupam pouco mais de um terço do espaço da velha fábrica fundada em 1845, fechada desde o início do século, quando a crise dos têxteis bateu forte na região. Nos anos de glória, a Fábrica Rio Vizela deu emprego a mais de três mil pessoas. Foi até responsável pela chegada do comboio à freguesia, e uma das provas é o traçado da linha de caminho de ferro que atravessa o espaço industrial.

Agora, animada pelo novo ciclo de crescimento dos têxteis e também pelo boom no turismo, a Hotelar recupera os pavilhões do lado de cima da linha de comboio, onde já houve tecelagem, fiação e tinturaria. O pé-direito atinge os oito metros e as paredes e até algumas escadas são de granito.

“Uma das curiosidades do espaço é que foi construído num maciço de granito”, refere José António Lopes, da Ad Quadratum Arquitetos, responsável pelo projeto de arquitetura da nova têxtil, com o foco na preservação do património. “Estamos a recuperar as ruínas industriais respeitando a estrutura preexistente”, explica o arquiteto, que tem no Grupo Cerealis e na recuperação do Convento do Beato dois dos seus projetos de referência. Aqui, decidiu usar a construção preexistente como um cenário de arqueologia industrial do novo espaço, com uma solução que promete potenciar o aproveitamento da luz direta.

Antes de avançar, foram feitos testes físicos computadorizados à solidez das estruturas, com o apoio da Universidade do Minho. Depois, foi preciso estabilizar as ruínas, retirar a cobertura e os materiais indesejados, como o fibrocimento, com amianto, e limpar todo o entulho inflamável acumulado.

O projeto ainda está em fase de licenciamento, mas a expectativa é de que os trabalhos poderão avançar rapidamente, de forma a permitir à Hotelar concluir a mudança em meados do próximo ano. E, por essa altura, deverá haver uma rua com acesso direto à parte da fábrica recuperada.

Imobiliário e stocks

Pronta a manter um ritmo de crescimento anual de dois dígitos que permitiu fechar 2016 com um volume de negócios de €8 milhões, a empresa avança sem medo neste investimento. Albino, o antigo operário de armazém que fundou a Hotelar, em 1995, também não teve medo quando se estreou como empresário têxtil já há 45 anos. Hoje, reclama o título de líder do mercado nacional no fornecimento de têxteis para o sector hoteleiro.

No processo de expansão da empresa já tinha arriscado saltar dos 800 m2 para os 3000 m2, em 2010. Na altura, Albino ainda teve “algum receio de estar a exagerar”, mas agora ocupa os 22.000 m2 entusiasmado com a perspetiva de crescimento de um negócio onde já tem os filhos Pedro, Paulo e Luís ao seu lado. E, no caso de Paulo, a Fábrica Rio Vizela é já uma “velha conhecida”, porque chegou a trabalhar lá.

Com uma oferta alargada, da roupa de cama à de mesa, de banho e de decoração, a Hotelar aposta num modelo de resposta rápida, executando os projetos com recurso à subcontratação, o que permite à administração apresentar um quadro de 20 trabalhadores diretos, a que junta mais 150 indiretos. No futuro próximo, apesar de ter 22.000 m2 e de passar a assumir internamente competências de produção, por considerar que isso facilita um maior controlo do produto e dos prazos de entrega, a empresa admite, apenas, contratar mais 10 pessoas.

O foco do modelo de negócio está nos stocks, “sempre grandes”, para conseguir responder rapidamente a qualquer pedido de reposição, explica Pedro Pereira. E o investimento imobiliário permite criar espaço para aumentar stocks e ter “muito produto disponível” para vender, uma aposta de diferenciação assumida pela Hotelar. Ao mesmo tempo, a empresa que trabalha com insígnias como os hotéis Pestana e Vila Galé, mas só exporta 15% da produção, ganha folga para investir na internacionalização.