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Nem só de novelas vive a ficção nacional

“Madre Paula” estreia na RTP1 em outubro

Luis Coelho

Estratégia nacional para o audiovisual, coproduções e exportações são ingredientes essenciais para criar uma indústria em Portugal

Numa das salas do Palácio do Correio Mor, em Loures, meia dúzia de guardas esperam sentados no chão, uma pose pouco habitual para quem desempenha estas funções. Mas a chegada de D. João V e dos restantes homens da corte leva-os a interromper a pausa matinal. Estão a postos para mais um ensaio. Rei e conselheiros juntam-se à volta de uma mesa e debatem a hipótese de entrar na guerra com o imperador. A corte está dividida. Começam a discutir, até que o rei acaba por cortar: “Saiam todos, saiam!” Ninguém sai. A cena repete-se, depois de ouvidas as indicações do realizador. A sala está cheia — e não apenas com atores. Realizador, assistentes de realização e produção, diretor de arte, operadores de câmara são alguns dos 69 profissionais que estão a trabalhar só naquele dia de gravações de “Madre Paula”. Baseada no romance de Patrícia Müller e com estreia na RTP1 em outubro, a série conta o amor proibido entre D. João V e uma freira do convento de Odivelas.

Com um orçamento reduzido, foi preciso criatividade na produção. Filmar por décor (ou seja, gravar todas as cenas de uma só vez em cada local), aproveitar descontos de ‘pronto pagamento’ (para o guarda-roupa, por exemplo) e iniciar a montagem 15 dias depois do início da rodagem, de modo a receber mais cedo (a RTP paga a 30 dias), foram estratégias adotadas por Filipa Reis, da Vende-se Filmes, para produzir a série. “Em Portugal os orçamentos tornam tudo mais difícil”, diz a produtora. Nuno Artur Silva, administrador da RTP com o pelouro dos conteúdos, exemplifica: uma série contemporânea na Europa custa entre €400 mil e €500 mil por episódio de 50 minutos e uma série histórica entre €600 mil e €800 mil. “Cá temos orçamentos dez vezes inferiores.” E a realidade norte-americana é ainda mais distante: um episódio da série da Netflix “Narcos” custa “sete milhões de dólares”, indica Jorge Marecos, administrador da SP Televisão.

Testar para criar uma indústria

Com os privados centrados nas audiências, é a RTP que tem tentado estimular este mercado. “Queremos posicionar-nos na produção regular de séries na Europa, ao lado da BBC, TVE e nórdicos”, assevera Nuno Artur Silva. A aposta tem reflexos nas candidaturas ao financiamento público do Instituto do Cinema e do Audiovisual (ICA), que desde 2014 inclui concursos para produtores de audiovisual para televisão. Entre 2014 e 2016, as séries de ficção foram as que mais candidaturas enviaram e as mais financiadas: 22 projetos (€460 mil) receberam financiamento para escrita e desenvolvimento e nove para produção (mais de €3,5 milhões). Mas será possível, num mercado pequeno e com restrições orçamentais, criar uma indústria de ficção nacional que rompa com o monopólio das novelas e impulsione as séries portuguesas junto dos telespectadores?

O canal público acredita que sim. Diversificou, fugindo à estratégia de programação horizontal (diária) dos privados e à fórmula de sucesso na TV nacional: as novelas. A proposta do primeiro canal é exibir, de forma constante, uma série portuguesa diferente nos dias úteis, em horário nobre. Com uma meta de dez por ano, quer testar produtoras independentes e formatos no mercado nacional: arrancou com títulos como “Os Boys”, “Dentro” e “Terapia” e continuou com “Sim, Chef”, “Ministério do Tempo” e “Filha da Lei”, entre outros.

Muitos elogiam a orientação, mas criticam os produtos. “A estratégia é certa, a escolha das séries não”, aponta Bruno Santos, diretor de programas da TVI, realçando que — num país habituado à programação horizontal — a RTP devia exibir séries diárias, como “Bem-Vindos a Beirais”. E apontam a dificuldade em fazer vingar outros formatos junto dos portugueses, recordando a aposta da estação de Carnaxide na SIC Filmes, que terminaria por não ter público suficiente para sustentar esse investimento. Outros, como o diretor-geral da agência de meios Nova Expressão, Manuel Falcão, consideram a RTP incoerente: em vez de pulverizar o orçamento em muitas séries, devia apostar em menos e com maior qualidade. E vários acreditam que a série nunca poderá concorrer com a novela, que já deu mostras de sucesso junto do público. “Ouro Verde” (TVI) e “Amor Maior” (SIC) têm, em média, acima de um milhão de telespectadores, números que as séries atualmente mais vistas — “Inspetor Max II”, da TVI (mais de 783 mil) e “Sim, Chef!”, da RTP1 (527 mil) — não alcançam (dados da MediaMonitor/CAEM até 26 de março). É por isso que Bruno Santos não crê ser possível “criar uma indústria de ficção nacional sem incluir a telenovela ou com esta em segundo plano.”

Para produtoras e estações de TV, o caminho deve ser percorrido com os olhos postos nas novelas que, para ultrapassar a reduzida dimensão de Portugal, partiram à conquista de novos mercados: comunidade de países de língua portuguesa (africanos e Brasil), América Latina, Ásia, entre outros. Na SIC, por exemplo, sete novelas chegaram já a 40 países, com destaque para as produções da SP Televisão como “Laços de Sangue” (coproduzida com a TV Globo) e “Coração D’Ouro”, premiadas com um Emmy e com uma medalha de ouro no New York Festival, respetivamente. Sem revelar valores, João Pedro Nava, diretor de distribuição e venda de conteúdos da SIC, diz que o objetivo é aumentar receitas de exportação em 50% nos próximos três anos. E sublinha a aposta na venda de formatos de ficção: até agora, foram vendidos oito guiões para a América Latina. A TVI, por sua vez, já vendeu 22 novelas para mais de 37 países, com “Única Mulher”, “Saber Amar” e “Morangos com Açúcar” em destaque.

As séries também exportam — veja-se os exemplos de “Voo Direto” (SP Televisão para a RTP), “Lua Vermelha” (SP Televisão para a SIC) e “Inspetor Max” (Coral para a TVI) —, mas para menos mercados e com menor expressão que as novelas. “Até agora a produção de séries tem sido pontual e o seu custo é superior ao das novelas”, diz Henrique Oliveira, presidente da Associação de Produtores Independentes de Televisão (APIT). Mas acredita que a exportação em maior escala é possível através de “parcerias na produção” e se as séries “forem escritas, produzidas e realizadas a pensar na internacionalização, à semelhança do mercado escandinavo”, cujos países unem esforços de produção e exportação. A dinamarquesa “Borgen”, embora com um idioma e história locais, inclui elementos internacionais. “As personagens vão também a Londres, o que lhe dá uma dimensão europeia”, indica o assessor da APIT, José Machado. Já a dano-sueca “A Ponte” ocorre na fronteira entre os dois países, com atores de ambos. E foi essa a estratégia de “Vidago Palace”, recém-estreada na RTP1 e posicionada para abrir caminho a outras coproduções e exportações, explica o produtor Henrique Oliveira. Coproduzida entre Portugal (HOP! para a RTP) e a Galiza (Portocabo para TVG), a série tem financiamento público português e espanhol — o que permitiu “quase duplicar o orçamento” — e conta com o distribuidor internacional Lagardère, tendo já sido vendida à Itália e à Polónia.

Produzir azeite sem lagar

A exigência do consumidor, a expansão do cabo, a importância do digital e a conectividade têm alterado “a forma como os consumidores acedem, consomem e pagam por novos conteúdos, criando intermináveis opções de consumo” (fixo ou móvel, linear ou on-demand, gratuito ou pago), sublinha o relatório final da APIT “Produção de Conteúdos Audiovisuais em Portugal”, publicado em março. Novos canais de produção e distribuição, como o Netflix e o Amazon Prime Video, forçam a transformação dos modelos de negócio da indústria de TV. Há quem os veja como ameaças à TV tradicional, mas Manuel Falcão sublinha — recordando que as séries produzidas para TV linear “ainda têm maiores audiências” do que as online — que todas vão coexistir. E poderão esses ‘canais’ constituir mais uma plataforma para as produtoras venderem as suas séries? Os produtores acreditam que sim, mas Falcão mostra-se mais cético. “Para isso era necessário existir em Portugal massa crítica para amortizar o preço de produção, o que não se verifica.”

O diretor da Nova Expressão olha para o mercado português como um terreno árido: sem estratégia para o audiovisual, é difícil lançar formatos com uma relação custo-eficiência menos atraente do que as novelas (que, como têm mais episódios, conseguem diluir o peso na grelha de programação) junto de um público habituado a formatos diários. Para criar uma indústria, é preciso uma produção constante e permanente, para que “todos os sectores que constituem a cadeia de produção estejam em laboração de forma continuada e sustentável”, realça o administrador da SP Televisão, Jorge Marecos. E ter capital financeiro e técnico, sem o qual a TV não consegue profissionalizar-se: “É como se quiséssemos fazer azeite sem ter um lagar”, defende Pedro Boucherie Mendes. O diretor de canais temáticos da SIC acrescenta que é preciso dessacralizar as séries e a TV, para que esta seja efetivamente “vista como uma indústria” — com stakeholders, fornecedores e pessoas dispostas a arriscar — e não como “algo artístico”. E dá o exemplo do Reino Unido, onde o Barclays criou um fundo para apoiar a produção televisiva nacional direcionada para as plataformas em streaming. “Em Portugal a Sonae podia fazer o mesmo, por exemplo.” Bruno Santos critica igualmente a preferência pela produção “de autor” e conta que o júri do ICA não aprovou “Laura”, produção independente para a TVI, por considerá-la “muito comercial”. “Querem criar uma indústria e depois excluem uma série por ser comercial?”

Embora o mercado nacional cumpra “praticamente todos os pré-requisitos” para que a indústria audiovisual “se desenvolva a um nível comparável com outros países da Europa Ocidental de dimensão semelhante”, como a Holanda e a Suécia, falta-lhe um elemento essencial: uma estratégia nacional para o audiovisual. A conclusão é do relatório da APIT, que recomenda que se reformule a lei da televisão e dos serviços audiovisuais, de 2007, e se regule sobre novos canais dos serviços de subscrição de TV e plataformas, para que todos concorram nas mesmas condições. Além disso, o Estado deve criar medidas e incentivos à produção. Como chamar a televisão por cabo (onde os filmes e séries são o formato mais visto) a produzir e exibir ficção nacional, “tal como noutros países”, defende Jorge Marecos. Isso só não acontece “por incapacidade do poder político em apoiar esta indústria”.

Consumo de séries
Fonte: Entidade Reguladora 
para a Comunicação Social, 2016

94,4% dos portugueses que consomem séries veem-nas na televisão. Na faixa etária dos 15 aos 24 anos só 87,2% o fazem

13,1% dos portugueses que veem séries usam o computador, com destaque para os jovens (15-34 anos)

1,5% dos portugueses que veem séries veem-nas no telemóvel, mas a partir dos 35 anos ninguém o faz

1,3% dos portugueses que veem 
séries usam o tablet para 
o efeito, mas a partir dos 
45 anos ninguém o faz